Jornal Diário Popular , quarta-feira 19 de julho de 2000
Noite de segunda-feira, televisão ligada. Cenas de tragédia, em dois jornais noturnos, às 19h30 e 20h15. Um incêndio dantesco havia consumido totalmente uma favela, de 300 barracos, na véspera. Chove. O frio é intenso. Centenas de pessoas, homens, mulheres crianças, permanecem nas ruas, nas vizinhanças dos escombros. Parados, miseráveis, na chuva e no frio. Não têm para onde ir. Perderam tudo. Homens do povo, com lágrimas a escorrer pelo rosto, misturadas à água da chuva. Meninas, meninos de cinco, sete, dez anos, olhar esgazeado, perdido na direção em que o fogo devorou seu barraco, seu fogão, sua cama, sua boneca, sua mísera riqueza.
Por 30 segundos, a TV mostra a tragédia de 1.500 a 2.000 pessoas. Perdidas na chuva, no frio, na escuridão. Vinte e quatro horas depois da tragédia. Trinta segundos para a tragédia que destruiu 300 barracos moradias. Logo depois, o jornal das 20h15 traz uma reportagem sobre o frio arrasador. Fala dos albergues lotados, com vagas para apenas 2.000 ‘‘moradores de rua’’. Conta que há outros 6.000 sem-teto dormindo nas calçadas, em bancos, debaixo de viadutos. Frio cortante. Como coberta, os jornais. Caixas de papelão. Ou um cobertorzinho ralo. Uma jovem mãe, deitada na calçada, é entrevistada. Ao seu lado, um bebê. Cinco meses. Na chuva. No frio. Depois de 20 segundos, a reportagem termina. Vinte segundos. É quanto vale, na TV brasileira, a tragédia de milhares de pessoas, adultos, crianças, bebês, largados nas calçadas, na chuva, no frio. Sofrimento.
Embrutecemos. A sociedade brasileira embruteceu. Os meios de comunicação embruteceram. Nós, jornalistas, embrutecemos. Claro que estamos, antes de mais nada, diante de uma brutal insensibilidade dos governantes. No caso do incêndio da favela, uma tragédia que jogou 1.500 pessoas na ruas, é evidente que o governo do Estado e Prefeitura deveriam ter agido, como diante de qualquer catástrofe. Providenciado alojamento para as famílias, montando equipes de emergência, agido — como é de sua obrigação. Para que servem os Fundos de Solidariedade dos palácios de Governo ou as Secretarias de Bem-Estar Social? Para que existem as comissões de Defesa Civil? Trezentos barracos destruídos. Isso não é uma catástrofe? Vinte e quatro horas depois, as vítimas continuavam ao relento. Na chuva. No frio cruel. Não seria obrigação do governo transportar essas famílias para um ginásio de esportes que fosse, fornecer-lhes uma sopa, colchões, roupas? Nada. A mesma insensibilidade, o mesmo desprezo total, para com os sem-teto. Há meses se sabia que o frio este ano seria intenso. Nos últimos dias, as previsões já estavam confirmadas. Que providência foi tomada? Que plano de emergência foi montado? Nada. Desprezo total pelo sofrimento de seres humanos. Desprezo total pela vida.
Os governantes atuais não se importam mais com o povo, o ser humano. Mas todos também somos culpados. Por silenciar. Por ficar de braços cruzados. Embrutecemos, sim.