Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 23 de setembro de 1983
Existe forte dose de histeria, à esquerda e à direita, no debate dos problemas econômicos brasileiros. A esquerda se apega ao “catastrofismo”, aos “caos iminente”, na expectativa, talvez inconsciente, de que ele leve a mudanças radicais na vida do país – se bem que, conscientemente, tenha medo de que “a crise” leve ao fechamento. A direita, por sua vez, insiste em análises pessimistas da economia por razões bastante convenientes. Elas justificam, por exemplo, pedidos de “socorro” do governo, mais vantagens, mais privilégios; elas ajudam igualmente a convencer o governo (se é que ele precisa ser convencido) de que, no caos reinante, é preciso fechar os olhos a “expedientes” pouco cívicos das empresas, como contrabando, subfaturamento, superfaturamento, manobras especulativas, manobras com o ouro, jogadas com o dólar. Finalmente, o mesmo “pessimismo empresarial” serve ainda de poderoso trunfo nas disputas com o ingênuo movimento sindical brasileiro: insistindo-se em falar na “crise”, pode-se demitir trabalhadores, aos milhares, numa proporção muito superior a eventual queda de produção das empresas, aumentando o seu lucro, aviltando os salários em todo o mercado de trabalho. A direita, em resumo, sabe tirar proveito do “marketing da crise”. A esquerda, com seu pessimismo militante, entra nela de “pato”.
Atenção: no momento, o pessimismo “de direita”, além dos proveitos econômicos de sempre, tem também claras conotações políticas. Há óbvia briga pelo poder, dentro do “sistema”, e da qual os pedidos de mudanças de ministros são apenas um sintoma. Por isso mesmo, todos os dias, cada líder empresarial, em suas declarações à imprensa, procura ser mais pessimista e mais “catastrofista” do que o outro: é preciso “provar”, à opinião pública, que o País caminha ou está mergulhado no caos – para justificar as drásticas mudanças “de comando” articuladas nos bastidores há meses.
SEMPRE DESMENTIDOS
No começo do ano, dizia-se que o Brasil não conseguiria exportar, por causa da “crise mundial”. A economia norte-americana vinha em recuperação desde o último trimestre de 1982, mas isso era negado por empresários e oposição, inclusive seus economistas famosos. Em abril, soube-se que a economia dos EUA tinha crescido uns 3% no primeiro trimestre. Os “catastrofistas”, à esquerda e à direita, enfiaram a viola no saco? Não. Aí, começou a cantilena de que “a recuperação é fraca” ou “a recuperação não vai durar”. Em abril, maio, junho – a mesma cantilena pessimista. Em julho, surgem os dados sobre o segundo trimestre: crescimento de 9,2% para a economia dos EUA. Não é preciso dizer mais nada.
Quem negava essa recuperação, negava também, histericamente, que o Brasil pudesse vir a obter grandes avanços nas exportações e no saldo da balança comercial – que estão ocorrendo, desmentindo o “catastrofismo”. Agora, a “histeria” se concentra em torno da “impossibilidade de a inflação cair”. Não há porque acreditar nos catastrofistas. A inflação vai cair, neste fim de ano.