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  Os lobbies voltam com a crise

Revista Visão , sábado 23 de novembro de 1991


Com a crise no Golfo, surge a oportunidade – como em toda a crise – de o governo e a sociedade brasileira enterrarem alguns mitos e desenterrarem planos caracterizados pelo bom senso, mas, por isso mesmo, combatidos por poderosos interesses. Com ou sem o conflito no Golfo, o Brasil jamais deveria ter abandonado uma série de iniciativas desencadeadas pelo governo Geisel, depois do primeiro “choque do petróleo”, com o objetivo de racionalizar o uso de combustíveis e de energia em geral, no Brasil. Este país doidivanas e perdulário, no entanto, somente pensa em “gastar bem”, isto é, gastar o necessário, mas evitando o desperdício, quando dá de cara com grandes crises.

Passada a fase de angústia, volta tudo ao normal, isto é, à política e desperdício, de decisões equivocadas – freqüentemente, por força de poderosos lobbies. Ao estourar a crise do petróleo no início dos anos 70, surgiram projetos para o desenvolvimento de dezenas de fontes alternativas de energia, não apenas na área oficial, mas também na área privada. Indústrias de doces passaram a usar o caroço de pêssegos, pro exemplo, para queimar no lugar de petróleo, em suas caldeiras. Falou-se na substituição da gasolina por combustíveis extraídos do “marmeleiro negro” do Nordeste, ou mesmo da copaíba, uma árvore que se dizia capaz, literalmente, de “verter” gasolina de seu tronco, quando perfurado, da mesma forma que a hevea, a árvore da borracha, verte o látex. Por onde andam as pesquisas que o governo iniciou na época? Dentro das indústrias, não havia apenas a preocupação em conseguir substitutivos para os combustíveis, mas também em adotar procedimentos rudimentares, baratíssimos, para evitar a perda desnecessária de energia: canos que ligavam caldeiras (produtoras de vapor) a outras instalações, por exemplo, eram enrolados com plásticos, panos, materiais isolantes, de forma a reduzir a perda de calor (tudo resultando em economia da energia gasta para gerar o vapor).

Hoje, tudo isso foi esquecido. Voltou-se ao desperdício, ao desprezo para com cuidados mínimos (como o citado acima) que resultariam em aumento de produtividade, redução de gastos e maior lucratividade para as próprias empresas. E para o país? É evidente – realidade de que poucos brasileiros se dão conta – que o desperdício generalizado, o mau uso de energia e combustíveis, representa anos e anos de atraso na superação de problemas crônicos do país, inclusive os sociais. Há, de um lado, a sangria direta de cruzeiros e dólares (com petróleo importado) trazida pelas perdas desnecessárias e pelo uso irracional.

Mas há mais ainda: na medida em que o consumo é desnecessariamente alto, “inchado” pela parcela gasta inadequadamente, o país precisa investir anualmente bilhões e bilhões de cruzeiros e de dólares na tentativa de ampliar as fontes fornecedoras de energia: os campos de petróleo, as usinas hidrelétricas. E é aqui que os grandes lobbies dessas áreas entram em cena. Nos últimos anos, o lobby da Petrobrás desenvolveu uma campanha permanente, para exigir mais recursos, mais e mais bilhões de dólares para que empresa possa investir na pesquisa de petróleo, e dar auto-suficiência ao país. O mesmo acontece com o setor hidrelétrico, que há anos ameaça o país com a tal hipótese (falsa) de racionamento iminente.

Com a crise no Golfo, os dois poderosos lobbies já colocaram a cabeça de fora, outra vez. A sociedade precisa estar atenta, para que o governo não seja empurrado para decisões erradas. A questão da energia, no Brasil, não tem como principal problema a questão de ampliar a oferta – mas, sim, de racionalizar o seu uso. Em lugar de entregar mais bilhões à Petrobrás ou Eletrobrás, deve-se canalizá-los prioritariamente para programas de racionalização como os esboçados no passado – inclusive dentro das empresas. É essa a estratégia que vale a pena. Na área das cidades, é preciso ressuscitar, por exemplo, os programas de investimentos nos transportes coletivos – para encorajar a classe média a usá-los, deixando o automóvel em casa. Nessa área, cabe desenterrar o plano de construção de terminais rodoviários, para ônibus intermunicipais, localizados na periferia das cidades para evitar o passeio dos veículos coletivos por ruas e avenidas centrais, congestionado o trânsito – e aumentando, com o congestionamento, o gasto de combustíveis. Como cabe ainda – parece ridículo, mas não é – remover “lombadas” que têm sido construídas de forma adoidada nas cidades brasileiras, para impedir o desenvolvimento de alta velocidade pelos carros – pois está comprovado que elas aumentam brutalmente o gasto de combustível e aumentam a poluição atmosférica.

A lista de coisas a fazer é ampla: exigir que a indústria automobilística cuide realmente da modernização dos seus motores, reduzindo o consumo de combustíveis é, evidentemente, outra prioridade máxima (mesmo porque as multinacionais foram obrigadas a fazê-lo, em seus países). Como é preciso combater o desvio, a venda clandestina de dois bilhões de litros de álcool por ano, que representa brutal evasão de imposto – que poderiam, se arrecadados, serem destinados aos próprios programas de racionalização do uso de energia. A crise do Golfo traz a oportunidade revisão do comportamento do governo e da sociedade. Se os lobbies deixarem, claro.



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