Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
Um País pobre, paupérrimo, desenvolvendo técnicas suas, técnicos seus, para fabricar aviões. Fabricando e conseguindo exportar aviões para transporte de passageiros, até para os EUA, pátria de gigantes da indústria aeronáutica como a Boeing. Ou fabricando e conseguindo exportar aviões de combate para a Europa, até então denominada pelos famosos caças franceses Mirage. Assim, ao longo de sua vida, a Embraer brasileira vendeu mais de 5000 aviões no mercado mundial. E serviu de prova de que, quando um País, mesmo subdesenvolvido, tem um projeto nacional, não quer ser apenas um capacho dos países ricos, pode até desenvolver tecnologia que parece inacessível.
Ela nasceu em 1969, em São José dos Campos, como uma empresa estatal, criada pelo governo federal. Mas sua história, pode-se dizer assim, começa muito antes, em meados dos anos 50, quando o Brasil ainda era um País totalmente agrícola, dependente quase exclusivamente do café, e a criação de sua indústria mal começava. Foi nesse País quase selvagem que, por iniciativa das Forças Armadas, foram fundados centros de pesquisa de tecnologia aeronáutica e espacial em São José dos Campos, inclusive o ITA, formador de engenheiros voltados para essa especialidade. Tudo isso, repita-se, num Brasil em que 75% da população ainda morava na roça, num País onde a energia elétrica era um luxo, num País em que o fogão a lenha ou a carvão mal começavam a ser substituídos pelo fogão a gás.
Por que a preocupação com a produção de aviões? O Brasil é um País gigantesco, havia cobiça em torno de seu território, era preciso fiscalizá-lo permanentemente com aviões, e era impossível importá-los em grande quantidade, dada a pobreza do País. Por isso se desenvolveu e acumulou tecnologia em São José dos Campos. O passo seguinte foi a criação da Embraer, em 1969, um verdadeiro símbolo, como visto, de uma época em que o Brasil procurava afirmar-se como um País digno de respeito. Ao longo dos anos 80, porém, as empresas de transporte aéreo de todo o mundo sofreram violenta crise. Logicamente, as encomendas de aviões caíram e a Embraer, como suas concorrentes de outros países, enfrentou dificuldades financeiras. Elas seriam superadas quando seus clientes deixassem a crise para trás. Mas o Brasil já tinha mergulhado na onda de privatizações ordenada pelos países ricos e FMI.
Em 1994, a Embraer foi vendida a preço de banana a grupos brasileiros privilegiados, com a condição de que seu controle nunca fosse vendido a grupos estrangeiros. Agora, a Aeronáutica denuncia que, graças a acordos secretos aprovados pelo governo FHC, a Embraer vai ser controlada por quatro empresas estrangeiras. Francesas. Que são semi-estatais, isto é, pertencem parcialmente ao governo francês. A manobra é também um símbolo do Brasil de FHC. Sem dignidade. Lambe-botas.