Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
Afinal, qual a vantagem que o consumidor, o industrial, o agricultor, o País têm com a formação de gigantescas redes de supermercados e hipermercados, algumas de capital multinacional, que estão avançando por todo o território brasileiro?
Diz a teoria que todas as organizações de grande porte trazem benefícios ao consumidor, porque produzem ou vendem em imensas quantidades e assim conseguem reduzir custos de todos os tipos.
Mas não só o consumidor teria vantagens. A redução de custos e preços traria, ainda, o aumento no consumo e, conseqüentemente, expansão também para os fornecedores, industriais ou agricultores – vale dizer, toda a economia cresceria, com mais empregos e renda no País.
Todas essas pretensas vantagens, alega-se, compensariam largamente as conseqüências negativas do avanço dos grandes grupos, sobretudo a destruição do comércio tradicional que funcionava na região.
Essa, a teoria. E na prática, o que tem acontecido realmente no Brasil? Basta acompanhar o noticiário econômico e ir juntando informações, para ver que a realidade é bem outra. Periodicamente, surgem protestos de indústrias – como o setor de eletroeletrônicos – contra os preços baixíssimo a que são forçadas a vender as redes, que se aproveitam de sua condição de grande comprador para exibir descontos absurdos.
Isto é, as famosas “promoções” das grandes redes, para atrair o consumidor, não são feitas às custas de seus lucros, e sim de prejuízos para os fornecedores – e, como sempre, às custas da perda de freguesia, numa concorrência totalmente desleal, para os demais comerciantes, que em muitos casos acabam arruinados.
Da mesma forma, quando as taxas de juros estão muito altas, as mesmas redes obrigam – como se viu este ano – os fornecedores, indústria e agricultura a lhes entregar a mercadoria para pagamento a prazos mais longos, isto é, são os fornecedores que acabam arcando com os custos bancários.
Em todos esses aspectos, está havendo claramente uma rotina de “abuso de poder econômico”, que é violentamente combatida nos países capitalistas ricos, onde os “gigantes” podem crescer – mas não às custas de outros setores. Há, nesses países, a preocupação com o futuro do consumidor, que ficará exposto a preços altos, no médio e longo prazo, se essas redes passam a monopolizar cidades ou regiões inteiras.
No Brasil, a “exploração do consumidor”, com preços altos, já é um problema bem conhecido por moradores de bairros em que predomina uma única rede, seja qual for o seu nome ou nacionalidade, após a destruição do comércio tradicional. Da mesma forma que, em todo o País, a concentração destrói empregos, isto é, destrói consumo.
Associações de consumidores, federações do comércio, agricultura e indústria, sindicatos devem se unir e exigir do governo regras claras, semelhantes às de outros países, para a expansão dos “gigantes”.