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  Quando começa a chover em plena estação das chuvas?

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 30 de julho de 1975


Em seus tempos de articulista, o ex-ministro e atual embaixador Roberto Campos fustigava a oposição, por seu apego a criticas fáceis, em torno de “bandeiras” também fáceis. Hoje, em vez de preocupar-se com “o outro lado da cerca”, ele constataria, perplexo, que não há diferença de atitudes “dos dois lados da cerca”, numa distorção de comportamento que talvez só os analistas políticos possam explicar.

Exemplos? Sobram. Nas mínimas coisas. Inaugura-se o metrô de São Paulo. Um lado da cerca, de oposição sistemática, diz que o metrô só servirá a classe média, não a classe trabalhadora. O “outro lado da cerca” implica com questiúnculas: o prefeito disse que não ia fazer festa, agora fez, há 20 acidentes por mês no metro (na esmagadora maioria, pessoas idosas que caem das escadas rolantes), o metrô demorou seis anos, fez uma buraqueira, atrasou tanto na administração de fulano, tanto na de beltrano, a nova linha nova não sai e por aí afora – quando não surge um “lobby” das concessionárias de ônibus (e os interesses maiores por trás dela) a demonstrarem que o metrô não vai ser usado por ninguém, só 60 mil pessoas recorrem a ele em São Paulo, diariamente: “um fracasso”.

O metrô, no entanto, é uma revolução, detonador de efeitos em cadeia: reduz o transporte em ônibus, reduz o consumo de combustível, reduz o gasto de dólares, acelera o tráfego pela retirada de veículos (e essa aceleração resulta em novas economias de combustível, gasto em maior quantidade no tráfego lento), melhora a qualidade de vida de quem se serve dele. Abre finalmente, caminho para o disciplinamento do crescimento das cidades, através de sistemas de transporte de massas que permitam o acesso a áreas novas e o combate a especulação com o preço dos terrenos nas áreas já urbanizadas.

UMA QUESTÃO DE ÓTICA
Uma política de transportes de massas mal avaliada, tratada de maneira imediatista. Uma política urbana idem. Enxergam-se pulgas, não os elefantes – dos dois lados da cerca.

Os dois lados da cerca descobriram agora que existe um cataclismo horrível, no mundo, chamado “As Quatro Estações”. Pois não é que tem seca na época da estiagem, e chove no tempo das chuvas?

Uma catástrofe, recebida com sorrisos e esfregares-de-mão pelos dois lados da cerca. Um, porque vê os problemas crescerem. Outro, porque vai lucrar com o novo horror às “quatro estações”. Ao lado do “terrorismo estatístico”, tem-se agora o “terrorismo climático”: cai granizo em Barranco Azul e surgem logo os sábios comentários de que “houve perdas à lavoura, comprometendo a próxima safra”. Como se num país de 8,0 milhões de quilômetros quadrados de área não tivesse que cair granizo em um infeliz Barranco Azul qualquer, já que é mesmo época dele, granizo, e ele não sabe fazer outra coisa senão cair. Descobre-se que as vacas produzem menos leite na entressafra (de onde viria essa misteriosa palavra? Será que ela não quer dizer exatamente um período entre safras, isto é, da baixa produção?).

Revela-se que os pulgões atacam as lavouras quando chove, e que o bicho mineiro age quando há seca – e, lógico, por isso “vai haver quebra de safra”. Mas não existiu sempre bicho mineiro? Broca? Pulgão? Lagarta? Ou por acaso os defensivos agrícolas foram inventados só para envenenar pessoas, poluir rios, destruir rebanhos?

INGENUIDADE CABLOCA
O preço do açúcar está novamente de rastros, no mercado mundial. Os EUA adiam suas compras de café, porque acham que houve exagero na avaliação dos efeitos das geadas. Continuam a crescer as montanhas de carne invendáveis na Europa, dizem despachos telegráficos.

Se os dois lados da cerca não estivessem catando pulgas, poderiam tirar ou reforçar conclusões, a partir do episódio. O mercado mundial, sobretudo para produtos agrícolas, é um mundo selvagem, do qual não se pode depender quando se deseja ter um crescimento equilibrado, gradual – e a própria evolução econômica do Brasil em anos recentes mostra que o país sempre desembocou em crises, econômicas e sociais, por estrangulamento na área cambial, isto é, em suas revelações com o exterior. O problema fundamental do país é, pois, preservar o “modelo econômico”, semi-implantado, voltado para o mercado interno, para o fortalecimento da empresa nacional não se admitindo um retorno ao modelo “aberto para o exterior” que já demonstrou suficientemente sua fragilidade.

Essa realidade precisa ser entendida, aceita, por um dos lados da cerca, correspondente, às áreas que tem poder de decisão – inclusive a classe empresarial. Não se entende a permanência dos “lobbies”, a preocupação com interesses menores, o desagrado ante a anunciada política urbana ou o sistema de transporte de massa, o terrorismo estatístico e, agora, o climático. São atitudes impensadas, voluntaristas, de quem deseja moldar a realidade a seus desejos, o que não é possível conseguir nem mesmo com aliados poderosos. Talvez acreditando poder imitar a “manipulação estatística” de Washington, fabricam-se “quebras” de safras para pedir aumento de preços no mercado interno, e elevar as cotações no mercado externo. O próprio caso do açúcar é um exemplo desse comportamento impensado: a Secretaria da Agricultura de São Paulo apontou uma quebra de 10 milhões de toneladas na safra de cana, por causa das geadas, possivelmente com o beneplácito do IAA, que não se pronunciou sobre essa revisão estatística. Mas o feiticeiro não tomou conhecimento do ensaio do aprendiz: os preços do açúcar estão despencando. Como aconteceu com a carne – para citar só mais um exemplo.

A crença nos lucros fáceis da exportação é um fenômeno de importação maior do que se acredita, à primeira vista: ela tem levado o produtor a um certo desprezo pelo mercado interno, pelo consumidor interno, sempre a espera do dia em que a euforia exportadora voltará.

Daí as elevações de preços internos, a especulação, o mal trato a um mercado consumidor que não cresce como poderia dando bases sólidas para a produção agrícola e, por extensão, para o consumo de bens industriais. Amanhã, pode sobrar café no mercado interno. Ou açúcar. Ou carne. Ou leite. Ou laticínios, já vendidos a preços que despertaram o interesse das multinacionais, entrando nacionalmente no setor. Ou arroz. Ou soja. Ou feijão, vendido a Cr$ 9,00 nos dias de hoje. Ou milho (safra recorde nos EUA). Ou frangos.

Mergulhados na defesa de interesses miúdos, os dois lados da cerca estão perdendo a perspectiva dos problemas fundamentais do país. Que não se resolverão no exterior.



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