Jornal Diário da Manhã , terça-feira 8 de novembro de 1983
O consumidor paga – a Copas – Companhia Paulista de Fertilizantes, nos nove primeiros meses deste ano, teve um lucro 543% maior do que em igual período de 1982: cerca de Cr$ 850 bilhões. Mais de 50% sobre o capital de Cr$ 1,57 bilhões realizado em 30 de setembro de 1982. Como se vê, a indústria de fertilizante não pode reduzir seus preços, para permitir um pouco de lucro para o produtor agrícola (ou para não arruiná-lo), ou para permitir o barateamento dos preços dos alimentos (para permitir que o povo coma). Como se vê, o ministro Delfim Netto está mesmo empenhado em combater a inflação, tanto que não permite que indústrias básicas tenham lucros exorbitantes. Como se vê, os preços são mesmo controlados no País. Como se vê, é mesmo preciso “achatar” salários, porque os salários são culpados pela inflação. Como se vê, o assalariado, o desempregado, o aposentado, o povo não tem mesmo razão para reclamar: todos estão sendo “sacrificados” pela crise. Como se vê.
O especulador ganha – grandes empresas, com ações negociadas em Bolsa, estão ganhando, duplicando, triplicando, decuplicando este ano. As próprias empresas, seus diretores, amigos passaram a comprar suas ações em Bolsa, nos últimos meses – porque já sabiam que os próprios lucros estavam aumentando, e quando os balanços começassem a surgir, as cotações das ações subiriam. Segundo levantamento publicado no final de semana pela Bolsa de Valores de São Paulo, houve ações que valorizaram mais de 1.000% este ano, havendo casos de valorização de 2.800%, 3.000%, 4.000% e até 5.300%. Mais claramente: para cada milhão aplicado, houve quem ganhasse 50 milhões. Transforme-se isso em bilhões e dá para avaliar as fortunas que têm sido ganhas neste País.
Lógico; claro – As indústrias de óleo de soja figuram entre as empresas cujas ações tiveram maiores altas nas Bolsas: Olvebra, 3.200%; Ceval, 1.400%; Anderson Clayton, 1.350%.
Lógico, claro – o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo lança brilhante idéia: o ministro Delfim Netto deve ser mantido no cargo até 1984, para ver se a política econômica dele dará certo. Está dando. Para quem?