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  Semeando a crise de amanhã

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 22 de novembro de 1981


De setembro a dezembro do ano passado, a indústria automobilística bateu recordes sobre recordes de produção, com 444 mil veículos saídos de suas linhas de montagem em apenas quatro meses. No mesmo período, suas vendas aos revendedores foram de 350 mil unidades, aproximadamente: isto significa que as fábricas abriram o ano de 1981 com cem mil veículos estocadas, duas vezes e meia os 40 mil veículos que integravam seus estoques no começo do ano. Isso, ao nível das fábricas. Mas grande parte das compras feitas pelas revendedoras também não haviam resultado em vendas ao consumidor: também nelas os estoques eram avantajados.

O que aconteceu com a indústria automobilística aconteceu com os eletrodomésticos (como já foi demonstrado aqui), e com outros setores industriais: mesmo com o "encalhe" de mercadorias, no segundo semestre do ano, as empresas não reduziram a sua produção. Por quê? Jogou-se, especulativamente, na formação de estoques: os juros eram baixos, a inflação galopava, parecia um excelente negócio tomar emprestado para financiar estoques – pois a expectativa era vender os produtos, no futuro, a um preço reajustado à base de 10%/12% ao mês – já que se previa uma inflação de 150 a 200% ao ano para 1981.

Nunca será demais reunir provas de que a queda na produção industrial, no primeiro semestre deste ano, foi motivada sobretudo pela existência desses gigantescos estoques, tanto nas industrias como no comércio – pois só elas permitirão uma avaliação correta da "crise" de 1981, e do acerto ou erro de medidas tomadas pelo ministro do Planejamento, como é o caso da anunciada "reativação", em 1982.

Assim, cite-se mais um exemplo da estocagem desenfreada: quando a Federação das Indústrias de São Paulo tez o seu primeiro levantamento sobre a situação dos diversos setores industriais, em abril/maio deste ano, a queda mais impressionante foi acusada pela indústria do cimento,que estaria com um recuo de 60% na produção, em relação a 1980. "É um reflexo da crise do setor imobiliário", disseram os analistas. Não era. Era um reflexo da estocagem e câmbio imobiliário, sem perceber, confessava a especulação do setor. Ao defender mais crédito para dinamizar o mercado, esse dirigente pedia que os financiamentos fossem fiscalizados para evitar a repetição do que ocorrera em 1980, quando empresas (do seu setor) ’’alugaram, compraram ou construíram galpões na periferia das cidades, para estocagem de materiais de construção”. Imensa estocagem.

Os exemplos bastam. O que se pretende demonstrar com eles? Que, ao contrário do que vinham dizendo líderes empresariais, a recuperação que a economia esboçou a partir de julho/agosto não era transitória: todos os fatores em cena indicavam que ela se acentuaria, em 1982. Antes de mais nada, como é obvio, porque o ano começaria sem o peso dos estoques que enterraram a indústria em 1981. Mas outros fatores devem ser lembrados:

- Reação em cadeia: na queda da produção, um setor "puxa" o outro. Esboçada a reação, percorre-se caminho inverso. Isso já vinha ocorrendo.

- Recuperação confirmada — a "Sondagem Conjuntural" realizada trimestralmente pela FGV junto a 2.500 empresas mostrou que, em outubro último, as empresas responsáveis por 39% das vendas aumentariam a produção neste fim de ano, enquanto 48% previam estabilização; apenas 13%, portanto, ainda previam queda. Isto, com base nos pedidos existentes em carteira naquele mês.

- Investimentos assegurados — a indústria de mecânica pesada (os "bens de capital") tinha, em setembro, segundo dados da Abimaq, pedidos em carteira, para 77 semanas, isto é, quase dois anos ou 10% a mais que as 70 semanas do começo do ano, e 30% a mais que as 60 semanas de 1980 (média).

- Malor demanda — um fator Ignorado nas análises e previsões para 1982 corresponde aos efeitos da queda da inflação sobre o poder de compra dos assalariados. Quando a inflação está em alta, os assalariados que recebem um reajuste semestral de 40%, por exemplo, já no mês seguinte estarão podendo comprar muito menos mercadorias, ante a alta de todos os custos no seu orçamento (de transporte a educação, do feijão ao remédio). Com a inflação em queda, como no momento, ela demora mais a "devorar" o poder aquisitivo do consumidor, após cada reajuste. Como dizem os economistas, o "salário médio real", nos seis meses entre dois reajustes, acaba sendo maior do que no semestre anterior. Tudo se passa, assim como se o assalariado tivesse tido um aumento salarial indireto, aumentando seu poder de compra. A esse dado novo, deve-se somar, ainda, a redução na cobrança do IR na fonte, desde outubro.

Não há necessidade de ampliar a lista. Cabe, isto sim, perguntar se, mais uma vez, o ministro Delfim Neto não terá confirmado, na prática, que realmente ele não acredita em planejamento. Ou, mais ainda, ele sequer acredita na necessidade de analisar os dados da realidade, para tomar decisões.

Assim como errou ao "aquecer" a economia em 1979, lançando o País em uma crise cambial de 1980, ele não poderia ter escolhido pior momento para anunciar a "reativação". O impacto psicológico da mudança, às vésperas das festas do final do ano, surge, ameaçadoramente, como um sinal verde para a corrida à remarcação de preços e para nova escalada da inflação. A especulação desenfreada que campeia no mercado financeiro pode estender-se a toda a economia.

O mais grave, porém, é que o País mergulha novamente numa aventura "desenvolvimentista", em lugar de planejar a forma de enfrentar seus problemas crônicos. Semeia-se hoje a crise de amanhã.



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