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  Capacidade ociosa na indústria atinge 26%

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 18 de março de 1982


A indústria paulista atingiu em janeiro último um nível de capacidade ociosa de 26%, com novo recuo no Índice do Nível de Atividade – INA, calculado pela Fiesp, que se fixou em 95,5, isto é, 4,5% abaixo dos resultados de quatro anos atrás, isto é, 1978. Do ponto de vista do mercado de trabalho, houve estabilidade, em relação a dezembro, no total do pessoal ocupado e no total de horas pagas, mas o total de salários pagos permaneceu igual ao valor de dezembro, isto é, houve queda, em termos reais, se considerada a inflação de janeiro.

Apesar dos dados estatísticos ontem liberados pela Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – refletirem claramente os problemas enfrentados pela economia brasileira, eles não permitem afirmar que a crise da indústria está se agravando – ou se há recuperação à vista. A impossibilidade de qualquer conclusão nesse sentido decorre de dois aspectos: em primeiro lugar; porque somente em meados de abril, isto é, daqui a um mês a Fiesp divulgará os resultados registrados em cada um dos setores (no mês de janeiro), em confronto com os resultados de dezembro e mesmo de janeiro de 1981.

A necessidade de conhecer esses dados, setor por setor, é essencial para uma avaliação correta da situação pelo fato puro e simples – e esse é o segundo aspecto que dificulta conclusões – de que a intensidade dos problemas, desde 1981, tem variado muito, de setor. Ou, mais precisamente, eles atingiram com maior violência a indústria de material de transporte, que engloba não apenas o setor automobilístico, mas também os fabricantes de material ferroviário. Como essa indústria tem grande “peso” nos cálculos dos índices da Fiesp, seus resultados negativos “incham” as estatísticas globais, relativas à queda na atividade industrial como um todo.

Essa distorção pode ser claramente entendida através dos resultados de 1981, quando a atividade industrial (medida pelo INA da Fiesp) recuou 8,9%. Na verdade, dos onze setores pesquisados pela Fiesp, somente três estiveram acima dessa marca; não-metálicos (cimento, basicamente), com 10,9%; produtos plásticos, com 15,8% e, finalmente, material de transporte, na liderança, com menos 18,8%.

Novas distorções
Algumas lideranças empresariais, preocupadas com os problemas que ameaçam o futuro de seus respectivos setores, insistem na tese de que a avaliação correta da crise da indústria não pode basear-se nas estatísticas que revelam a evolução da produção, mês a mês, e sim nas estatísticas anuais que mostram a queda da produção nos últimos doze meses, em comparação com os doze meses anteriores – ou seja, fevereiro de 1981 a janeiro de 1982, comparado com fevereiro de 1980 a janeiro de 1981, por exemplo.

Por esse critério, os dados liberados ontem pela Fiesp mostrariam – enganosamente – que a “crise” da indústria paulista (deixando-se de lado as diferenças setoriais) continuaria a agravar-se: nos últimos doze meses terminados em dezembro de 1981, (isto é, janeiro a dezembro de 1981), comparados com os doze meses anteriores (isto é, janeiro a dezembro de 1980), a queda acumulada era de 8,8%; em janeiro, os mesmos cálculos mostraram uma queda de 9,7%, isto é, uma “piora”.

Esse resultado, porém, é apenas uma “ilusão estatística”, e dentro desse critério, mesmo que a economia subitamente passasse a funcionar a todo vapor, a queda – nas estatísticas – continuaria. Por que? É fácil entender, a partir do próprio exemplo atual: a taxa de dezembro correspondia ao período de janeiro a dezembro e 81; a taxa de janeiro corresponde ao período de fevereiro de 81 a janeiro de 1982, isto é, nos cálculos “saiu” o resultado de janeiro de 81 e entrou o resultado de janeiro de 82. Ocorre que, em janeiro de 81, a indústria, embora já em queda, ainda mantinha alto nível de produção; enquanto em janeiro deste ano, mesmo que as atividades crescessem substancialmente em relação aos maus resultados de dezembro, novembro, outubro do ano passado, elas continuariam abaixo do nível de janeiro de 81.

Na prática, um resultado “bom” de janeiro de 1982 (quando comparado com outros meses de 81), substituiria um resultado ainda melhor de janeiro de 81 – e o índice acumulado de doze meses cairia, apesar da situação já ter melhorado para as empresas. As taxas “anuais”, em resumo, são uma ilusão estatística, não “medem” o que está ocorrendo no momento, porque incluem os resultados de doze meses anteriores, refletem o “passado”, não o presente.

A industria automobilística pode ser usada para exemplificar claramente os perigos de falar em “crise cada vez maior” a partir da ilusão das taxas anuais. Em janeiro de 1981, ela produziu 80 mil veículos; em dezembro de 81, ela produziu 53 mil veículos, ou 46% a menos. Se, em janeiro de 1982, isto é, “agora” ela produzisse 60 mil veículos, sua produção teria subido 13% em relação a dezembro, mas ainda estaria muito abaixo do nível de janeiro de 1981.

Assim, a taxa “anual” de produção continuaria a cair, em janeiro, pois o resultado de janeiro de 1981 (80 mil veículos) seria substituído por um número menor (60 mil veículos), correspondente a janeiro deste ano.



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