[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Afinal, quem é a favor da inflação?

Jornal Gazeta Mercantil , terça-feira 2 de setembro de 1975


Tradicionalmente a Fundação Getúlio Vergas divulga os índices de aumento de custo de vida e de inflação com uma defasagem de 10 a 15 dias. Ou, em outras palavras, entre os dias 10 e 15 de setembro deveriam ser anunciados os índices de comportamento de preços em agosto, agora encerrado. Desta feita, porém, mal iniciada a última semana de agosto, porta-vozes do Ministério da Fazenda resolveram antecipar os resultados obtidos pelo País na lida contra a inflação, e revelaram uma alta de 4,0%, posteriormente corrigidos para algo em torno de 3,7%. A atitude, impensada e injustificável, demonstra ainda uma vez que, no Brasil, o problema inflacionário transpõe as fronteiras da teoria econômica e se situa, antes, no terreno do comportamento humano, ou, mais explicitamente, tem suas origens também em uma atitude viciosa. De complacência eterna para com a inflação apesar de todos os seus males.

No primeiro semestre deste ano, o Ministério da Fazenda, como responsável direto e toda a máquina oficial, como co-responsável, perderam a oportunidade de provocar brusca reversão nos índices inflacionários no País. Havia queda na demanda. Havia super-estocagem. Havia capacidade ociosa. Havia excedentes de carne, de leite, de feijão (a CFP foi forçada a comprar “sobras” e estocar). Havia excedentes de batatas, de ovos, de frangos. Havia a queda das cotações das matérias-primas no mercado mundial. Todos esses fatores, somados, eram sérios trunfos que poderiam ter sido utilizados para uma mobilização coletiva contra a inflação criando um clima favorável à baixa de preços. Nunca o Ministério da Fazenda procurou aproveitá-los. Agora, ante um salto nos preços, seus técnicos se apressam a divulgar a má nova, criando um clima inflacionário com todos os seus desdobramentos: possível volta à estocagem, reajustes indiscriminados de preços, facilitados ainda pela passividade do consumidor, habituado e condicionado para aceitar a alta. Resta esperar que essa infantilidade não provoque o mal ainda maior, que os técnicos depois de favorecerem a alta de preços, com sua precipitação, surjam com explicações teóricas sobre a necessidade de combater a inflação, e partam para um aperto de crédito visando a “restringir” as atividades econômicas a pretexto de “esfriar” a economia. Mesmo porque ela esteve gelada no primeiro semestre, e só começou a aquecer-se a partir de junho/ julho.

A longo prazo

Lógico que o Ministério da Fazenda não poderia “esconder” os índices relativos a agosto. Mas a sua divulgação prévia é uma dupla contribuição à intensificação da inflação.

Numa primeira etapa, houve a recusa oficial de combater a especulação gerada pelas geadas, apontadas como a principal causa da elevação de preços em julho e agosto. Na verdade, vários órgãos de imprensa do Rio e São Paulo – passado o primeiro impacto emocional da geada – tiveram uma iniciativa que a máquina oficial (que existe para isso) nunca teve: através de levantamentos nas zonas de produção e centros de distribuições procurou-se avaliar a extensão real dos danos em relação aos produtos hortifrutigranjeiros. A conclusão foi a mesma, em relação ao Rio (onde o “O Globo” fez brilhante trabalho de “investigação”) e São Paulo: na maioria dos casos o produtor estava vendendo suas safras a preços iguais ou apenas ligeiramente superiores aos níveis anteriores à geada. Cabia ao intermediário a responsabilidade por aumentar de 200, 300 ou 400% com igual elevação em seus lucros.

Agora que os índices de agosto são conhecidos, qual deveria ser o comportamento dos mesmos técnicos? Aguardar a data “habitual” de divulgação do índice, e procurar minimizar seu impacto. Já na última quinzena de agosto os preços dos hortigranjeiros, em sua maior parte, haviam se aproximado dos seus níveis anteriores (após longo período de prejuízos ao produtor e ao consumidor). Nesta primeira quinzena de setembro, a normalização seria praticamente completa. O Ministério da Fazenda poderia, então, divulgar os índices de agosto, e, sem falsear a verdade (o que é essencial), demonstrar documentadamente que o “pico” da alta de preços havia passado. Todo o impacto que os 4,0% agora revelados poderiam causar, em resumo, seria neutralizado pelo anúncio de resultados mais favoráveis – e mais atuais. A alta de 4,0% já seria um fenômeno ultrapassado. Anunciada antecipadamente serviu como nova alavanca para os aumentos de preços, por obra e graça de quem deveria contê-los.

Impossível planejar

A alta de 4,0% abre comportas para males em cadeia. Na área cambial surge a perspectiva de novas desvalorizações do cruzeiro, levando os importadores a procurarem antecipar compras, para ganhar com a alteração, criando novas pressões sobre a balança comercial – e o balanço de pagamentos. Na área financeira, as perspectivas de elevação da correção monetária intensificaram as aplicações de recursos em operações para “ganhar juros”, no “mercado aberto”, levando a falta de crédito, e conseqüentemente do custo do dinheiro para as empresas que se dedicam à produção e não ao “jogo de ganhar juros”. Na área empresarial, reinstala-se a insegurança, com novas hesitações em realizar investimentos, ou mesmo contratações, visando às vendas de final de ano. E os reajustes indiscriminados de preços, possibilitados pelo clima inflacionário, voltam a devorar o poder aquisitivo do assalariado – cuja restauração se procurava – com novos riscos de queda na demanda, por falta de capacidade de consumir de vastas faixas da população.

Para todo esse rosário de males, acena-se com mudanças na fórmula de cálculo da correção monetária. Essa fórmula precisa realmente ser mudada. Mas ela é apenas o “divã” da história: a correção reflete, e até realimenta a inflação. Mas não é a inflação. O Brasil precisa alterar algo fundamental: a atitude de complacência, de omissão permanente diante da inflação.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil