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  Mais complicadores (graves) para o país

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 23 de abril de 1998


A seca no Nordeste vai despontando como o estopim que faltava para levar o país a uma explosão social de proporções imprevisíveis. O momento é grave. Irecê, na Bahia, perdeu 80% de sua colheita de feijão. No restante da região, a semeadura de outras culturas não foi possível até agora ou as plantações se perderam por falta de chuvas.

A TV, exceto a Globo, evidentemente, começa a mostrar cenas de pequenas multidões saqueando depósitos de alimentos. Ou de famílias nordestinas comendo o chique-chique, cacto espinhoso, como único alimento que restou. A seca começa a empurrar centenas de milhares de famílias, amanhã milhões de pessoas, para fora do sertão.

No passado, elas buscavam os grandes centros do Sul do país. Hoje, essas legiões de retirantes tendem a buscar também um lote de terra onde possam plantar para matar a fome, isto é, vão vagar pelo país, engrossando a fileira dos sem-terra. E serão multiplicados pelos “retirantes” do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, arruinados pelas inundações que ainda podem crescer nessas semanas.

Por 15 anos, desde 1983, o Nordeste não enfrentava grandes estiagens. Por isso mesmo, o Brasil assistiu um fenômeno inédito, a que os analistas não deram a importância devida: já na década de 80, Estados e cidades do Sul tiveram saldo migratório líquido negativo, isto é, o número de pessoas que partiram para outros pontos do país (emigrantes) superou o número de brasileiros que mudaram para essas regiões (imigrantes).

No caso da Grande São Paulo, essa diferença (mais emigrantes que imigrantes) chegou a nada menos de 1,2 milhão de pessoas – só na década de 80, note-se. Traduzindo: houve um retorno maciço de nordestinos para a sua região de origem – ou em busca de um lote de terra no Centro-Oeste ou Amazônia. Agora, a situação se inverte. Ondas humanas devem deixar o Nordeste, num momento em que a economia se mostra em recessão e o desemprego se alastra em todos os centros urbanos do país, batendo, sintomaticamente, nos 20% em Recife. Isto é, quando as cidades não têm condições de oferecer oportunidade de trabalho aos migrantes.

Nas cidades e no campo, a pressão social vai subir violentamente, se o governo não agir com presteza. Não bastam planos de emergência para o Nordeste seco e o Sul alagado. Toda a política econômica terá de ser revista urgentemente.

Carestia no Sul

A seca no Nordeste é fruto do El Niño. Foi largamente prevista já no ano passado pelos especialistas, que apontaram também o risco de chuvas torrenciais no Sul do país – até maio. O governo FHC não traçou nenhuma estratégia para amenizar os efeitos do El Niño. Ao contrário. Em setembro e outubro, esta coluna, por exemplo, apresentou sugestão para que Brasília adotasse medidas para estimular o agricultor a ampliar o plantio no Sul, Centro-Oeste, Nordeste, para que essa ampliação viesse a compensar eventuais perdas de colheitas em conseqüência das perturbações climáticas previstas.

A sugestão chegou a ser ridicularizada pela equipe econômica e jornalistas chapa cor-de-rosa (fingem ser independentes) com a divulgação de matérias e até manchetes afirmando – pasme-se – que o El Niño iria beneficiar, aumentar as safras no Brasil, “porque vai chover muito, e água faz bem às lavouras...” (sic).

Hoje, há seca e saques no Nordeste. Na semana passada, chuvas destruíram lavouras no Rio Grande do Sul, reduzindo a safra de arroz, que, por falta de apoio governamental, já não era mesmo suficiente para atender ao consumo.

Chuvas e seca agravam os efeitos da massacrante “política agrícola” do governo FHC e provocam redução nas colheitas de praticamente todos os produtos. Conseqüências? O preço do feijão triplicou, de R$ 0,70 o quilo, em dezembro, para até R$ 2,00, no presente – e vai continuar a subir.

O arroz teve alta de 30% – por enquanto. A carne, idem, por causa da matança de vacas, no ano passado, provocada pelos baixos preços da carne e do leite, pago a R$ 0,11 (onze centavos, mesmo) o litro ao produtor, no interior, e vendido a R$ 1,00 ao consumidor.

Disparada dos preços dos alimentos significa rombo no orçamento das famílias de menor renda, ou mesmo, em outra escala, da classe média. Nova queda no poder aquisitivo da população, mais retração na economia. Mais pressão social. Dos desempregados, dos sem-terra, dos retirantes. Explosivos.

Há complicadores novos e graves no cenário econômico e social do país. Na origem deles, um fenômeno inquietante: o otimismo escapista do governo FHC, um otimismo que chega a ser doentio, espécie de esquizofrenia que impede a equipe econômica de enxergar a realidade sombria do país. O momento é grave. Quem viver verá.



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