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  País vende mais em mercado novo

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 3 de outubro de 1981


Nas exportações, a dependência em relação aos países industrializados se reduz

Mês após mês, o Brasil vem conseguindo realizar exportações superiores às importações, este ano, obtendo, assim, saldos positivos em sua balança comercial. Mais ainda: suas vendas ao Exterior continuam a crescer à taxa de 20% ao ano, não devido a ocasionais altas de preços de produtos como o café ou a soja, mas graças a um firme avanço dos produtos manufaturados.

Esses dados chegam a causar surpresa à opinião pública, diante da insistência com que, nas análises econômicas, se procura "provar" a impossibilidade de aumentar as exportações brasileiras, devido à situação da economia mundial. Tais análises, na verdade, ignoram uma realidade que não é de hoje, mas já de muitos anos, ao menos em relação à possibilidade de ampliar as exportações. A venda de produtos industrializados brasileiros ao Exterior, por exemplo, jamais deixou de avançar a taxas superiores a 30%, ano a ano, desde os idos de 1976, fenômeno que poderia ter sido identificado há multo tempo, se as análises econômicas no Brasil sempre se fundamentassem em dados econômicos.

Mesmo todos esses avanços, no entanto, não têm sido suficientes para modificar as análises pessimistas. Ante os resultados já obtidos, procura-se agora insinuar que a tendência à expansão não se manterá, pela razão pura e simples — dizem essas análises — de que os países industrializados "historicamente" não aceitam a industrialização dos países mais pobres, como o Brasil. Tão logo as exportações brasileiras comecem a ameaçar seus mercados — argumenta-se — eles tenderão a levantar barreiras para impedir que as mercadorias nacionais entrem em seu território.

A análise, ainda uma vez, não se baseia em dados. Quem recorrer a eles verificará que o Brasil conseguiu, nos últimos anos, ampliar seu comércio exportador graças a uma firme investida nos chamados mercados novos. Com isso, reduziu de tal forma sua dependência em relação aos países ricos, para absorver seus produtos, que no primeiro semestre deste ano conseguiu uma façanha ainda ignorada pelas análises econômicas: pela primeira vez na história, mais da metade das exportações brasileiras se destinaram a esses mercados não-tradicionais. Aos países ricos, coube apenas 44% do total das vendas brasileiras, contra 56% em 1979, e praticamente dois terços (63%) do total exportado pelo Brasil no período de 1964 a 1978 (v. tabela). O Brasil exporta mais, porque conseguiu fugir ao "cerco" dos países já desenvolvidos.

A ESTRATÉGIA
Ao assumir, o governo Geisel recebeu o País endividado, com déficits gigantescos em suas trocas com os países industrializados e dificuldades reais (na época) para aumentar as exportações para essas nações. Eclodira a "crise de energia" e — o que é mais importante — o mundo vivia a "ressaca" da grande expansão econômica verificada de 1970 a 1973. Os dois fatores, conjugados, mostraram que em todo o mundo, empresas e governos tinham criado nas previsões sobre o aumento da demanda de mercadorias, levando as empresas a montarem fábricas, abrirem minas, ampliarem a produção agrícola em uma escala muito maior que a capacidade de consumo do mercado.

Na "ressaca", vivia-se uma fase de fechamento de fábricas, siderúrgicas, estaleiros navais, instalações produtivas, enfim, e abandono de grandes projetos de mineração ou exploração agrícola. Foi uma época de desemprego acelerado nos países ricos e conseqüente escalada no protecionismo, isto é, a criação de barreiras às importações, sobretudo procedentes dos países em desenvolvimento.

Fechadas as portas dos mercados ricos, o governo Geisel — cuja política econômica ainda será analisada com menos fel, no futuro — lançou uma política para diversificar os mercados importadores de produtos brasileiros, voltando-se para os países produtores de petróleo ou menos desenvolvidos, capazes, por seu estágio de desenvolvimento, de comprarem também manufaturas brasileiras, menos sofisticadas (e menos caras) do que os produtos dos países ricos. A política diplomática desenvolvida pelo Itamarati, de aproximação com o chamado Terceiro Mundo, correu e corre paralela com a estratégia de comércio exterior do País.

OS RESULTADOS
O avanço que o Brasil vem conseguindo nos mercados não tradicionais pode ser avaliado por esses dados: de 1964 a 1978, eles absorveram um terço, ou 33%, em média, das exportações brasileiras, saltando para 42% em 1979, e 51% no primeiro semestre de 1981 (v. tabela). A transformação, na verdade; é ainda mais impressionante, pois os dados sobre as exportações anuais médias no período de 1964 a 1978 já incorporam os resultados de quatro anos (74 a 78) da nova estratégia, quando a nova tendência já influenciava os resultados (em outras palavras, antes de 1974 a participação daqueles países no comércio exportador brasileiro era na verdade inferior àqueles 33%).

A redução da importância dos países ricos como mercado para o Brasil, em contrapartida, é retratada claramente no recuo ocorrido na participação dos Estados Unidos, Mercado Comum Europeu e restante da Europa sobre o total de exportações realizadas.

E O FUTURO?
A tendência à diversificação, além do mais, parece oferecer oportunidades ilimitadas. Os resultados das exportações no primeiro semestre de 1981 mostram que os frutos da estratégia de Geisel apenas começam a ser colhidos, tanto que as vendas para o Oriente Médio cresceram quase 90% sobre o resultado de 1980; para a Europa Oriental (bloco soviético), houve avanço de 65%; em relação aos países produtores de petróleo, de 55%, e assim por diante.

Através da diversificação das exportações e dos mercados, portanto, o Brasil na verdade tem condições de manter a atual tendência à obtenção de superávits em sua balança comercial. Uma tendência que pode auxiliar a atenuar a crise cambial que o País enfrenta — o que não significa, repita-se, que não se deva discutir o custo social da política de incentivos às exportações.



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