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Jornal Diário da Manhã , sábado 24 de setembro de 1983


PASSARINHO ESCORREGA – Em artigo publicado na Folha de São Paulo, o ex-senador Jarbas Passarinho “ressuscita” a cantilena de que toda a crise brasileira é fruto da crise mundial. Depois, faz um “paralelo” com os governos anteriores a 1964, para afirmar que também naquela época o Brasil mergulhou em séria crise, sem que houvesse os problemas econômicos mundiais de hoje, isto é, tudo aconteceu por “incompetência”. Sempre se pensou que uma das virtudes do ex-ministro da Educação fosse um razoável lastro de conhecimentos, inclusive de História. Vê-se agora que o País estava enganado: o ex-senador pelo Pará não sabe que, na década de 50 e começo dos anos 60, os países subdesenvolvidos enfrentaram problemas cambiais terríveis devido à violenta queda nos preços dos produtos primários – pois foi exatamente a deterioração dos preços do café e do açúcar, base das exportações brasileiras que provocou a crise cambial do início dos anos 60. Não sabe, tampouco, que a inflação brasileira, na época, foi violentamente alimentada pela necessidade de gigantescas emissões para comprar café invendável (e não por causa da “construção de Brasília”.) O ex-ministro Passarinho nem se lembra que, depois de 64, houve um programa de arrancamento de cafezais exatamente por causa de todos os problemas. Nem nunca ouviu falar na Operação Pan-Americana, nem na Aliança para o Progresso, surgidas exatamente por causa da deterioração dos termos de troca no comércio entre países ricos e países pobres (os produtos primários valiam cada vez menos, os produtos manufaturados, que os subdesenvolvidos importavam, valiam cada vez mais). Vai ver que é por isso que o ex-ministro Passarinho ainda encontra coragem para defender a política do ministro Delfim Netto, que conseguiu “fabricar” uma inflação de 100%, em 1982, quando os preços do petróleo estavam em baixa: os preços dos produtos agrícolas, no mercado mundial, caíam aos mais baixos níveis das últimas décadas; a inflação nos países ricos estava em queda, “barateando” os produtos importados; os preços dos metais caíam também ao mais baixo nível, de décadas, no mercado mundial; o País tinha uma supersafra, que os agricultores não conseguiam vender. Tudo, representando uma chance única, uma oportunidade de ouro para “derrubar” a quase zero a inflação brasileira. Com toda a competência, o governo que o senador defende conseguiu emplacar 100% de inflação em 1982. Esse, o verdadeiro “milagre” do ministro Delfim Netto.



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