Jornal Diário Popular , sexta-feira 12 de maio de 2000
Irritado, o presidente da República diz que o Brasil precisa parar de preocupar-se com as bolsas de valores internacionais, ‘‘e olhar para si mesmo’’. Qual o motivo do puxão de orelhas? Nas últimas semanas, o valor do real voltou a cair, diante do dólar. Ao mesmo tempo, as taxas de juros entraram em disparada aqui dentro e, o pior de tudo, banqueiros e investidores começaram a fugir dos títulos do governo — que precisa vendê-los para pagar os títulos que estão vendendo, ou ‘‘quebra’’. Sempre otimistas, o presidente da República e sua equipe afirmam que esse cenário, igualzinho-igualzinho ao da crise de 1998, que levou à queda do real no começo do ano passado, tem uma explicação: o mercado financeiro, no Brasil, estaria assustado com os problemas das Bolsas dos EUA, e tomando suas precauções. Isso é um erro, diz o presidente, porque os indicadores da economia brasileira são excelentes, basta olhar para eles: ‘‘vamos crescer 4%este ano, o rombo do Tesouro acabou, o emprego começou a avançar’’. Tá bom. Tudo isso é verdade? Quem olha para o Brasil, como o presidente manda, o que vê?
Crescimento — ontem, o IBGE divulgou o crescimento do PIB (valor dos bens e serviços produzidos no País), no primeiro trimestre: 3% com queda de 0,8% para a agricultura, que entra nos cálculos do índice juntamente com os setores da indústria e comércio. O resultado, apesar de situar-se a apenas 1%da previsão dos 4% é um desastre para o governo, desmentindo seu otimismo. Por quê? Ao prever um avanço de 4%para o ano inteiro, o governo estava bancando o ‘‘espertinho’’, fazendo um truque com as estatísticas. Como assim? É simples: o Planalto esperava taxas altíssimas de expansão, de 6%a 8%no primeiro trimestre, porque a comparação dos valores de produção seria feita com os resultados de janeiro a março do ano passado, meses de paradeira na economia por causa da crise do real. Nos meses seguintes, mesmo com a economia crescendo muito menos, a taxa média do ano ficaria nos 4% (ou mais), graças à puxada do primeiro trimestre. Toda essa previsão desmoronou, com os pífios 3% divulgados pelo IBGE.
Inadimplência — o número de cheques sem fundos emitidos no País continuou a crescer em abril: agora, são 10 em cada mil — ou três vezes o nível de 3,5 em cada mil que ocorriam no País há cinco anos, antes dos governos FHC. Atenção: esse crescimento é ainda mais espantoso quando se observa que, hoje em dia, mesmo pequenos estabelecimentos comerciais consultam o Telecheque, antes de aceitar cheques. Os cheques sem fundos refletem a inadimplência, perda de poder de consumo da população. Como sair da recessão?
Nem crescimento, nem recuperação. E, quando olham para o Brasil, banqueiros e investidores vêem coisas ainda mais assustadoras: uma dívida de governo, somente em títulos, que está em R$ 467 bilhões e cresce como ‘‘bola de neve’’ por causa dos juros altos combinados com o FMI. Enxergam um ‘‘calote’’ atrás dela. Juros altos e dólar em alta mostram que a crise esta à porta.