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  Bolsas: motivo de preocupação?

Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 14 de junho de 1971


Quando as Bolsas atingiam o máximo de seu vapor, há umas duas semanas, pensou-se imediatamente na “mão invisível”, aquela que sempre restabeleceria o equilíbrio, dentro de qualquer tipo de mercado, na economia capitalista. Se os preços das ações estava muito altos, realmente, então haveria menor procura, e, a partir daí, surgiria uma acomodação para as cotações: a “mão invisível”, restabelecendo o equilíbrio entre a oferta e a procura. O mercado começou a acomodar-se, mas a “mão invisível” não parece tão invisível, assim. Como se um despertador viesse soado, vêem-se coisas como: 1) pronunciamentos, até pela televisão, sobre os riscos ao pequeno – note – investidor. A legislação de mercado de capitais permite esse tipo de carga psicológica sobre o mercado? 2) mesas-redondas sobre os riscos ao pequeno – note-se – investidor; 3) sugestões para que as corretoras não aceitem pequenas – note-se – ordens de compra de ações.

Discordar da orientação não é, apenas, uma atitude quixotesca. É desejar que os problemas – se eles existem – criados pela “corrida” às Bolsas sejam enfrentados em profundidade, e não através de medidas superficiais fáceis porque atingem os mais fracos. E que podem não resolver absolutamente nada. Faltou perguntar, até agora, se já se avaliou devidamente toda a transformação havida no mercado, com os riscos nela contidos, e as medidas necessárias para suprimi-los. E, já que é para os Fundos de Investimento que se pretende encaminhar o investidor, resta perguntar que papel os Fundos tiveram ou estão tendo nessa transformação. Não com o intuito de crítica – porque muitos desses Fundos estão, também, preocupados com os rumos das coisas. Mas com o objetivo de procurar uma solução real, profunda.

O que houve no mercado?
A descrição que se segue foi retirada do livro “O Jogo do Dinheiro”, um best-seller nos EUA e no Brasil, escrito por algum que se escondeu sob o pseudônimo de Adam Smith. Um paralelo com a evolução do mercado de ações no Brasil, este ano, não vai deseducar ninguém.

• CRESCIMENTO: (nos EUA), “as economias da classe média transformaram-se numa torrente de dinheiro. Os investimentos em Fundos Mútuos passaram de 1,3 bilhões de dólares, em 1946, a 35 bilhões, em 1967. Os fundos de pensão avolumaram-se para 150 bilhões de dólares”. Até aí, tudo ótimo: a poupança canalizada sabiamente para investimentos, mesmo? • EVOLUÇÃO: “e então, certo dia, surgiu uma combinação de dinheiro com a força de 400 bilhões de dólares, representando a metade dos negócios realizados na Bolsa de Nova York, e dirigida por um grupo de tigres que sabiam estar certos exatamente, porque os velhos estavam tão errados”. O palco estava preparado para o “desempenho”. • DESEMPENHO: “é justamente o que parece ser. Significa que o seu fundo teve melhor desempenho (apresentou resultados), melhor do que todos os outros. Seu valor líquido subiu numa grande percentagem. Em outras palavras, todas as ações de seu fundo subiram mais”. • O QUE VAI SUBIR? – “ora, como vimos anteriormente, as grandes companhias americanas maduras não oferecem sistematicamente as maiores possibilidade para lucros de capitais. Por isso, os fundos de desempenho muito simplesmente transferiram-se das 200 maiores companhias para as ações que iriam subir. Compraram as ações em crescimento”. • O QUE COMPRAR? – Os “fundos de desempenho não apenas compraram as ações em crescimento – eles as negociaram. Negociar não era coisa para o Homem Prudente. As flutuações a curto prazo no mercado não lhe serviam. Os diretores dos fundos de desempenho acharam que a maneira mais segura de preservar o capital era dobrá-lo”. • IRRADIAÇÃO: “alguns fundos e alguns diretores revelaram-se muito certos. Então os vendedores de Fundos Mútuos perceberam que, quando distribuíram a literatura de todos os fundos diante de futuros fregueses, grande parte deles não estava mais interessada em fundos bons equilibrados e diversificados. Queriam aqueles que tivessem subido mais”.

