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  Governo não age ante disparada da inflação

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 10 de abril de 1983


Quando a inflação disparou em janeiro, a Fundação Getúlio Vargas e os ministros que mandam nela disseram que a “culpa era das chuvas”, que haviam prejudicado a produção de verduras e legumes. O consumidor que vai a supermercados, a dona-de-casa, a população massacrada pela carestia sabia que a verdade era outra. Verduras e legumes estavam caríssimos, sim – mas a marcação era generalizada, com altas gritantes também para os alimentos industrializados, que não sofrem os efeitos da chuva.

O governo contentou-se com sua própria explicação – e não tomou nenhuma providência para conter a alta da alimentação (como, de resto, a inflação em geral). O resultado é que os preços continuaram a disparar, em fevereiro e março – e, na última semana, até a Fundação Getúlio Vargas foi obrigada a admitir que o custo da alimentação subiu 35% no trimestre, e quase 15% (preços no atacado), apenas em março. Em um mês.

O governo, o Ministério do Planejamento e órgãos ligados vão acordar desta vez? Não. Porque a explicação para a alta é quase a mesma: ”culpa das chuvas”, e “culpa da máxi”. O governo tem uma Secretaria Especial de Abastecimento e Preços, tem a Cobal, tem centenas de assessores, mas não está interessado em investigar quem está aumentando preços: os agricultores? Os intermediários? Os industriais? Ou o comércio? Os aumentos são justos ou há especulação a combater?

Para que o governo abandone suas explicações simplistas para a carestia, vale a pena verificar o comportamento de preços de 22 produtos alimentícios, de dezembro a março de 83. Esse levantamento, em que não aparece nenhum aumento abaixo da casa dos 40%, explica o desespero de determinadas faixas da população: na “disparada” geral, não há nem mesmo a possibilidade de substituir um produto por outro. A única saída é reduzir o consumo – para quem já subconsome há muito tempo.

Para verduras e legumes, houve altas de até 1.640%, como no caso do espinafre, por “culpa das chuvas”. E avanços de 400%, como no caso de um produto de largo consumo popular, a batata, tradicional substitutivo para o arroz e o feijão, também caros: pouca gente nos Ministérios deve saber o que significa para uma família pobre, ver a batata ser vendida a Cr$ 350/400 o quilo. É a constatação definitiva de que o governo não se importa com os problemas da população.

No caso da carne, a origem da alta seria o excesso de exportações, que comprometeram o abastecimento interno, ou o “sumiço” do estoque de 240 mil toneladas que os frigoríficos deveriam ter formado, pois receberam dinheiro para isso, do governo, a juros de 45% ao ano. O fato é que, nos últimos dias, o maior reajuste de preços atingiu exatamente os tipos de consumo popular, a chamada carne de segunda, como o acém, peito, capa de filé, com 60% de aumento em relação a dezembro de 1982, enquanto as carnes de primeira, como coxão mole, subiam 42%. ] A retirada de subsídios, por sua vez, aumentou os preços do macarrão ou do pão, enquanto a Semana Santa justificava a alta para os ovos (50%), para o pescado (mais 290% para a tainha) ou o bacalhau (a Cr$ 3.700 o quilo do tipo inferior, com o produto “extra” vendido a até Cr$ 7.000).

Argumentos menos específicos, como a própria inflação ou o nível das taxas de juros, serviriam para explicar o encarecimento de produtos de consumo popular ou obrigatório, como o leite em pó (52%) ou a mortadela (76%).

Na prática, todas essas explicações não reduzem a carestia, nem encobrem a realidade: a somatória de todas essas altas atinge brutalmente a capacidade de consumo da população. Esmagada pela carestia, em meio à mais profunda indiferença dos Ministérios e órgãos – também estaduais, deve-se registrar – que deveriam combater a inflação.

PS: Houve quem visse uma “contradição” entre as magníficas vendas de “ovos de Páscoa” e os distúrbios de rua em São Paulo, acreditando, otimisticamente, que na verdade o povo está tão contente que se lambuzou de chocolate. Interpretação vesga: a carestia está tão maluca, que já subverteu prioridades e hierarquia nas compras. Se a batata custa Cr$ 70 o quilo, e o “ovo de Páscoa” custa Cr$ 1.200, o consumidor, mesmo de classe média, pensará duas vezes antes de comprar o chocolate, que estaria proporcionalmente bem mais caro em relação a bens mais essenciais: com Cr$ 1.200, era possível comprar quase 20 quilos de batata. Se a batata custa Cr$ 350, se um mísero maço de couve custa Cr$ 220, isto é, se o dinheiro não vale nada, por que não fazer a alegria dos filhos?



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