[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Mais provas da ditadura dos banqueiros

quarta-feira 13 de junho de 1979


Como ela age, e força a nação a pagar seus lucros

Antes de mais nada, é preciso dizer que os analistas econômicos deste país, inclusive economistas de renome, vão cair do cavalo, logo, logo — porque, com seu eterno pessimismo, não estão vendo transformações essenciais dentro do sistema financeiro brasileiro. As análises precipitadas, maniqueístas, dos "pacotes" e outras medidas na área financeira estão fazendo ignorar que os ministros Simonsen e Rischbieter vêm agindo com firmeza em relação ao mercado — e vão chegar a uma redução nas taxas de juros. Dito isso é preciso acrescentar, porém, que a correção das distorções se faz, mais uma vez, às custas da nação, e com novos lucros para o mercado financeiro. Ante situações criadas, essa tem sido a única saída possível. Por isso, é preciso cortar as distorções do mercado financeiro pela raiz. Os desmandos do mercado financeiro podem ser avaliados através do noticiário das últimas semanas, que mostra como a nação sempre paga o pato: dia 7/6/1979 — "O período de liquidez excepcional (isto é, sobra de recursos) e de dinheiro muito barato no open market, que já se estende por vinte dias, está garantindo lucros generosos para os bancos, que estão conseguindo recursos para financiar suas carteiras de títulos a um custo muito inferior ao rendimento médio desses papéis. De acordo com o diretor de open market de um tradicional banco paulista, o rendimento médio de sua carteira de títulos é de 3,20% ao mês. Nesse princípio de junho, o custo médio do dinheiro no open market foi de 0,55%. A diferença entre essas taxas é lucro para os bancos, sem maiores gastos operacionais ou riscos". Quem está sustentando a situação? Segundo esse diretor de banco, "essa liquidez no open market vem sendo mantida artificialmente pelas autoridades monetárias (Banco Central), que procuram dar uma compensação para os bancos que concordaram em reduzir o volume de empréstimos e (ainda) aliviar a situação de muitas corretoras independentes que ficaram com problemas para financiar suas carteiras de títulos no período em que o dinheiro esteve caro no open (...) para evitar a quebra de diversas instituições". E mais: "Uma crise no open market teria repercussões muito grandes neste momento, quando surgem dentro do próprio governo vozes que criticam as distorções desse mercado e exigem medidas saneadoras". Existiria, assim (também), um objetivo político por trás da fartura de dinheiro no open. O Banco Central é responsável por isso? É. Veja-se o noticiário de 1/6/1979: "O Banco Central voltou a intervir, ontem, no open market, comprando (para injetar recursos) LTNs de 182 dias que (pasme-se) tinham entrado em circulação no dia anterior. Com essa atuação, as autoridades monetárias garantiram mais alguns dias de liquidez realmente fácil neste mercado".

Significado de tudo. É a eterna farra do open. Quando o Banco Central tenta reduzir os juros e fornece dinheiro ao mercado, em vez de os empréstimos ficarem mais baratos para as empresas, o que se vê são os bancos emitindo grandes lotes de certificados de depósitos a prazo e as financeiras emitindo letras de câmbio. Corretoras, distribuidoras, bancos compram esses títulos, sem ter dinheiro, isto é, indo tomá-lo emprestado (a baixo custo) no próprio open, por alguns dias (ver matéria à pág. 80). Quando as taxas sobem, e esses empréstimos precisam ser renovados, as instituições passam a ter prejuízos (pagam juros mais altos do que os rendimentos dos títulos), e o Banco Central, para evitar a quebradeira, é obrigado a comprar LTNs e jogar mais dinheiro no cassino. As taxas caem – como agora – e tudo começa de novo.

Há mais. Um detalhe que é preciso esclarecer: o que significa a afirmação, do banqueiro, de que o Banco Central, com seu dinheiro barato, está garantindo lucros para os banqueiros, "como uma compensação para os bancos que concordaram em reduzir o volume de empréstimos"? É isso mesmo: mais uma vez a ditadura do mercado financeiro. Os bancos estavam "estourando", e muito, os limites de empréstimos que as autoridades monetárias haviam estabelecido, dentro da política monetária, para combater a inflação. De onde vinha o dinheiro dos bancos? Da venda de certificados de depósitos a prazo no open, e pelos quais os bancos pagavam até 58%. O governo exigiu que o ritmo de empréstimos fosse reduzido, para se enquadrarem, até o fim do ano, nos limites previstos. Mas, como os bancos alegavam que já haviam vendido os certificados, pagando juros de 60% ao ano, as autoridades monetárias foram obrigadas a concordar que, se o dinheiro resultante daquela venda não fosse aplicado e ficasse parado nos cofres dos bancos, eles teriam um prejuízo brutal (aqueles 60%).

Um fato consumado. A saída encontrada foi "ajudar" os bancos, como quem não quer nada: jogar dinheiro no open, para permitir que os bancos tenham grandes lucros. Só que, como o dinheiro fica barato e para todo mundo, a farra é geral.

O acinte. Essa acintosa criação de fatos consumados pelo mercado financeiro, para que a nação pague, não fica por aí, porém. Como é que os bancos haviam conseguido vender um mar de certificados de depósito a prazo? Desafiando e desrespeitando o governo, lixando-se para com a nação. Antes do "pacote de abril", que limitou a venda dos certificados de depósito pelos bancos, "as autoridades (quem, hein?) avisaram o que fariam. Assim, foram tomadas medidas para aproveitar a situação", confidenciava um banqueiro à imprensa, em noticiário do dia 12 de maio último. Como? "Antes do ’pacote’, as diversas instituições dos conglomerados financeiros trocaram papéis entre si". O que isso significa? O banco comercial "comprou" certificados de depósitos a prazo do banco de investimento do mesmo grupo, e os estocou. O banco de investimento, por sua vez, "comprou" certificados a prazo do banco comercial e letras de câmbio da financeira do mesmo grupo. Arriscado? Os banqueiros sabiam que a nação pagaria. Como está pagando e vai pagar sempre – se não mudar tudo no open.



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