O claro paralelo
Não se quer dizer que, no Brasil, os Fundos tiveram exatamente esse mesmo papel. O que importa, porém, é que um Fundo de Investimento, tanto quanto um investidor isolado, terá que acompanhar o ritmo do mercado (por volta de março, nos dias de loucura de Petrobrás, o administrador de um grande Fundo, desolado, confessava que, apesar da contra-indicação de seus técnicos analistas, fora obrigado a entrar na dança, simplesmente porque, em termos de percentagem, de valorização, seu Fundo estava ficando para trás, ao menos a curto prazo, e perdendo investidores para outros fundos). Assim, o problema não está no pequeno investidor, nem a solução nos Fundos. Mas no disciplinamento do mercado. Até hoje ele teve rédeas soltas. Se precisa de camisa de força, ainda que temporária, não há como fugir a ela. E não serão medidas tímidas que alterarão a situação.

A essa altura, tudo dependeria das Bolsas? Os instrumentos mais fortes teriam que ser utilizados pelas autoridades monetárias? Pode-se supor que as autoridades estejam preocupadas com as histórias que correm por aí, de gente vendendo carro, hipotecando casa, levantando papagaios, vendendo geladeira, para comprar ações. E pode-se supor, com certeza, que, ao mesmo tempo, não interessa às autoridades tomar medidas diretas para impedir, proibir a permanência do fluxo de dinheiro para as Bolsas. Por isso mesmo, a esta altura, talvez, as decisões pouco simpáticas que vão sendo adotadas em relação ao pequeno investidor nem partam dos próprios responsáveis pelo mercado. Mas há medidas indiretas, na área econômica, para colocar o fluxo dinheiro em sua dimensão real. Não se pode impedir ninguém de vender seu carro, mas pode-se vincular as hipotecas de imóveis a determinados fins; não se pode impedir ninguém de vender a geladeira, mas pode-se conter os “papagaios bancários” sem objetivo definido (isto é, levantados para aplicação em Bolsa).

Seria mais justo e mais eficiente, exatamente porque não é o pequeno investidor aquele que tem bens para hipotecar ou cadastro bancário para levantar somas decentes.

A mão visível
A tentativa de “esfriar” o mercado deve nascer de verdadeira preocupação com alguns excessos que vão sendo cometidos (e os índices PL ao lado mostram claramente algumas extravagâncias, com disparidade absoluta de cotações para empresas de igual lucro por ação, ou inferioridade para as de maior lucro por ação). Mas agir na surdina, permitir que uma certa desconfiança e um certo pessimismo se estabeleçam, pode não “esfriar”, mas literalmente, “gelar” o mercado. Sem que – apesar dos excessos, a serem corrigidos – houvesse motivos reais para uma descrença em relação ao potencial das ações. No caso, o efeito poderia ser dez vezes pior que aquele que se teme pudesse ocorrer no caso da ação de medidas mais claras (por exemplo: se a preocupação é mesmo grande, porque não pensar em medidas que evitem a rápida revenda de ações, inclusive da taxação?).

Todos – Governo, veículos de comunicação, bolsas – têm responsabilidade pela expansão que o mercado de ações conseguiu. Não se pode admitir que algum “desencanto” do investidor seja até saudável. Desencanto, no caso, significa poupança perdida – e a poupança chegou à bolsa exatamente porque até ministros se ufanavam pelo fato do País ter a “terceira bolsa do mundo”. O entusiasmo foi criado, estimulado. O público não descobriu a bolsa sozinho. Descobriram-na para ele.

O “pessimismo” ainda não existe, como sentimento generalizado. As altas da última semana provam que o mercado ainda tem oportunidades a oferecer. Os balanços das empresas continuam a mostrar avanços em seus lucros. Bonificações continuam a chegar ao mercado. Tudo que ele precisa é de medidas disciplinadoras. Profundas.



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