Jornal Folha de S.Paulo , domingo 17 de abril de 1983
A produção de hortifrutigranjeiros, como de resto toda a agricultura brasileira, sofre inegavelmente o drama da falta de uma política de longo prazo, que atendesse aos interesses do produtor e também do consumidor. Também esses produtos são atingidos por problemas como falta de crédito, encarecimento alucinante de fertilizantes e defensivos contra pragas, ou mesmo de terras (por força da especulação imobiliária). Esses mesmos produtos, finalmente, enfrentam o problema de ciclos de “superprodução”, que arruínam o produtor e o levam a reduzir o plantio, na safra seguinte – ocorrendo, então, escassez e “disparada” nos preços, para o consumidor.
São problemas que poderiam ser contornados, se o País dispusesse de uma política de produção e comercialização. Mas não é isso que acontece. Em 1979 e 1980, a Cobal começou a comprar grandes volumes de produtos que estivessem sobrando no mercado, prevendo-se inclusive a distribuição desses “excedentes” a instituições e caridade ou a sua venda, a baixo preço, a populações carentes. Essa orientação foi abandonada em 1982; uma grande produção de batatas, por exemplo, derrubou violentamente os preços do produto, arruinando os produtores, que deixaram a safra apodrecer no solo. Este ano, o plantio de batata foi muito menor, a demanda não será plenamente atendida – e por isso os preços entraram em vertiginosa escalada.
O reconhecimento de todos esses problemas “estruturais”, permanentes (porque não enfrentados), não permite ignorar, porém, que a brutal elevação dos hortifrutigranjeiros neste começo de ano foi fortemente marcada pela especulação – já que a alta, como se viu, foi desproporcional à redução na oferta.
Os dados disponíveis mostram, inclusive, que em janeiro e fevereiro a alta no atacado (Ceasa), que teoricamente deve ter beneficiado o produtor, foi ampliada pela intermediação. Efetivamente, para cinco produtos escolhidos, aleatoriamente, a margem de lucros obtida no varejo, pelo revendedor final, cresceu a partir de janeiro. No momento, o quadro já começa a alterar-se ainda que lentamente. Pesquisa realizada pela “Folha” na última quinta-feira, em feiras e supermercados, mostrava uma margem de intermediação ainda alta para a cenoura, de 328%, mas inferior à vigente nos primeiros dias do mês, 392%, ou quase 400%.
Para a couve, a margem nas feiras se reduzira para 100%, enquanto nos supermercados não havia margem de lucro aparente, ao menos em relação aos preços do Ceasa, seja porque esses estabelecimentos compram a preços mais reduzidos, diretamente de produtores, ou porque decidiram vender o produto a preços promocionais. O fato de os supermercados venderem a couve a preços semelhantes (Cr$ 215 o maço) aos das feiras, e não acusarem margem de lucro em relação ao Ceasa, onde o produto custa o equivalente a Cr$ 100 o maço, parece encerrar um erro de cálculo, já que há uma diferença de Cr$ 115 entre os dois preços.
Na verdade, porém, o maço de couve dos supermercados, submetido a pesagem pela reportagem da “Folha”, acusou o dobro do peso dos maços das feiras, com o seu custo de Cr$ 215 equivalendo ao custo de Cr$ 100 para o maço do Ceasa.
Discrepâncias como essas, a propósito, dificultam muitas vezes a avaliação correta das margens de lucros dos intermediários e vendedores finais. Além de pesos diferentes, no caso de maços, há também a enorme variação na qualidade dos produtos. Nas feiras pesquisadas na quinta-feira pela “Folha”, havia batata à venda a Cr$ 500 o quilo, ou equivalente a Cr$ 30.000, para uma saca de 60 quilos. Tratava-se porém de produto vendido a granel, do tipo especial, “lisa” – cujo preço no atacado chegava a Cr$ 15.000, no Ceasa. O lucro do feirante, no caso, estava sendo de 100%.
Nos supermercados, o saco de dois quilos de batata poderia ser comprado a Cr$ 700, em média, isto é, a Cr$ 350 o quilo. O conteúdo do saquinho, porém, reunia algumas batatas de tamanho grande, e uma quantidade maior de batatinhas miúdas e de casca irregular, que poderiam ser classificadas de “lisa de primeira” e “lisa de segunda”, vendidas a Cr$ 10.000 e Cr$ 8.000 a saca, no Ceasa. A “mistura” feita pelos supermercados, predominando o produto do tipo inferior, corresponderia portanto a um preço, no atacado, de Cr$ 9.000 a saca, no máximo, ou Cr$ 150 o quilo. Mesmo vendendo a batata a Cr$ 350, a margem de lucro do supermercado seria maior (130%) do que a obtida pelo feirante (100%) trabalhando com o tipo especial, de Cr$ 500 o quilo.
Observe-se, ainda, que o feirante depende exclusivamente da renda obtida com os hortifrutigranjeiros, para sua manutenção. Nos supermercados, os hortifrutigranjeiros são apenas um pequeno item de vendas.