, quarta-feira 10 de novembro de 1976
A queda no ritmo de alta dos preços em outubro somente pode ser saudada com euforia pelo empresário nacional: esse declínio pode vir a ser utilizado como uma oportunidade, pelo Governo, para fazer adaptações na política de combate a inflação adotada desde o primeiro trimestre do ano.
Não seria contraditório "adaptar" uma orientação que, aparentemente, está enfim oferecendo resultados? O menor ritmo de inflação não seria uma demonstração do acerto da política monetarista, tão duramente criticada ao longo dos últimos meses?
Em economia, o perigo de análises superficiais, baseadas apenas em estatísticas, sem um rigoroso acompanhamento de todo o quadro econômico, é que elas podem levar a conclusões erradas — e, por extensão, a medidas ou políticas também erradas. Assim, para avaliar o "acerto" ou "mérito" da política monetarista no arrefecimento do ritmo da inflação é preciso recapitular alguns fatos e alguns dados de revolução da economia, este ano.
Dado 1: a demanda – Foi dito, desde o inicio, que a alta de preços somente seria combatida através da queda na demanda, isto é, da procura de bens pelo consumidor (e pelas empresas). No entanto, os dados relativos a setembro (últimos disponíveis até agora) mostram que até mesmo as vendas a prazo pelo comércio cresceram, para o ramo "duro" (eletrodomésticos e móveis, sobretudo). Houve, é verdade, uma queda na procura de bens do ramo mole, isto é, bens de consumo não-duráveis, como tecidos, roupas, calçados. A queda, aqui, não foi porém produto de uma restrição à demanda graças a política monetarista, e sim resultado da elevação excessiva de preços (um "terno", ou costume, para homem está custando Cr$ 2.500,00 em lojas que deveriam atender o mercado de massas. Isto, a vista. Se as taxas no crédito ao consumidor estão superando 100% ao ano, é fácil ver que essa roupa não vai sair por menos de Çr$ 5.000,00, na compra a prazo, um preço totalmente inacessível até mesmo a amplas faixas de menor renda da chamada classe média).
Em grande parte, essa elevação de preços decorreu da política monetarista ao encarecer a importação de matérias-primas através do depósito prévio, ou ao elevar os custos financeiros das empresas através das taxas de juros. Essa afirmação, aparentemente, confere à política monetarista o "mérito" de conter a demanda, ainda que às custas de uma brutal elevação de preços. É preciso entender, no entanto, que, como pressuposto, política econômica é a solução racional para determinados problemas — e não a criação de novos problemas, além de agravamento dos já existentes. E, no caso, a elevação brutal de preços representa o agravamento da própria inflação (que se pretendia combater) — ao mesmo tempo que criou um impasse para as empresas. Oneradas com custos crescentes, elas vêem o mercado fechar-se devido aos altos preços (pelos quais não podem ser responsabilizadas) e passam a enfrentar problemas de liquidez e perda de lucratividade, com ameaças a seu futuro.
Dado 2: os juros – Com a liberação das taxas de juros, elas "dispararam" — mas a procura de crédito não sofreu retração, segundo os próprios dados oficiais sobre empréstimos pela rede bancária.
Dado 3: as estatísticas – Levantamentos realizados por este jornal já em meados de outubro permitiram antecipar a informação que o Ministério da Fazenda liberou neste início de novembro, sobre o declínio da inflação. Alguns fenômenos detectados naqueles levantamentos revelavam a nova tendência — e demonstravam que o declínio de preços pouco tem a ver com os remédios monetaristas adotados:
a) Matérias-primas: após a violenta alta (causada inclusive pelas medidas restritivas), atingiu-se um ponto além do qual já não era possível aumentar os preços, pois o fabricante que os pagasse não conseguiria vender seu produto final ao consumidor (caso dos produtos do ramo "mole". Surgiu, então, a estabilização relativa).
b) Custo do dinheiro: a análise feita para matérias-primas é válida também para as taxas de juros, com ligeira variação. Os próprios banqueiros admitem que seria impossível elevar ainda mais o custo do dinheiro, não por benemerência para com as empresas — mas porque, conhecendo-se sua situação de endividamento, era inevitável que os clientes fossem à falência (e muitos ainda estão condenados a esse destino, a médio prazo), o que não interessa a seus credores.
c) Novas safras: o custo dos alimentos tendia mesmo a declinar neste trimestre, pois, devido às chuvas praticamente ininterruptas durante todo o ano, houve antecipação no plantio de várias culturas, e as colheitas que deveriam começar a entrar maciçamente no primeiro trimestre de 1977 começaram a chegar ao mercado antes mesmo de novembro. Um recuo que nada tem a ver com a restrição do crédito.
Dado 4: os índices – Além do mais, é preciso fazer uma distinção clara entre "queda no ritmo de inflação" e "queda nos preços". Por "queda no ritmo de inflação" se entende apenas que a inflação, isto é, os aumentos de preços, estão se comportando de forma menos violenta: em outubro, por exemplo, a inflação ainda foi de 2,4%, isto é, não houve recuo de preços, e, sim, uma alta menor. Essa distinção, freqüentemente esquecida, é fundamental, pois, com ela, pode-se dizer que a política monetarista, após provocar imensa inflação (em lugar de combatê-la) durante meses, finalmente reduz seus malefícios — e isso é tudo. Para maior clareza: no caso das matérias-primas, elas passaram de um preço 100 para 200 ou 300, devido a medidas monetaristas, e depois começaram a evoluir mais lentamente, para 310 ou 320 etc. Ou, em outras palavras: o custo das matérias-primas não voltou de 300 para 200 ou 100 – mas apenas passou a crescer a ritmo menos intenso. No mesmo caso estão o custo do dinheiro, as taxas de juros e assim por diante.
Conclusão óbvia: a política monetarista, em lugar de combater a inflação, provocou sua "disparada", ao ser adotada. E essa carestia não foi posteriormente "anulada", mas apenas "estabilizada", pela incapacidade de "pagar" da própria economia. Mas a carestia provocada é um prejuízo irreparável sofrido pelo País — e que permanece.
Perspectivas melhores – É importante ter todos esses dados em mente. Por que? Porque na medida em que o Ministério da Fazenda afirma que o declínio de outubro, na taxa de inflação, é mérito da política monetarista, poderia surgir o risco de um aprofundamento dessa política, adotando-se efetivamente as medidas "duras" que tantos analistas estão prevendo para depois das eleições.
Todos os dados disponíveis, no entanto, apontam na direção inversa. Pode-se acreditar que, efetivamente, o País vai adotar novas medidas para enfrentar seus problemas de Inflação — e, principalmente, para a balança comercial – e, um futuro próximo. Mas tudo indica que surgirão exatamente as medidas seletivas recomendadas desde o início pelos críticos da política monetarista ortodoxa, de arrocho indiscriminado sobre as empresas e destinada a provocar uma retração indiscriminada em todos os setores da economia. É o que você verá a seguir.