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  ECONOMIA A ESQUIZOFRENIA NACIONAL

Revista Isto É , 1980


Durante a semana vociferando contra a OPEP e o governo, fazemos o supremo sacrifício de poupar um litro de gasolina. No sábado e no domingo, com o sentimento do dever cumprido, vamos esbanjar um tanque inteiro por aí.

Peito estufado de orgulho, indignação incontida contra o "governo incompetente", o cidadão brasileiro bem-situado na vida reage ao novo aumento dos preços da gasolina, relembrando que sua classe já deu sua "quota de sacrifício" para ajudar o País a resolver os problemas criados – na sua visão – pela "maldita Opep":

"O problema do consumo de petróleo no Brasil," pontifica, "não tem nada a ver com a gasolina. Nos últimos cinco anos, a frota de automóveis aumentou uns 50%, e o consumo não cresceu mais que 10 ou 20%. Isso quer dizer que o número de litros de combustível gasto por carro caiu violentamente, graças à consciência do consumidor. Nós, portanto, já fizemos a nossa parte. Aquele bando de imbecis que vivem em mordomias, em Brasília, é que nunca acordou para a ‘crise de energia’ e nada fez, em seis anos, para resolver o problema do petróleo".

Na verdade, quase todos os fins de semana o brioso cidadão viaja para o interior ou o litoral em seu próprio carro, com a mulher, enquanto os dois filhos, estudantes que sequer começaram a trabalhar, seguem em seu próprio carro, para que cada um tenha a sua própria condução, na cidade de destino.

Essa realidade, porém, é algo que não lhe passa pela cabeça, nem mesmo ao encerrar seu veemente aparte e pedir licença ao casal que o visita em casa, na noite de um dia da semana, para ir até a padaria comprar um maço de cigarros — em seu automóvel, evidentemente, já que a longa distância a percorrer chega a quase dois quarteirões. O contraste entre as preocupações que a população brasileira demonstra em relação aos problemas econômicos do País, e o seu comportamento diante deles, na prática, forma um quadro perfeito de esquizofrenia coletiva, de dissociação entre conhecimento e ação, mesclada por um sentimento de autocomiseração pelos imensos sacrifícios que, acredita-se, já estariam ocorrendo.

A culpa por esta situação, evidentemente, não é sua: a opinião pública brasileira tem sido bombardeada por uma artilharia de conceitos e preconceitos, acionada de acordo com os objetivos de grupos de interesses. A hipotética queda no consumo da gasolina, orgulho e glória de cidadãos bem-intencionados, por exemplo, é um conceito que lhe foi vendido através de declarações não tão bem-intencionadas de representantes da indústria automobilística, ou por órgãos de comunicação cujo prestígio se apóia exatamente na corte que fazem às classes bem-aquinhoadas, ou mesmo por participantes do próprio governo. Os primeiros, desejosos de demonstrar que não há necessidade de limitar o crescimento da produção de carros - como o governo Geisel tentou e recuou, ante a imensa reação – já que "o problema não é a gasolina". Na verdade, porém, quando se procura (como é preciso fazer sempre) ver por trás da aparente contenção do consumo de gasolina no Brasil, a verdade surge de forma espantosamente simples. O que aconteceu realmente? Há três anos, 80 ou 90% da frota brasileira de caminhões era movida a gasolina. Mas o governo encareceu esse combustível e subsidiou, isto é, barateou artificialmente o óleo diesel. Resultado lógico: todo mundo correu atrás do mais barato e em três anos a situação se inverteu. Agora, 80 ou 90% da frota de caminhões tem motores diesel, quer dizer, o consumo de gasolina nesses veículos caiu verticalmente, quase a zero — com os automóveis passando a chupar os bilhões de litros antes usados no transporte de carga.

Entende-se que essa transformação seja escondida pelos senhores da indústria automobilística. Mas o que leva os porta-vozes oficiais a também repetirem a balela da "consciência nova do consumidor"? Uma primeira explicação para o comportamento de Brasília: há no caso um elogio indevido ao consumidor, mas, ao mesmo tempo, cria-se também um mito que interessa ao governo, em seu esforço para manter o "otimismo" ante os problemas da economia brasileira. Dizer que o consumo caiu é dizer que a situação está melhorando. E ponto. A conivência com a desinformação não se limita ao exemplo da gasolina, e sim se repete ad infinitum, cotidianamente, em outras áreas da economia. Até quando Brasília poderá mantê-la, no momento em que a inflação, e, mais ainda, o problema da dívida externa tendem a exigir mudanças na política econômica, que, inevitavelmente, exigirão certo grau de desprendimento dos diversos segmentos sociais?

Quem prevê imensas dificuldades políticas para quando esse momento chegar incorre em erro. Quando se faz um balanço amplo dos problemas brasileiros, chega-se à conclusão de que também Brasília é, hoje, prisioneira da mitologia nacional, que a leva ao erro de tentar manter o otimismo exatamente onde ele não cabe, e de silenciar ante o pessimismo onde não haveria lugar para ele. Concretamente, a sociedade brasileira tem demonstrado uma terrível incompreensão, cegueira mesmo, em relação às dificuldades de médio prazo (que precisam ser enfrentadas, antes que estejamos todos mortos) e as perspectivas de longo prazo. Fala-se muito na "crise brasileira". Do ponto de vista de processo histórico, melhor seria dizer que o País já vive sua anti-crise.

