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  Mosca branca, mosca azul e manchetes

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 26 de fevereiro de 1998


Há uns seis meses, o ministro da Agricultura, Arlindo Porto, confidenciava em entrevista sobre crédito rural que não conseguiria liberar R$ 2,5 milhões (isto é, tostões), para o combate à mosca branca. A praga, resistente aos inseticidas, agora já está espalhada por 12 Estados, destruindo lavouras de tomate e outros hortifrutigranjeiros, além de feijão, soja e algodão – e ameaçando laranjais. Por enquanto, só no Nordeste, prejuízos de R$ 500 milhões. É a “racionalização dos gastos” do governo Fernando Henrique, responsável pela “volta” de problemas de Terceiro Mundo – como as epidemias, dengue à frente, que se alastram.

Enquanto isso, Brasília continua picada pela mosca azul. Em carta ao Painel desta Folha, o doutor Gustavo Franco, presidente do Banco Central, ataca, considerando-as perigosas, as análises que afirmam que os problemas da economia brasileira nada têm a ver com a crise asiática. Ora, qualquer criança pode juntar estatísticas e mostrar que, desde o segundo trimestre do ano passado a economia caminhava para o buraco. A inadimplência, repita-se, já havia saltado da média histórica de 70 mil carnês para quase 300 mil carnês por mês, só em São Paulo.

As revendedoras já berravam contra as “cotas” (quantidade) de automóveis que eram obrigadas a receber das fábricas. O número de cheques sem fundos, que há dois anos mal passavam de um por mil, já tinha saltado para quatro, depois cinco, depois sete por mil. A economia já estava afundada, sim, por causa do escancaramento do mercado, enxurrada de importações, desemprego, queda da renda e inadimplência.

Estranhamente, os meios de comunicação têm ignorado a “antiguidade” da crise. Preferem apoiar a versão oficial, e a todo momento dizem que a economia “esfriou” por causa da elevação dos juros, a partir do pacote do começo de novembro. É mesmo? Então, como é que os jornalistas chapa cor-de-rosa (fingem que são independentes, mas não são) explicam a violenta queda na venda de automóveis, há meses, se os juros nesse mercado têm sido baixíssimos desde o ano passado, com as montadoras trazendo empréstimos do exterior para repassar ao consumidor a taxas modestas?

Esquecidos - 1

O empresário Benjamin Steinbruch, maior beneficiário da política de privatizações, ficou preocupado com o impacto do caso Light/Cerj sobre a opinião pública. Em artigo, defendeu uma tese nova: os empresários que compraram as antigas estatais deveriam ter divulgado, para a opinião pública, os problemas que encontraram, para mostrar que elas estavam sucateadas e, portanto, problemas posteriores não seriam de responsabilidade dos compradores.

Seria ótima essa recapitalização – se a imprensa mostrasse, também, os encargos que o governo assumiu na maioria das privatizações: pagamento das demissões dos funcionários; pagamentos “por conta” de futuras aposentadorias; absorção de dívidas que as estatais apresentaram. Além, é claro, do brutal aumento de tarifas e preços das empresas que iam ser privatizadas. Tudo, para que elas dessem lucro. E investissem.

Esquecidos - 2

Mal o empresário Steinbruch falou, e o jornal O Estado de S. Paulo pespegou em manchete: “Privatizações revelam o que estava errado”. Concentrada nos problemas da Siderúrgica Nacional (Volta Redonda), comprada pelo grupo de Steinbruch, a matéria de página inteira afirma que depois de privatizada a empresa dá lucro de R$ 1 milhão por dia, contra prejuízo de R$ 2 milhões por dia quando pertencia ao governo.

Repórter e editor só se esqueceram de dizer duas coisas. Primeiro: que as siderúrgicas acumularam prejuízos durante anos porque as equipes econômicas da época achataram o preço do aço. Ele foi aumentado em até quatro vezes, ou 300%, no período que antecedeu a privatização. E mais: o governo passou para o Tesouro uma dívida de R$ 800 milhões da Siderúrgica Nacional. Basta calcular quanto isso custava em juros (e amortizações por ano), para ver que as situações, realmente, são muito diferentes. O governo, isto é, o contribuinte, pagou para que os compradores tivessem lucro. Com ou sem eficiência.

Ah, manchetes

Na safra diária de manchetes ou títulos enganosos, vale um destaque: “Termelétricas perdem subsídio”. Significado? Grupos privados estão construindo usinas de energia elétrica movidas à base de carvão ou gás, que há anos têm parte do custo pago, isto é, subsidiado, pelo Tesouro (contribuinte).

Com essa privatização, isso vai mudar? A manchete é enganosa. A notícia diz que o subsídio vai continuar em 1998 e até 2002, e a partir daí será extinto, de forma gradual, em mais três anos. Este governo não “extingue” subsídios, privilégios nem vantagens. Cria novos. Mas, para sua felicidade, consegue manchetes e títulos enganosos. A opinião pública á ludibriada.



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