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  O escândalo nosso de cada dia

O banqueiro Soros foi categórico: não realizou especulações milionárias com títulos do Brasil, porque “nem sequer sabia” que seu funcionário, Armínio Fraga, seria nomeado presidente do Banco Central brasileiro. Quem o pegou de calças curtas foi um leitor, no Painel do Leitor da Folha de ontem: há semanas, revistas brasileiras já publicavam notícias sobre as sondagens de que Fraga estava sendo alvo, por parte do governo FHC. Impossível acreditar na afirmativa de Soros. E, aí, fica a pergunta no ar: se ele ousou ser tão veemente, seu objetivo não teria sido, exatamente, matar qualquer investigação no nascedouro? Uma dúvida que só o Congresso Nacional poderá eliminar.

A tremenda atoarda em torno de Soros e Fraga, no entanto, revela uma imensa dose de ingenuidade de milhões de brasileiros, de um lado, e também uma imensa dose da hipocrisia de importantes formadores de opinião, de outro. Por quê? Apresenta-se como um “escândalo” a possibilidade de um determinado banqueiro/investidor ter recebido informações confidenciais que lhe garantiram lucros imensos.

Ora, nos últimos quatro anos, essa possibilidade de determinados grupos realizarem lucros fabulosos foi uma rotina. Antes de mais nada, porque houve uma decisão inacreditável – e inaceitável em qualquer país minimamente civilizado –, de transformar em “sigilosas” decisões do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, que antes eram publicadas, mesmo sinteticamente, no Diário Oficial.

Essa decisão, consagrada por meio de simples resolução, eliminou qualquer possibilidade de a sociedade e o Congresso fiscalizarem os atos do governo – uma verdadeira negação do regime democrático e que nem a ditadura militar ousou implementar. O Congresso Nacional se omitiu e se omite até hoje – como ocorre, igualmente, com o projeto que regulamentaria o uso de medidas provisórias por FHC.

Parceiros - A possibilidade de favorecimento a determinados grupos ficou ainda mais evidente nos dois últimos anos. Com o agravamento dos problemas da economia brasileira, o governo FHC passou a realizar intervenções, até diárias, durante semanas, nos mercados financeiros. Sempre utilizando “laranjas”, o Banco Central “comprava” bilhões de reais em ações, para impedir que as Bolsas caíssem; comprava (ou vendia) bilhões de reais, em contratos no mercado futuro, para segurar artificialmente os juros; fazia a mesma coisa com os contratos de compra e venda de dólar... Tudo, sem transparência, na surdina, com a “mão do gato” dos “laranjas”. E quem eram eles? Bancos, corretoras, fundos de pensão que, ao ser convocados para essas operações, automaticamente passavam a saber quais eram as estratégias escolhidas pelo governo. Isto é, esses “parceiros” e seus grandes clientes automaticamente passavam a saber se era “hora de vender”, ou “hora de comprar”, para realizar lucros fantásticos. A “informação privilegiada”, a possibilidade de ganhos nos mercados financeiros foi, em resumo, a rotina diária no Brasil, nestes anos recentes – como esta coluna chegou a apontar, meses atrás.

Autoritariamente, o governo FHC manobrou o mercado como bem entendeu, sem necessidade de prestar contas à sociedade. O episódio Soros/Fraga nada tem de excepcional. O Congresso tem uma tarefa muito maior pela frente: e disciplinar em profundidade a ação do governo e do Banco Central – que certos analistas e formadores de opinião insistem em dizer que “precisa ser independente”, como se ele já não agisse até tiranicamente. Cinismo ou estultice.

Rússia, manipulação

A crise russa explodiu em agosto. Em setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro e primeira semana de fevereiro, os meios de comunicação trouxeram notícias catastróficas sobre a Rússia. Agora, no começo da semana, talvez por distração, uma agência internacional noticiou que a Rússia teve um saldo de quase US$ 10 bilhões (com a letra b, mesmo) em sua balança comercial (exportações menos importações), no último trimestre de 1998. Eis aí outra prova da manipulação do noticiário, a serviço dos interesses dos EUA, FMI, Greenspan, Camdessus, banqueiros e os chamados neoliberais em geral.

Sem surpresa

Exatamente como no caso da Coréia e outros “tigres asiáticos”, o saldo russo não “brotou” de um dia para outro. Mês a mês, ele foi sendo acumulado. Silêncio total. Nem uma palavra nos meios de comunicação. Que, ao contrário, mantiveram a cantilena da “irrecuperabilidade” da Rússia. Nada de ideológico. Manipulação pró-EUA e banqueiros. Pró-neoliberalismo.


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