Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 1º de junho de 1982
Com a sem-cerimônia que o caracteriza, o ministro Delfim Neto, em entrevista divulgada neste final de semana, voltou a responsabilizar os salários pela inflação. Aproveitou também, como é de seu hábito, para xingar seus críticos: "As pessoas se recusam a fazer aritmética. Somos um país de matemáticos que não gostam dos números."
Como prova provada de que a inflação não cai "por causa dos salários", o ministro disse que "o preço (isto é, a inflação) cresce 90%, o salário 97%, a correção monetária, 90%, e a correção cambial (desvalorização do cruzeiro), 90%". Parece convincente. Só que não é real:
A gangorra
Antes de mais nada, o ministro Delfim Neto, que ao que se saiba sempre gostou de matemática e modelos matemáticos onde "povo" não entrava nem entra, deve ser o primeiro a saber que os índices de inflação, reajustes salariais, correção monetária etc. variam muito, ao longo do tempo. Escolher esses índices, agora, para dizer que os salários (com 96% de reajuste) estão "puxando" a inflação, não faz jus a imagem de técnico que ele mantém – apesar de tudo. Em dezembro de 1980, por exemplo, o índice da inflação anual era de 110,2% e o INPC, para reajustes salariais, estava na casa dos 95,3%. Em março de 1981, pior ainda: o índice de inflação estava em 121,2%, e o INPC em apenas 95,3%, com uma diferença de quase 30 pontos percentuais, portanto. A memória humana pode falhar, mas ninguém se lembra de que, naquela época, o ministro estivesse dando entrevistas pedindo grandes aumentos salariais para compensar a diferença de 30% em relação à inflação. Ao contrário, há quem jure que, já naquela época, o ministro dizia que os salários eram culpados pela inflação – como, de resto, ele diz desde 1968, justificando "arrochos", manipulações de índices etc.
A diferença
Está visto, pois, que o fato de o INPC estar em 96% até abril (válido para os reajustes de maio), contra 90% de correção monetária e cambial, não é uma prova de que os salários inflacionam: todos esses índices variam, ao longo do tempo, até pela forma como eles são calculados. Mas há um outro detalhe que o ministro do Planejamento certamente esqueceu, ou se esquece sempre, quando fala de salários: os reajustes salariais são feitos a cada seis meses e – isto é fundamental – para compensar a alta de preços ocorrida nesse período. Quer dizer, os aumentos de salários vêm "depois" (isto é que é fundamental), depois que os custos e preços cresceram, dentro da economia. Não, antes. Eles não "puxam" a inflação. Eles "seguem" a inflação.
Como se perde
O que "puxa" a inflação? Os preços remarcados em até 180%, em um ano, pela indústria. Todos os meses, todos os dias. As tarifas das empresas públicas, da energia elétrica, dos telefones, da água, "puxadas" pelo ministro. Todos os trimestres. A desvalorização do cruzeiro, para favorecer os exportadores, a prazos de até 10 dias. A correção monetária alterada todos os meses. Se ele ainda não percebeu, alguém deveria dizer ao ministro que há multa diferença entre um salário reajustado a cada seis meses, e preços, tarifas, correção cambial, correção monetária reajustados a cada dia, semana, mês ou trimestre. Por quê? É óbvio, como se pode ver:
Um trabalhador ganha 100 no começo do semestre, e o governo, as empresas, os exportadores vão reajustando seus preços, continuadamente. No final de um mês, o trabalhador perdeu 6% de seu poder aquisitivo, isto é, simplificadamente, está "ganhando" só 34 dos 100 iniciais; no segundo mês perde mais 6%, fica com menos 12%, já está com 88, e assim por diante. No final do semestre, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor subiu 40%, isto é, o poder aquisitivo do consumidor caiu de 100 para 60. Aí, vem o aumento de 40%, o trabalhador passa a ganhar 140, que nada mais são do que os 100 que ele ganhava há seis meses atrás. Ele apenas volta à situação anterior – e não recupera, isto é que é importante, os 6 perdidos do primeiro mês, os 12 perdidos no segundo, os 18, 24, 30 e 40 perdidos nos meses seguintes, numa soma total de (simplificadamente) 130. Quer dizer, em seis meses o assalariado recebe 600, mas, por causa da inflação, seu dinheiro valeu 130 a menos, tudo se passando como se ele tivesse recebido só 470 (os 600 menos 130), tendo que sustentar-se com 130 a menos, ao longo dos seis meses.
O privilégio
A situação do assalariado é totalmente diferente, portanto, de todos os demais participantes da sociedade brasileira. A inflação sobe 6%? As empresas têm liberdade para reajustar seus preços em 6, ou 10, 15%. Todos os dias. Não precisam "esperar" seis meses, não precisam reduzir lucros, não precisam "apertar o cinto". A mesma coisa, para os exportadores: há inflação, seus custos de produção sobem? Não precisam esperar nem um mês: há cada dez ou quinze dias, essa alta é compensada pela desvalorização do cruzeiro. As empresas de serviços públicos, idem, ibidem. E os banqueiros? Ora, deixa pra lá. O que importa é isto: só os salários perdem poder aquisitivo durante seis meses. Ninguém mais.
O ministro afirmou ainda que ele não vem prejudicando os trabalhadores que ganham salário mínimo, ao recusar-lhes o acrescimento de 10% do INPC. Só com o INPC, diz ele, o salário mínimo "ficou com renda igual", "mantém seu poder de compra integral". O ministro se esqueceu que, como foi visto no raciocínio acima, durante seis meses o salário mínimo perde seu poder de compra – e não o recupera mais.
Pelo jeito, não é só o País que "não gosta de números", como diz o ministro. Pelo jeito, os ministros também não. A menos que finjam não gostar, apenas para defender a volta ao arrocho salarial. E para manter privilégios.