Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 19 de agosto de 1983
PARA ONDE VAI O DINHEIRO? – diz-se que o FMI exige o controle de crédito (para combater a inflação), o que é verdade, e isso provocaria forçosamente violenta recessão – o que na verdade depende em grande parte da forma como o governo administra a distribuição de recursos, dentro dos limites estabelecidos, entre os vários setores da economia. Em poucas palavras: a intensidade da recessão depende do governo brasileiro. Se os recursos forem empregados de forma racional, dentro de determinadas prioridades – entre elas a criação de empregos – a crise será menor. A vigilância que a sociedade brasileira tem que exercer neste momento é exatamente essa: para onde vai o dinheiro? Para que bolsos?
PARA ONDE VAI O DINHEIRO – as usinas de álcool, beneficiadas pelo Proálcool, conseguiram recentemente autorização do Banco Central para refinanciar suas dívidas junto aos bancos. Soma: mais de Cr$ 300 bilhões. Juros: 60% ao ano, isto é, de “pai para filho”, ante a inflação de mais de 150% ao ano. Agora, para não ficarem com capital empatado em estoques, as usinas pediram que a Petrobrás comprasse e armazenasse o álcool com maior antecedência. Em lugar de estoques para três meses, as usinas vão manter estoques por apenas um mês, lucrando com a economia de juros. Custo para a Petrobrás: Cr$ 150 bilhões.
PARA ONDE VAI O DÓLAR – a Caraíba Metais, empresa estatal que iniciou a produção de cobre em larga escala há poucos meses, está com estoques de 10.000 toneladas. Produziu 50.000, só vendeu 40 mil. Motivo: ministros autorizaram empresas particulares a importar o metal. Assim cresce a dívida externa. E assim se causa prejuízos às estatais, depois acusadas de “ineficientes”.
PARA ONDE VAI O DINHEIRO – a Siderbrás, holding das siderúrgicas estatais, revela que suas empresas tiveram um prejuízo de US$ 2 bilhões nos últimos dois anos. Motivo: o ministro Delfim Netto vem “sentando” em cima dos preços do aço, vendido a preços artificialmente baixos às empresas privadas (automobilísticas, de máquinas etc.) para que elas ofereçam seus produtos a preços baixos, no mercado externo, para “puderem exportar”. O Tesouro acaba cobrindo o “rombo”, equivalente a Cr$ 1,3 trilhão. Mais de 10% de todo o orçamento anual da União.