quinta-feira 11 de dezembro de 1997
Tudo igual, tudo repeteco (como diriam os “dinossauros”), tudo videotape (como dizem os “moderninhos” hi-tec). Mais uma vez, descobre-se agora que a humanidade foi enganada pelos economistas-de-sucesso, aqueles que os meios de comunicação e ditos formadores de opinião endeusam. Com a “quebra” dos “tigres asiáticos”, o próprio diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, deita falação e anuncia que o “modelo” daqueles países estava errado, superado, renegando os elogios que até há pouquíssimo tempo eram entoados aos, agora, “ratinhos”.
Mesmo que não fosse essa sua intenção, o diretor-gerente do FMI acende os holofotes e coloca em evidência uma das principais aberrações dos tempos modernos: os “modismos” que, periodicamente, varrem o mundo, impostos por economistas-banqueiros-de-sucesso e irracionalmente aceitos pela humanidade – porque são transformados em verdade absoluta pelos ditos formadores de opinião.
Por mais que economistas sérios e analistas independentes apresentem dados, relembrem fatos, levantem dúvidas, relembrem que toda unanimidade é burra (e perigosa), o esforço é inútil. Prevalece o “modismo”. Abre-se o jornal, liga-se a TV, e lá estão, sorriso largo, roupas finas, arrogância sem-par, empáfia infinita, os “sabichões” da moda: economistas, analistas, jornalistas, políticos, empresários e – por que não? – sindicalistas. Quando o desastre sobrevem, o preço é pago por toda a sociedade.
Foi assim com a “crise do petróleo” no começo e final dos anos 70. Foi assim com a “crise da dívida externa”, no começo dos anos 80. Foi assim com o México. Foi assim com os ’’tigres asiáticos’’. E já está sendo assim com o “neoliberalismo” imposto aos países em desenvolvimento pelos EUA, FMI e Banco Mundial, e que vai fazendo água rapidamente. E agora? Agora, o presidente Fernando Henrique Cardoso pode chamar economistas, sociólogos, políticos, empresários sérios, seus companheiros de jornadas passadas que ele renegou. E procurar, com eles, urgentemente, caminhos, políticas, que reduzam, no Brasil, os efeitos trágicos que o naufrágio do ’’neoliberalismo’’ vai espalhar pelo mundo todo. O Brasil tem condições para isso.
É hora de colocar de lado os “sabidões iluminados” e seus chavões. A “globalização” é inevitável? Suponha-se que a hipótese seja correta. Mas, dentro da “globalização”, cada país pode analisar as vantagens potenciais ou reais de que dispõe, e procurar explorá-las. A esta altura, como o reconhecem até assessoras presidenciais (ontem) defensoras do “escancaramento” do mercado, o Brasil não tem uma política industrial. Como não tem uma política agrícola. Como não tem uma política de melhor distribuição de renda (ao contrário: a política da equipe FHC é altamente concentradora, só beneficia grandes grupos, bastando olhar o que ocorre com o BNDES). Não tem uma política de apoio às médias (quanto mais às pequenas e micro) empresas. Enfim, o Brasil de FHC não tem um projeto nacional, não tem objetivos a atingir, como no passado, entregando-se ao ’’modismo’’ do deixa-rolar.
O “neoliberalismo” está naufragando, basicamente, por concentrar excessivamente a renda, desempregar milhões – e, consequentemente, estreitar o mercado consumidor. A produção encalha – como está ocorrendo no Brasil, mas não apenas no Brasil.
Qual a saída? Uma nova política econômica para o Brasil se basearia em medidas urgentes para melhorar a distribuição de renda, para reanimar o consumo e a produção. Nada de “confiscos”. Quando se deseja atingir aquele objetivo, o caminho é dar apoio a setores (e empresas) que gerem emprego e renda, em lugar de eliminá-los ou concentrá-la.
Pode-se perguntar: a reativação da economia não traria o aumento das importações, agravando a situação de “torra de dólares” do país? O problema não existe. A “torra de dólares”, a enxurrada de importações, é resultado da violentíssima redução dos impostos de importação (tarifas) implantada pela equipe FHC. Ao contrário do que se diz, tolamente, as tarifas não foram aumentadas pelo “pacote”. Basta revê-las. Haverá economia de dólares. E recuperação de produção e empregos aqui dentro.