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  Tudo fora de controle, conforme as previsões

Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 7 de maio de 1976


Encerrado o primeiro quadrimestre do ano, é hora de fazer um balanço dos rumos da economia brasileira, para verificar os êxitos ou insucessos da política implantada para moldá-los. Afinal, já se vão quatro meses desde dezembro – quando foi anunciada a restrição de crédito como forma de combater a inflação através da “desativação da demanda”, e também como caminho para combater o déficit da balança comercial, através da contenção das importações.

O balanço é, assim, urgente, pois se as políticas estiverem equivocadas, o país estará acelerando o passo rumo a um beco sem saída, ou onde as únicas saídas serão a recessão violenta e o abandono da política de fortalecimento da empresa nacional, repetindo-se um indesejável processo de desnacionalização como o ocorrido em 68. O que dizem os dados, já que somente eles contam para os especialistas que adotaram a contenção do crédito, a política monetarista, como estratégia para resolver os problemas do país? Os números não revelam nada de agradável. Ao contrário: colocam em xeque, mais uma vez, todo o diagnóstico feito pelo Ministério da Fazenda para o momento brasileiro, vale dizer, mostram que a estratégia não funcionará.

Como está a inflação? Os dados semi-oficiais, revelados ontem, mostram um custo de vida de 3,2%, novamente acima de 3,0%, portanto, em abril. Da mesma forma, o índice de preços no atacado, usado para o cálculo da correção monetária, situa-se próximo dos 3%, permitindo prever que, para agosto, a correção já é de 22%. Realimentando a inflação, obviamente. Por que essa persistência da alta dos preços? Por causa da “demanda”, diz o diagnóstico. Mas, ainda uma vez, a alta se deve basicamente aos produtos hortigranjeiros – segundo afirmam as informações preliminares – e isso invalida qualquer teoria que explique a disparada de cotações como função de uma procura ativa, por parte do consumidor. Pelo menos, não consta na História de nenhuma nação que a fartura de crédito leve o preço do tomate a Cr$ 10,00 o quilo, e as demais leguminosas a Cr$ 7,00 ou a Cr$ 8,00 o quilo (num parêntesis: isso até poderia ocorrer no Brasil, se o Banco Central permitisse que o crédito ao consumidor fosse usado também na venda de batata, cebola, abóbora, aipim. Para quem duvida, basta ver que há lojas vendendo presente para o dia das Mães na base de prestações de Cr$ 7,00 ou Cr$ 8,00 por mês, exatamente a mesma política – esta sim, de “inflação de crédito” – que levou a Eletroradiobrás à falência, com meio bilhão de cruzeiros de prejuízos que o Banco Central talvez ajude agora a cobrir – conforme apontada em “A inflação e a conspiração do silêncio”, na “Gazeta Mercantil” do dia 1/5/76).

EFEITO CONTRÁRIO

E a demanda? Mesmo que não se aceite que existe uma “inflação de demanda”, que precisa ser contida, o fato é que a política oficial tem essa justificativa para sua aplicação. Ela está sendo desativada, isto é, a “política” está funcionando? O ministro Reis Velloso, em pronunciamento recente, revelou um crescimento de 12% na produção industrial, no primeiro trimestre. Agora, os dados de consumo de energia elétrica revelam que, mesmo em abril, houve um novo recorde, com avanço de 11% nas vendas do sistema Light, refletindo a manutenção do ritmo de produção. Em outras palavras: a expansão da produção contínua, incontrolada. E, inevitavelmente, também o consumo de matérias-primas e componentes importados se mantém, invalidando os esforços de combate ao déficit da balança comercial.

Concretamente, portanto, qual o efeito da política monetarista, de aperto no crédito até agora? Aumentar a inflação. Através do aumento do custo das empresas, por três vias:

1. Aumento exagerado dos preços das matérias-primas, componentes e equipamentos importados, através de depósito compulsório, da retenção de recursos das empresas, por 360 dias.

2. Aumento exagerado dos custos financeiros das empresas, através da “disparada” das taxas de juros, na casa de 40 ou 50% ao ano – quando não, mesmo, a níveis mais elevados.

3. Aumento exagerado dos custos das empresas que tomaram empréstimos no exterior, através das desvalorizações cambiais: em apenas um mês, é bom lembrar, o cruzeiro foi desvalorizado em 8%, o que significa que as empresas precisam faturar 8% a mais, em suas vendas ou serviços, para comprar os mesmos dólares e pagar suas “prestações” no exterior. Esse dado é gravíssimo, já que, como se tem visto repetidamente, praticamente todos os serviços públicos no Brasil – energia, transporte ferroviário, transporte de massas, telecomunicações ou abastecimento de água – estão sendo ampliados através de financiamentos externos. As desvalorizações exigindo, inevitavelmente, o reajuste de tarifas – sem falar nos preços do petróleo e combustíveis importados.

CAMINHO CEGO

Está ocorrendo, em resumo, tudo o que se previu em dezembro (neste jornal). A política monetarista está provocando violenta inflação de custos sem resolver os problemas da balança comercial. Somente o crédito seletivo, e a reforma fiscal para desestimular o consumo de bens supérfluos, conterão o consumo de produtos dispensáveis, mantendo a economia em expansão sem provocar inflação e sem agravar o problema cambial.

Atenção: a política monetarista, se continuar sendo mantida, poderá trazer resultados, sim, e em duas etapas. Numa primeira etapa, em futuro próximo, a escalada de preços (por causa dos custos), das taxas de juros, começará a arruinar empresas e consumidores. O crédito será ainda mais apertado – como as autoridades monetárias prometiam ontem, em entrevista oficiosa à imprensa carioca -, multiplicando as falências. Os negócios começaram a declinar, e a recessão se instaurará. Em puro desespero, as empresas poderão – então – começar a vender a preços mais baixos, para “fazer caixa” (ampliando novamente o número de falências”. O surto inflacionário poderá, então, ter declinado. A um custo social desnecessário, e, o que é pior, ver perspectivas de continuidade para a “baixa”, tão logo se reinjete crédito na economia, as empresas procurarão recuperar-se das perdas, e seus preços iniciarão nova escalada.

PS: Por que o cruzeiro está sendo desvalorizado? Para estimular as exportações, ou melhor, por causa dos altos preços dos produtos brasileiros? Por causa da inflação. Por que existe inflação? Por causa das desvalorizações cambiais, do encarecimento das importações. Por que há desvalorizações? Por causa da inflação, que eleva os preços dos produtos brasileiros? Por quê? Basta.



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