Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 9 de março de 1982
Fiesp pretende desencadear ação política para provocar redução das taxas de juros no País, solicitando a participação dos sindicatos de trabalhadores e outras entidades empresariais nessa iniciativa. Segundo o empresário Cláudio Bardella, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a cooperação entre trabalhadores e empresários se impõe neste momento, em que o alto custo do dinheiro ameaça provocar o aprofundamento da recessão e do desemprego, em 1982.
A decisão foi esboçada após o encontro que dirigentes da Fiesp tiveram com o ministro Delfim Netto anteontem, em Brasília, para apresentar propostas destinadas a reduzir os juros, cujo alto nível vem inibindo o consumo, por parte da população, e os investimentos, por parte das empresas – impedindo a recuperação da economia, mesmo em níveis modestos.
Nas conversações, o ministro do Planejamento deixou claro que a única sugestão que poderia ser estudada, para possível implantação, corresponde ao custo dos empréstimos externos. Como se sabe, a estratégia adotada pelo ministro Delfim Netto prevê que os juros internos deverão ser mais caros que os cobrados nos financiamentos externos, como forma de forçar as empresas a contratarem esses empréstimos externos, dos quais depende a entrada de dólares necessários ao pagamento dos compromissos trazidos pela dívida externa brasileira. Essa “amarração” entre as taxas de juros internas e externas faz com que o custo dos empréstimos internos, às empresas, custem neste momento até 150% ao ano, ou cerca de 30% a mais que os 120% cobrados sobre empréstimos externos, cujo custo depende da correção cambial (desvalorização do cruzeiro, calculada em 80%), acrescida às taxas de juros internacionais (cerca de 16%), comissão do banqueiro internacional (2,5%), comissão do banqueiro nacional (6%, em média).
Afastar o temor
Pela proposta da Fiesp, que o ministro Delfim Netto se dispôs a estudar, o custo dos empréstimos externos não se basearia mais na correção cambial (mais outros custos), e sim na correção monetária. Com a mudança, isto é, “eliminação” da correção cambial, estaria afastando o temor que as empresas hoje, em relação aos empréstimos externos, quanto à possibilidade de uma “maxidesvalorização” do cruzeiro, como ocorreu em 1979. Em outras palavras, as empresas se disporiam a recorrer aos empréstimos externos naturalmente, sem necessidade de elevar o custo do dinheiro no mercado interno, para forçá-las a buscar dólares.
Aparentemente, essa simples dança seria suficiente para provocar a redução dos juros internos. Ocorre, porém, que o sistema financeiro vem cobrando juros elevadíssimos também em operações que não têm nenhuma ligação com os empréstimos externos: no desconto de duplicatas, por exemplo, as taxas chegam a 260% ao ano, segundo cálculos da Federação do Comércio, enquanto no crédito ao consumidor há casos de cobrança de até 320% ao ano. Aqui, a alegação para os juros elevados é outra: o governo estabeleceu limites para a expansão do crédito, no País, dentro da estratégia de combate à inflação e de contenção do ritmo de crescimento da economia. Essa mesma alegação – contenção, isto é, escassez de crédito – passaria inevitavelmente a ser usada para a manutenção das taxas de juros de 150%, 260% ou 320%, tão logo (e se) houvesse a mudança proposta pela Fiesp para os juros externos.
Haveria duas alternativas, então, para baratear o custo do dinheiro, ambas recusadas pelo ministro Delfim Netto a saber: a eliminação dos limites para o crescimento dos empréstimos, ou medidas diretas para forçar a redução. A primeira foi descartada, pelo ministro, sob a alegação de que, se afrouxados os controles, a inflação voltaria a disparar. Quanto à segunda, ela entra em choque com a filosofia adotada pelo governo, de reduzir o grau de intervenção do Estado dentro da economia:
A atitude, diz Cláudio Bardella, é coerente com o processo de “abertura” que todos desejamos, e sob esse aspecto somos até forçados a aplaudi-la: o governo se recusa a intervir na economia, “tabelando” os juros. A questão se desloca, então, para a área política, assim entendido o jogo de forças dentro de uma sociedade aberta. Se o sistema financeiro, por motivos não econômicos, vem podendo impor altas taxas de juros à sociedade, cabe aos demais segmentos da sociedade pressionarem em sentido contrário, tudo de acordo com o funcionamento de uma sociedade aberta, de inspiração democrática.
Frustração
Cláudio Bardella confirma as análises de outros líderes empresariais, segundo os quais as expectativas de recuperação da economia, após o ligeiro alento de janeiro, vêm sendo frustradas. A indústria de base não recebe encomendas, seja por causa das “importações forçadas”, impostas pelos credores internacionais, seja porque as empresas paralisaram seus investimentos, diante da queda do consumo e do próprio nível de atividades dentro da economia, como um todo. O consumo tampouco mostra a reação ao nível necessário, em grande parte porque o alto custo do diretor continua a afugentar o consumidor.
Sabemos que os problemas da dívida externa impedem que a economia volte a crescer aos níveis do passado, pelo menos durante dois ou três anos. Mas há um nível de crescimento possível, sem agravar o problema cambial, e que vem sendo impedido pelo custo do dinheiro. Empresários e trabalhadores devem articular-se para conseguir ao menos esse mínimo, sob a pena de os problemas econômicos e sociais se agravarem rapidamente, levando a conseqüências que podem comprometer o próprio processo de “abertura”.