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  Melhoram as perspectivas para exportações brasileiras em 83

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 20 de março de 1983


As previsões de que o Brasil terá que pedir moratória, isto é, suspender os pagamentos de sua dívida externa, rompendo com os credores, se baseiam, entre outros argumentos, na impossibilidade do país obter um saldo de US$ 6 bilhões na balança comercial com exportações de US$ 23 bilhões e importações de US$ 16 bilhões. Não há a menor dúvida de que aquela "meta" do governo foi absurdamente otimista à época em que foi estabelecida: no auge da recessão mundial, no final do terceiro trimestre do ano passado. Mas, da mesma forma, são absurdamente pessimistas as previsões de que o País conseguirá um superávit de, no máximo, uns US$ 3 bilhões em 1983, chegando à insolvência.

Em 1982, os ministros da área econômica erraram tremendamente, não percebendo que a situação mundial se agravava e as exportações brasileiras iriam cair cada vez mais, à medida que os meses passassem. Agora, em 1983, os defensores da moratória (e os especuladores no mercado negro do dólar) ameaçam incorrer num equívoco semelhante, embora em sentido inverso. As exportações brasileiras podem subir em um ritmo mais rápido que o previsto graças à reativação da economia dos EUA e outros países desenvolvidos somada a outras mudanças ocorridas - nos últimos seis meses - na economia mundial.

Os planejadores brasileiros estabeleceram a meta impossível de US$ 6 bilhões, em fins de 1982. Hoje, as condições mundiais estão ajudando totalmente. É cedo para dizer se aquele superávit é viável. Mas, mesmo que ele não ocorra, isto não será motivo para uma "moratória".

As evidências - No transcorrer desta semana, uma empresa do setor de madeira e aglomerados anunciou que suas exportações triplicaram para US$ 4 milhões, em março, com vendas maiores nos EUA e Nigéria, "graças à máxi", segundo seu presidente. Anteriormente, no início do mês, a Ford e a General Motors do Brasil haviam anunciado a recontratação maciça de trabalhadores, graças ao reinício de exportações de motores e outros componentes utilizados na montagem de veículos em suas matrizes, nos EUA.

Os dois exemplos, antes de mais nada, servem para mostrar mais uma vez a inutilidade da "máxi". Volta-se, porém, à questão da moratória e da balança comercial brasileira: a partir dos dois exemplos, podem-se avaliar as transformações que a economia mundial acumulou nos últimos meses, e que criam perspectivas melhores para o país:

Economia dos EUA - a recuperação da economia norte-americana tem sido subestimada, no Brasil, por conta de uma "distorção estatística", a saber, o hábito de comparar os resultados de um período com igual período do ano anterior, dificultando a visão da realidade. No caso dos EUA, por exemplo, a produção de aço cresceu nada menos de 55%, de 1,0 milhão para 1,55 milhão de toneladas por semana, entre dezembro de 1982 e março de 83, num avanço paulatino, semana a semana (v. gráfico). As análises econômicas, no entanto, comparam a produção de janeiro/ fevereiro de 1983 com janeiro/ fevereiro de 1982 - e aí surge a distorção. Como assim? Ocorre que o pior da crise norte-americana (v. gráficos) ocorreu no segundo semestre do ano passado, isto é, o ano começou com índices razoavelmente elevados de produção.

Assim, quando os resultados de 1983 são comparados com os resultados do começo de 1982, como no caso do aço, as estatísticas podem até indicar uma "queda", isto é, uma produção menor. No entanto, em relação ao segundo semestre de 1982, a recuperação é notável. Caso semelhante ocorre com automóveis (v. gráfico), produzidos à taxa anual de 4 milhões de unidades em junho/julho de 1982, e de 6 milhões de unidades a partir de novembro de 1982. Tendência semelhante é apresentada pelo setor de construção de moradias (v. gráfico), com uma disparada em seu crescimento (início de construções) a partir do último trimestre do ano passado, alcançando o seu nível mais alto desde 1979.

Em poucas palavras: a economia norte-americana ainda está, hoje, abaixo dos níveis de início de 1982. Mas o que interessa, em termos de realidade e mudanças, é que ela passou a crescer no final de 1982 e mantém o crescimento neste início de ano, com a reação de um setor puxando o crescimento do outro, sucedendo-se os efeitos multiplicadores dentro da economia. A reativação da indústria automobilística norte-americana explica a recontratação de operários pelas filiais brasileiras - seus reflexos surgirão nas estatísticas de exportações brasileiras, já em março, possivelmente. Não por causa da máxi. Mas pelo aumento de produção nas matrizes. Da mesma forma, por mais que o presidente da exportadora madeireira queira agradar aos ministros brasileiros, não foi por causa da máxi que sua empresa vendeu mais aos EUA: foi por causa do "boom" para o setor de construção naquele país. A tendência beneficiará outras empresas e setores no Brasil.

Países pobres - e as vendas à Nigéria? Esse país, há cinco meses, propôs ao governo brasileiro que se adotasse o regime de trocas: ele forneceria petróleo ao Brasil que, em vez de pagá-lo em dólares (que não tem), pagaria com mercadorias das quais os nigerianos precisam. Esse sistema de trocas vem crescendo enormemente no mundo, desde o segundo semestre do ano passado, com países endividados, com falta de dólares, procurando ampliar seu comércio, nessa base, com outros países igualmente endividados. Se o governo brasileiro agir decididamente na área, poderá aumentar suas exportações através de acordo com esses países, com possibilidade de um saldo maior em sua balança (num parêntesis: mais uma vez, fica comprovada a desnecessidade da máxi, pois as vendas ao chamados "mercados novos" não dependem, a essa altura, de preços mais baixos e, sim, de acordos entre governos).

Países ricos - além dos EUA, também na Alemanha e Inglaterra há indícios de recuperação da economia. E seus governos, na semana passada, adotaram medidas para acelerar a reativação (juros mais baixos na Alemanha, corte de impostos na Inglaterra).

Mudança final - e se, mesmo com esse quadro mundial, o Brasil não conseguir o superávit de US$ 6 bilhões? Ora, é evidente que, com essas novas perspectivas mundiais, será muito mais fácil "rolar" a dívida externa (se o País adotar um programa de austeridade) do que foi no final de 1982, quando o mundo parecia que ia desabar e os banqueiros estavam apavorados.



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