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  Viva a Grã-Ordem dos Empresários Falidos

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 25 de julho de 1996


A história parece meio complicada, mas vale a pena lê-la, para entender o que está acontecendo no Brasil. Uma empresa goiana produtora de óleos comestíveis, a Olvego, comprou uma fábrica de óleo de soja da multinacional Cargill, em Brasília, para pagamento parcelado. Lá pelas tantas, a Olvego se meteu em embrulhadas financeiras, inclusive com estoques de grãos do governo e dívidas para com o Banco do Brasil. Precisou desfazer o negócio.

Conversa daqui, conversa dali, surgiu uma ’’solução’’. Segundo os jornais de 30 de maio, a Olvego conseguiu a devolução de R$ 350 mil pela multinacional e, ’’como contrapeso, o frigorífico que a Cargill mantinha em José Bonifácio, no interior paulista, para o qual a Cargill não encontrava comprador. O frigorífico será entregue ao Banco do Brasil, como garantia das dívidas da Olvego’’. Deu pra entender?

É simples. A Cargill ficou com o dinheiro _e conseguiu empurrar, para o Banco do Brasil, um frigorífico ’’podre’’ que ninguém quer comprar. A Olvego ficou com dinheiro, com suas fábricas _e sem pagar as dívidas ao BB. E o Banco do Brasil? Ficou dono de um frigorífico podre, ora bolas.

Em uma única operação, várias aberrações. É evidente que na surdina, casos como esse continuam a ocorrer, às centenas, sem que a opinião pública fique sabendo. É um erro considerar essas operações como meras ’’negociatas’’. O problema é muito mais amplo, exigindo a tomada de posição por parte dos empresários da indústria, comércio e serviços.

Tratamento desigual

A questão pode ser resumida facilmente em uma pergunta: por que empresas como a Metal Leve ou pequenas lojas do interior devem ’’quebrar’’, ser vendidas, e as Olvegos e Cargills da vida ganham presentes às custas do contribuinte?

As estatísticas mostram que dezenas de milhares de empresários faliram no Brasil nos últimos dois anos. E as notícias falam também de fazendas (no mesmo Estado de Goiás...) sendo tomadas de seus donos, na Justiça, em cobrança de dívidas para com o mesmo BB.

Então, a questão central é esta, para os empresários e a sociedade: o país está vivendo sob a ditadura de um grupo dominante, que decide quem vai falir (milhões de empresários e agricultores) e quem vai ser socorrido _até de forma inescrupulosa.

Isso não é capitalismo. Isso não é democracia. O governo FHC, que criou a crise, tem a obrigação democrática de criar políticas de crédito, de ajuda às empresas, sim _mas que se aplique a todas, sem privilégios. A mudança não exige nenhuma ’’marcha a Brasília’’ _mas, sim, pressão dos empresários sobre suas entidades de classe, em grande parte conduzidas, neste momento, por líderes demasiado coniventes com a equipe FHC/BNDES.

A alternativa é os empresários continuarem calados. E, em breve, com a quebra de suas empresas, ingressarem na Grã-Ordem dos Empresários Falidos.

Nesse caso, restará o orgulho de terem sido quebrados por uma equipe de economistas com doutorado e PhD no exterior e não por quaisquer economistas caipiras, rastaqueras da Unicamp ou Fluminense.

Chuva e vento

O governo FHC/BNDES privatiza o que quer. O governo FHC/BNDES ’’estatiza’’ o que quer, para beneficiar amigos. Até frigorífico podre. Senhores da chuva e do vento.

Sem sigilo Empréstimos dos bancos estatais deveriam ser divulgados obrigatoriamente no ’’Diário Oficial’’. Contra negociatas. O Supremo já decidiu que nesse caso (aplicação de dinheiro público) não existe sigilo.

Vento e chuva

Durante dois anos, o governo FHC/BNDES recusou propostas de redução dos juros sobre as dívidas agrícolas. Houve, afinal, um acordo com lideranças rurais e Congresso, fixando-se uma taxa de 16,95% para os grandes produtores. Tudo por lei.

Na semana passada, ela foi reduzida para 12% ao ano (mais IRP). Para quem? Só grandes produtores de arroz. E só gaúchos. Decisão da equipe FHC/BNDES. Senhores da chuva e do vento.



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