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  A disparada dos juros no “open??

Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 27 de abril de 1983


As taxas de juros no “open market” têm chegado a 18%, 20%, 23%, ao mês, trazendo lucros fabulosos para pequenos grupos à custa de rombos no Tesouro, encarecimento dos empréstimos para as empresas, inflação e desemprego. E elas são, mais uma vez, uma demonstração da incompetência com que a equipe ministerial está conduzindo a economia do País, atolando-a cada vez mais. Desnecessariamente.

Para que se entenda o que está ocorrendo, e para que não se pense que é mentira, transcreva-se o noticiário publicado ontem nos jornais sobre o que aconteceu no “open market” na véspera, segunda-feira: – “O custo do financiamento por um dia voltou ontem ao nível de 18% ao mês... No início das operações, o Banco Central emprestou dinheiro para as instituições financiarem suas carteiras de títulos públicos a 11% ao mês, mas as operações só começaram a ocorrer acima de 14%, atingindo uma taxa máxima de 18,24%... O volume negociado ontem foi de Cr$ 4,62 trilhões” (trilhões, mesmo, em um só dia).

Esse noticiário é igual ao que vem sendo publicado praticamente todos os dias, nas últimas semanas. O que ele quer dizer, em português? É simples: os bancos, as instituições financeiras, compram Obrigações do Tesouro Nacional e Letras do Tesouro Nacional (e letras de câmbio e certificados de depósito bancário) não com o dinheiro que possuem, mas com dinheiro tomado emprestado no “open”, dia a dia. Qual é o seu lucro? A diferença entre as “taxas de juros” pagas por aqueles títulos (que eles mantêm “em carteira”), e as taxas de juros que eles pagam pelo dinheiro tomado emprestado no “open”.

Quando as taxas no “open” disparam, porém, como está acontecendo no momento, os bancos e instituições enfrentam prejuízos, pois os juros sobre os empréstimos tomados no “open” são maiores que os juros proporcionados pelas ORTN e LTN (e CDBs e letras de câmbio). O que é que o Banco Central está fazendo? É o que o noticiário diz: a pretexto de evitar prejuízos para os bancos e instituições, o Banco Central empresta dinheiro, a juros mais baixos – no caso, 11% ao mês – a um grupo de instituições “escolhidas”. Quer dizer: o Banco Central tenta garantir que elas sempre terão lucros. Como o dinheiro, no entanto, é dado a apenas um pequeno grupo de instituições, o que acontece é que elas ficam em situação absolutamente privilegiada: podem, até no mesmo dia, emprestar 18% ao mês em dinheiro que receberam a 11% ao mês, do Banco Central. Podem estufar seus lucros cada vez mais, crescerem cada vez mais – confirmando que, neste estranho capitalismo brasileiro, não há concorrência: é o governo, são os ministros que decidem quem vai enriquecer e quem deve ir à falência. Ou quem deve ficar desempregado.

Qual a explicação dos ministros e seus assessores para a distorção? Admite-se que as altas taxas de juros no “open” são a conseqüência da imensa dívida interna do Tesouro. No entanto, em vez de atacarem esse problema em suas raízes, eles “tentam” reduzir as taxas de juros, no “open” como um todo, oferecendo empréstimos baratíssimos a bancos e instituições “felizardas”. As taxas, lógico, continuam a disparar. A doação de dinheiro barato aos banqueiros é, certamente, mais uma demonstração da competência experiente da equipe ministerial.



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