Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 9 de abril de 1976
São Paulo é inviável. São Paulo suga a Nação. Cada fábrica instalada em São Paulo não aumenta a riqueza do país: empobrece-o. Essas verdades eram sabidas das áreas governamentais, quando tomou posse o governador Paulo Egydio, ou o prefeito Olavo Setúbal. Por isso mesmo, as diretrizes de política de governo por eles adotadas mostravam coincidência absoluta com a orientação federal, e que pode ser sintetizada (nessa área) em duas diretrizes fundamentais:
1. Descentralizar a indústria, descentralizar a economia, criando-se novos pólos de desenvolvimento não propriamente fora do Estado de São Paulo, cujo “inchaço” e um fenômeno monstruoso em todos os sentidos. Não há nessa orientação, em outras palavras, uma “carga” contra São Paulo, e sim contra a monstruosidade da Grande São Paulo, área que abrange a capital paulista além de mais quatro dezenas de municípios, aproximadamente.
2. Melhorar a qualidade de vida na Grande São Paulo. Contendo seu crescimento, seria possível atacar os problemas que hoje alucinam mais de dez milhões de pessoas: falta de transporte, de moradia, de água, de esgoto, altas taxas de mortalidade, trânsito neurótico – e poluição em níveis aterrorizadores, como já se pode observar nestes belos dias de abril, em que o céu limpo, límpido não impede que as pessoas já comecem a sentir os olhos em brasa, os brônquios em fogo, o nariz ressecado, a pele ardente, as sensações de mal-estar que vão desde as dores de estômago ou cabeça aos distúrbios do sistema nervoso. Sabe-se lá por que sorte de pressões (mas é possível imaginá-las) essas diretrizes estão sendo claramente enfraquecidas, rumo ao abandono. São Paulo retoma o caminho do suicídio econômico e social, sob a liderança ostensiva dos tecnocratas e a batuta invisível dos interesses econômicos.
AS MEIAS PALAVRAS
Nas últimas semanas, vem-se discutindo intensamente os problemas da “megalópolis” paulistana. As inundações. A poluição do próximo inverno, que, teme-se, poderá matar às claras (ate hoje, ela matou “às ocultas”). A especulação imobiliária, como fator impeditivo do uso adequado do solo.
O noticiário, sorridente, dá a impressão de que se caminha rumo às metas propostas, de descentralização econômica e melhora da qualidade de vida na Grande São Paulo e, por extensão, a melhora da qualidade de todo o processo brasileiro de crescimento. Quem não se deixa enganar pelas aparências, porém, verá que a atitude fundamental, básica, da tecnoestrutura e dos governantes mudou. Há encenação, no palco.
Assusta, por exemplo, que o Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado comece “a ser revisto e atualizado pelo governo do Estado” (sic), quatro anos depois de ter sido concluído com o objetivo de disciplinar o crescimento da região metropolitana. Assusta, porque dos três itens básicos em foco nessa discussão há um, suspeitíssimo: “a redução dos entraves burocráticos à implantação de indústrias” (sic). Assusta, porque, “há uma semana..." o governador decidiu limitar os entraves burocráticos “à formação de indústrias”. Assusta, porque o secretário dos Negócios Metropolitanos, Roberto Cerqueira César, lembra que a intenção é não deixar “que a neurose da poluição faça com que sejam adotadas medidas indiscriminadas de contenção do crescimento do parque industrial do Estado (leia-se: da Grande São Paulo)". Assusta porque governador e prefeito já voltam a dizer que “São Paulo precisa de fábricas”.
A VERDADE INTEIRA
Nos mesmos debates sobre os problemas da Grande São Paulo, diz-se que o combate “às inundações em São Paulo exigiria obras (que não adiantariam muito) em torno de 20 bilhões, isto é, 20 trilhões de cruzeiros velhos. Realisticamente, pode-se fazer algumas obras mais prementes, na casa dos 7,0 bilhões de cruzeiros (também sem adiantar nada). Basta esse exemplo – das inundações – para entender porque é que a Grande São Paulo dá prejuízo ao Estado de São Paulo e ao Brasil. Ou porque cada fábrica instalada em São Paulo só dá lucro na aparência, isto é, dá prejuízo à coletividade, ao país. A Grande São Paulo está sofrendo de “deseconomia em escala”, isto é, cada novo investimento industrial, em vez de gerar receita – para a coletividade, para o país – passa a gerar despesas. Mais claramente: cada fábrica que se instala em São Paulo e passa a produzir uma renda de 100 mil por ano, hipoteticamente, acaba por exigir despesas de 200, 300, 400 ou 1 milhão, dos poderes públicos. Despesas para combater as inundações, para tentar controlar a poluição, para construir o metrô, para implantar a rede d’água, para construir moradias, para implantar rede elétrica, para cuidar da saúde da população.
Sem a contenção do crescimento industrial da região, “explode” a população, espraia-se a área edificada exigindo infra-estrutura, impõe-se a expansão do sistema viário. Enquanto se remenda aqui, agigantam-se os problemas ali. As próprias inundações são o resultado – e qualquer pessoa dotada de bom sendo já o percebeu – da ocupação indiscriminada do solo, com indústrias, oficinas e residências construídas bloqueando o curso de córregos e rios, simultaneamente ao despejo desmedido de todo o tipo de resíduos nos principais cursos d’água que cresce na mesma proporção da industrialização e do “inchaço” populacional.
Os recursos aplicados na Grande São Paulo são estéreis: em lugar de lucros, dão prejuízo. Os recursos aplicados na industrialização de São Paulo são retirados das outras áreas, onde poderiam multiplicar renda, acelerando o crescimento econômico do país e evitando o agravamento de distorções. Os recursos aplicados na industrialização da Grande São Paulo são apenas a sementeira de novos problemas gigantescos, que exigirão novamente recursos gigantescos.
Os governantes sabiam disso, até pouco tempo. Agora, volta-se a falar a linguagem dos suicidas, num mês de abril em que o céu é límpido mas a poluição começa a matar. Aos poucos, por enquanto. Vale a pena esperar o frio de junho.