Jornal Diário da Manhã , sábado 3 de setembro de 1983
PAÍS DOS TROUXAS – De repente, o País acordou para os escândalos do mercado financeiro. Acontece que a política econômica do Brasil é feita mesmo de escândalos, todos os dias, em todas as áreas, sem que se atente a eles. O caso da soja, neste exato momento, dá bem uma idéia de como o ministro do Planejamento e seus assessores administram a economia do País. O preço da soja pulou de Cr$ 4.000,00 para Cr$ 15.000 a saca, em poucas semanas. Dizia-se que era por causa da quebra da safra norte-americana. Mas o fato é que o produto, aqui dentro, ficou muito mais caro do que no mercado internacional – o que é um contra-senso, pois as indústrias que a comprassem não poderiam exportar o óleo e o farelo produzido a partir dos grãos. Só para ter uma idéia: o farelo de soja, usado como matéria-prima de rações para aves e bovinos, está custando o equivalente a Cr$ 280,00 o quilo no Brasil, contra Cr$ 180,00 o farelo importado, com frete e tudo, desembarcado num porto brasileiro. O óleo acusa o mesmo disparate de preços.
Essas distorções sacrificaram incrivelmente o País: a inflação de 10% em agosto se deve basicamente à alta da soja e do farelo, que puxou também o preço da carne, ovos, frangos. Como é que essas distorções surgiram? É simples: os assessores do ministro, agora chefiando a Cacex, decidiram que bastavam as empresas “comunicarem” que iam exportar farelo ou óleo, em vez de apresentarem contratos comprovando a operação, para terem direito à exportação – e obterem crédito subsidiado pelo governo (juros de 60% ao ano), produzirem óleo e o farelo. Resultado: todo mundo entrou na “mamata”, comunicando “vendas frias” à Cacex. O Brasil teria 7,0 milhões de toneladas de farelo a exportar, e foram “comunicadas” 9,0 milhões: 1,0 milhão de toneladas de óleo, e foram “comunicadas” 1,5 milhão. A falsa movimentação do mercado causada por essas vendas frias provocou a “disparada” de preços, com os grupos envolvidos realizando lucros fabulosos, de 30% em semanas. Foram punidos? Ora, por quem sois. A Cacex resolver garantir o lucro dos especuladores. Quem fingiu vender, em vez de ser punido, vai poder “adiar as exportações” até maio de 1985. Com um prêmio extra: o crédito e juros de 60%, dado pela Cacex para processar e exportar soja que nunca existiu, vai valer também para as vendas de óleo e farelo no mercado interno a decidir, parece, uma forma de combater a carestia, mas na verdade é uma forma de garantir os lucros dos especuladores, que nunca poderiam vender aqueles produtos no mercado externo, diante dos preços altos que a própria especulação provocou. Carestia para o povo, subsídio para os especuladores.