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  Em cena, a pior forma de indexar

Revista Visão , quarta-feira 27 de fevereiro de 1991


No começo da década de 80, Reagan promoveu gigantesca recessão nos EUA, que se espraiou pelo mundo e provocou o “estouro” dos países endividados. No auge da crise, vários setores chegaram a utilizar apenas 25% de sua capacidade de produção, como as indústrias de alumínio e aço. Grandes grupos sofreram prejuízos de bilhões de dólares em 1982/83, sendo obrigados a vender “divisões” inteiras em que vinham investindo para diversificar sua produção (exemplo: projetos de desenvolvimento de fontes alternativas de energia, em que as indústrias automobilísticas estavam aplicando).

Em meados de 1982, Reagan deu início à redução das taxas de juros, principal arma que havia utilizado para semear a recessão, e lá pelo final de 1983 a economia começo a retomar o caminho do crescimento. À medida que as vendas cresciam, a produção aumentava, o emprego reagia, as empresas foram apresentando melhores resultados em seus balanços trimestrais. À custa de aumentos de preços? Não. À custa de aumentos nas vendas. Essa experiência recente da economia norte-americana é relembrada aqui para que se faça um paralelo com o comportamento da sociedade brasileira, e se consiga entender, então, um dos principais motivos pelos quais a inflação “volta sempre”, no Brasil. Aqui, foi inventado um chavão econômico no qual muitas vezes embarcam até as equipes governamentais: a tal da “defasagem”.

No EUA (e demais países capitalistas), as empresas não pensaram em cobrar preços que, rapidamente, cobrissem os prejuízos acumulados durante a recessão. Ninguém pensava em “recuperar perdas”, nem empresas nem trabalhadores. Nossas cabeças são tão “indexadas”, tão preocupadas em “recuperar” o que a “inflação velha” levou, que fica até difícil entender esse comportamento – quando, na verdade, ele é o único compatível com uma economia de mercado. Mais claramente: empresas e trabalhadores, nos demais países, “sabem” que à medida que a economia se recupere, que o mercado se aqueça, a própria pressão da demanda por produtos e mão-de-obra vai levar o seu valor a níveis mais altos – sempre, compatíveis com o preço que o mercado está disposto ou tem condições de pagar. Aqui, existe a mania da “defasagem” que, enquanto não for compreendida e superada, impedirá sempre que a inflação seja vencida em definitivo. Quando um setor empresarial ou trabalhista fala em “defasagem”, no Brasil, está sempre comparando seus preços ou salários a duas “medidas” inaceitáveis: ou com o “pico” atingido em determinado momento ou então com o índice geral de inflação.

É muito comum um dirigente vir a público dizer que os preços de seu setor subiram só... 1.100% no ano passado, enquanto o IPC, ou índice medidor da inflação, foi de 1.500%, para tirar a eterna conclusão: “nós estamos defasados”, isto é, “nossos preços subiram abaixo da inflação geral”, e agora “temos que aumentá-los para recompô-los”. Desse raciocínio equivocado, frise-se, não escapam nem mesmo os técnicos do governo, ou (principalmente) das estatais, que surgem com cálculos na mão para pedir e impor aumentos de tarifas, comparando os níveis atuais com o de um, dois, três quanto e cinco anos atrás, para mostrar que elas hoje estão mais baixas, e que ficaram não sei quanto abaixo da inflação do período. Ora, é óbvio que esse, sim, é o verdadeiro e pior tipo de indexação reinante no Brasil.

O cálculo de preços adequados para empresas privadas ou estatais deveria basear-se em custos – e capacidade ou de absorvê-los, por parte do mercado. Quando todos os setores (e também trabalhadores) querem que seus preços aumentem “no mínimo” tanto quanto a inflação de determinado período, para que “não haja defasagem”, é óbvio que a inflação será “no mínimo” igual a essa taxa inflacionária. Vale dizer que a inflação crescerá sempre porque, por motivos diversos, alguns setores, em determinados momentos, conseguirão elevar mais seus preços (crise do petróleo, quebra de safras, superconsumo etc.). A mania da defasagem é absolutamente absurda, quando se reflete sobre ela. O exemplo mais corriqueiro continua a ser o melhor argumento para entender a afirmação: em um ano em que quase metade da taxa de inflação seja provocada por aumentos dos preços dos alimentos, por exemplo, que sentido tem aumentar as tarifas elétricas, o preço do petróleo (mesmo que ele tenha caído no mercado internacional) ou roupas e calçados, utilizando, como argumento para esse aumento, a pretensa necessidade de aqueles preços “acompanharem” a taxa de inflação? O governo eliminou a correção monetária, para tentar desindexar a economia. Falta agora brigar com a pior forma de indexação, inspirada pelo mito da “defasagem”. Empresas, trabalhadores precisam perceber que, com ela, a inflação não pode ser domada.



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