Jornal Gazeta Mercantil , segunda-feira 30 de junho de 1975
Um verão violento pode jogar às nuvens as vendas de ventiladores, aparelhos de ar condicionado e geladeiras, e provocar o encalhe de dezenas de milhares de rádios a pilha: o consumidor optará pelos bens que aliviem o calor, e adiará as compras daquilo conjunturalmente supérfluo. Para o produtor de ventiladores, os negócios irão bem e sua visão em relação à evolução da economia será otimista. Outra será a ótica, contudo, do produtor de rádios a pilha, que terá críticas ferinas a fazer contra a política econômica e seus autores.
A imagem serve para explicar as resistências e o descontentamento de alguns setores em relação a mudanças de diretrizes na vida econômica do país. Fica difícil, para esses setores aceitarem que as mudanças são exigidas tanto por fatores econômicos – pela inviabilidade de manutenção do “modelo” anterior – como por fatores de ordem político-social, ante o agravamento de tensões como as que provocaram, na última semana, depredação de três estações de subúrbios da Central do Brasil, no Rio.
A indústria de construção civil tem estado presente no noticiário diário, bradando contra a “crise” que estaria atingindo tanto as empreiteiras de obras públicas, quanto as imobiliárias voltadas para a construção e vendas de moradias. Desemprego de centenas de milhares de operários é uma de suas previsões: além das dispensas dos próprios operários do setor haveria – segundo seus porta-vozes – a inevitável demissão em massa também na indústria fornecedora de materiais para a construção, como aço, cimento, ferro, madeira, e por aí afora. Até que ponto o setor está superdimensionando suas dificuldades? E com que objetivos?
QUESTÃO DE ÓTICA
Ainda durante a última semana, o BNH lançou um programa realmente revolucionário de lotes urbanizados, ao qual aplicará 36 bilhões de cruzeiros em dez anos. Os compradores de baixa renda poderão construir suas casa inclusive através do regime de “mutirão”: fica evidente que, para as construtoras, o esquema não trará nenhum alívio. Mas fica evidente, também, que se abriu um mercado amplo para a indústria de material de construção (ou para um segmento dela): para esse setor, não crise nem desemprego em massa à vista.
O BNH vem emprestando, ainda, dezenas de bilhões de cruzeiros com finalidades diversas: gigantescos programas de saneamento em todo o país; abertura de avenidas ou implantação de sistemas viários (um crédito de 300 milhões de cruzeiros foi concedido, esta semana, à prefeitura de Osasco) ou mesmo para a construção de verdadeiras cidades em locais de grandes obras públicas, com Itaipu, além da manutenção do programa de conjuntos habitacionais (mais um foi contratado em Campinas, esta semana). Para as construtoras que se candidatarem à execução destas obras, não faltarão contratos nem renda, nem lucros, e não existirão problemas de equipamentos ociosos e que tais.
QUESTÃO DE MODELO
A partir desses dados, é simples resumir o conflito que vem existindo entre o setor de construção e a nova política econômica. Ainda agora, o setor reclama que o governo “urbanize” novas áreas, isto é, monte toda a infra-estrutura em regiões como a Barra da Tijuca, no Rio, para a construção de apartamentos de luxo. E o governo acredita que, em lugar de gastar 1,0 bilhão de cruzeiros para permitir a construção de 2.000 ou 10.000 apartamentos de luxo, pode destinar essa importância prioritariamente, para dar água ou esgoto a 2,0 ou 3,0 milhões de famílias. Ou acelerar o metrô de São Paulo e Rio, para implantar sistemas de transportes de massas. E assim por diante. E outras palavras para as construtoras que se decidirem a trocar os apartamentos de luxo por esse gênero de obras, não faltará trabalho – e a indústria de materiais de construção continuará em expansão.
A crise do setor de construção civil é localizada. Há protestos de um segmento: as empresas que operavam no mercado imobiliário do Rio e São Paulo, cuja ótica não permite entender que para o “setor”, encarado do ponto de vista global, continua a haver mercado. Elas podem ir mal, e o setor continuar crescendo. É isto que importa do ponto de vista da economia, como um todo. E do ponto de vista social, também.