Na verdade, ninguém sabe "que País é este", não no sentido negativo com que a expressão foi lançada ao ar, mas na direção oposta, isto é, de avaliação das transformações que o Brasil viveu no curto espaço de 25 anos — sem entrar nos méritos ou deméritos das políticas econômicas dos governos que marcaram o período.

A obsessão com o problema da inflação e da dívida externa impede hoje que se avalie o essencial, a saber, o significado real da passagem de País monocultor de café, subdesenvolvido, para a condição de um país de desenvolvimento médio, industrializado e urbano. Esse salto, em apenas duas décadas e meia, foi marcado por distorções e desvios, em grande parte evitáveis — mas o que importa, em termos de realidade nacional, é que ele já foi dado. Seu preço já foi pago. Daqui para a frente, a conta a ser paga é menor, e as condições para pagar também são outras.

Numa comparação simples, o Brasil subdesenvolvido e monocultor de 1955 era como uma família paupérrima desejosa de progredir na vida, sem condições sequer de manter seus filhos vivos — quanto mais de encaminhá-los. O Brasil de hoje é como uma família com milhares de fontes de renda, temporariamente em dificuldades por causa da estroinice de alguns de seus filhos, e dividida internamente por causa da desigual repartição de sua riqueza. Para a primeira, é uma tarefa monstro romper o círculo da miséria. Para a segunda, basta enfrentar a crise para superá-la — pois os recursos para isso existem.

Não há nenhum exagero na imagem. Nestas duas décadas e meia, o Brasil não precisou investir apenas na indústria, na agricultura, na infra-estrutura. Esquece-se, quase sempre, ou sempre, o enorme preço, o incrível volume de investimentos exigido pelo processo de urbanização, ou, em termos mais reais, pela chegada de milhões e milhões de pessoas às cidades, e principalmente às metrópoles. Mais ainda: não passa pela cabeça de ninguém que a própria transformação de dezenas de milhões de pessoas "subdesenvolvidas" em dezenas de milhões de pessoas "medianamente desenvolvidas", com novos padrões de educação, saúde, alimentação etc, representou e representa, também, um gasto gigantesco, do ponto de vista da economia do País. O Brasil não apenas se industrializou, em vinte e cinco anos: o Brasil precisou "se construir", em todas as áreas, nesse período – num dispêndio formidável de recursos.

Em termos de perspectivas futuras, repita-se, não importa se todo esse processo foi marcado por violentas distorções e contradições. O fato é que, numa visão histórica, a "crise brasileira" ocorreu no momento em que os campos se esvaziavam, as cidades inchavam, a infra-estrutura inexistia, o País precisava de investimentos brutais — e não tinha fontes de renda suficientes para sustentá-los.

Hoje, numa visão ampla, pode-se considerar o ciclo como encerrado: o País é outro. Suas aflições já não são a de uma nação monocultora, aparentemente sem saída, e sim as dificuldades cíclicas que afetam qualquer país de economia em estágio mais avançado, seja ele os Estados Unidos ou a Argentina.

Lógico que, como aspecto diferenciador, o Brasil tem ainda a resolver as distorções e contradições acumuladas. Mas, vistos por aquela ótica histórica, os problemas da sociedade brasileira ganham proporções infinitamente menores do que se acredita freqüentemente. Passam a depender muito mais da ação da sociedade, já que desapareceram os obstáculos econômicos incontornáveis a curto e médio prazo.

Aqui, não há porque descrer de que também a sociedade já se encaminha para encerrar o ciclo de "crise" de comportamento. Como na economia, as próprias contradições e desigualdades acumuladas dentro da sociedade brasileira ajudam a abrir caminho para a "anticrise".

Ontem, foi impossível convencer as classes mais bem aquinhoadas em termos de renda que elas deveriam aceitar as "simonetas", para que o governo arrecadasse recursos destinados a investimentos nos trens de subúrbios e outros transportes de massa. Assim como ontem, foi impossível convencer a classe empresarial de que o "crescimento a qualquer preço" tem conseqüências desastrosas.

Hoje, a classe empresarial "fecha" em torno da política oficial, de maior austeridade, com medo da explosão social. Hoje, o aumento da criminalidade e da violência começa a servir de catalisador - dentro do processo histórico - para que os setores privilegiados da sociedade aceitem a perda de vantagens, a melhor distribuição da renda, como contribuição à solução dos problemas que geram tensões sociais.

Nesse quadro, o manejo dos problemas da inflação e da dívida externa ganha a mesma proporção que eles têm em outros países, onde o avançado estágio de desenvolvimento não significa que os cidadãos não precisem enfrentar períodos, cíclicos, de sacrifícios.



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