[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Os donos da verdade (só deles)

quarta-feira 20 de março de 1991


Em meio às afirmações repetidas de que o novo choque fracassou, a notícia surpreendente: o índice de inflação em São Paulo, apurado pela Fipe, caiu de 3,56% na terceira semana de fevereiro, para 3,49% no final do mês. Como se trata do índice calculado pelo método “ponta a ponta” (simples comparação dos preços de determinada semana, com preços do final do mês anterior), pode-se considerar que é essa a “inflação corrente”. Seria importantíssimo, neste momento em que se procura desindexar a economia, que o índice fosse amplamente divulgado. Os investidores, por exemplo, veriam que a remuneração de 8% ao mês para seu dinheiro, com base na TR, está mais do que boa, já supera bastante a “inflação corrente”, deste momento. No entanto, a informação foi cuidadosamente escondida pela imprensa. Na primeira página de importante jornal paulista da última terça-feira, ela surge enxertada no último parágrafo de uma notícia sobre algo totalmente diferente: “Comércio se recusa a receber mercadorias fora do Código do Consumidor”. Enxertada ao final, que é para o leitor não ver mesmo. Dentro do jornal, no caderno de economia, a mesma coisa: os títulos da página dão destaque à inflação “velha”, medida pelo método tradicional (quatro semanas contra quatro semanas), que chegou a 21%. E a informação da inflação de 3,49% só vai ser vista por quem ler o texto todo. Pode-se alegar que o jornal não deu muita importância ao índice ponta a ponta porque ele não inclui os reajustes de tarifas. Não é assim. O mesmo jornal publicou várias manchetes, antes do “choque”, mostrando a disparada de preços nos supermercados. Agora, quando eles caem, o jornal esconde. Um dia antes de esconder a taxa de 3,49% apurada pela Fipe, o mesmo jornal havia publicado lá no pé da primeira página, em letras minúsculas, que “Preços nos supermercados recuam 0,1%. Fonte: a própria pesquisa do próprio jornal, realizada de 1º a 7 de março. Lá dentro, no caderno de economia, havia um grande título em quatro colunas: “batata sobe 15,2% nos hipermercados”. No título, portanto, a alta de um único produto. No texto, a informação cuidadosamente escondida: “Nos cinco hipermercados visitados, os mesmo produtos (básicos) registraram uma queda de 0,8%”. Interessante que essa informação não vá para o lugar do título da página interna, nem figure em nenhum outro lugar da primeira página, não é mesmo? Os estranhos critérios do mesmo jornal paulista não se limitam, porém a notícias sobre inflação: no sábado, 9 de março, por exemplo, seu caderno de Economia publicava o título: “Preferência pelos bens duráveis reaquece negócios da indústria (automobilística)”. No texto, lá vinha a tal tese de que o brasileiro não vai mais aplicar na poupança, nem no Fundão, e por isso vai correr para o consumo, provocando uma explosão inflacionária, mencionando-se “a tendência do público em adquirir bens duráveis ao invés de investir seus recursos”. Com maior tranqüilidade, o jornal transmite para o leitor uma tese pessimista, de “corrida ao consumo”, só que isso não é verdade. O texto da notícia tenta reforçar a idéia de corrida, ao apontar, logo no início, que os estoques do setor caíram de 26 mil para 16 mil veículos, isto é, 10 mil veículos. Só que a explicação surge logo em seguida: a produção caiu mais ainda, de 71,5 mil para 54,5 mil unidades, ou 16 mil carros a menos. Vale dizer: desmentindo a tese da “corrida”, as vendas foram tão ruins que houve um encalhe de mais de 6 mil veículos (diferença entre 16 e 10 mil). Esconder informações importantes, se forem “otimistas”, manchetar com informações incompletas, fabricar problemas como a “explosão do consumo”: o jornal foi, aqui, citado como exemplo, já que dispõe de críticos sempre dispostos a ditar regras a outros jornais, e deve ficar tranqüilo, quando se faz o mesmo com ele. Mas, nos últimos meses, esse comportamento absolutamente injustificável vem dominando a esmagadora maioria dos meios de comunicação. Inegavelmente, o governo Collor tem traços autoritários. Mas o autoritarismo da imprensa está indo ainda mais longe, quando ela decide fornecer ao leitor, à sociedade, apenas o que lhe interessa. Quando esconde informações importantes, e quando dá manchete a informações parciais. Quando inventa teses, sem fundamento em dados reais. As vítimas mais imediatas dessas distorções têm sido os analistas, colunistas e editorialistas dos próprios jornais e revistas que, iludidos pelas manchetes e pelo destaque apenas a informações negativas, adquirem uma visão absolutamente distorcida da realidade e vão repetindo críticas cada vez menos adultas ao governo federal. Mas a grande vítima do comportamento arbitrário da imprensa é a própria sociedade. O Brasil necessita de informação correta, clara e segura neste momento delicado, em que Brasília lança mão de mais um “choque” na tentativa de superar a inflação. A imprensa, arbitrariamente, está ignorando essa necessidade.



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