Jornal Diário da Manhã , terça-feira 15 de novembro de 1983
A viagem do presidente Figueiredo a países africanos desencadeou nova ofensiva da chamada “ala internacionalista” do “sistema”, de que o ex-ministro Roberto Campos é apenas um dos expoentes mais explícitos. Ela vem pressionando, também nas sombras, para que o Brasil se afaste dos países em desenvolvimento, o chamado Terceiro Mundo, e se “realinhe” com os países ricos, sobretudo os EUA, com todas as implicações que essa decisão traz – como atender a “reivindicações” do governo Reagan para a abertura de novos setores da economia brasileira às multinacionais, ou, no plano político, apoiar as posições da Casa Branca em assuntos como a intervenção da Nicarágua etc.
A argumentação que os “internacionalistas“ vêm adotando, é como sempre, mentirosa e distorcida. Procurando sempre ridicularizar o Itamaraty por seu “terceiro mundismo”, eles afirmam que os EUA e outros países desenvolvidos é que são os parceiros ideais para o Brasil, porque dispõem de enormes mercados consumidores e podem ampliar as importações de produtos brasileiros, ajudando a superar os problemas criados pela dívida externa. O prato de lentilhas parece muito atraente, mas elas estão podres.
Os “internacionalistas”, com o ex-ministro Roberto Campos à frente, fingem ignorar um dado essencial: os grandes compradores de produtos industriais brasileiros são os países em desenvolvimento e não os países ricos, que limitam suas compras aos produtos “tradicionais” de baixa tecnologia, como tecidos, roupas, calçados, sucos e, eventualmente, metais. O mercado externo representado pelos países em desenvolvimento, portanto, representa uma base para assegurar a expansão da indústria brasileira, o aumento da escala de produção, o desenvolvimento tecnológico. O futuro, em resumo. “Desprezar” os mercados dos países em desenvolvimento, em favor dos mercados dos países ricos, significa, em poucas palavras, jogar o futuro industrial do Brasil pela janela, inviabilizar o desenvolvimento tecnológico, eternizar a condição de país exportador de produtos de baixo teor tecnológico.
Nada garante que não seja exatamente isso que os “internacionalistas” desejam, a julgar pelas suas ações e atitudes, ontem como sempre. Maquiavelicamente, eles continuam a agir de forma desonesta, brandindo estatísticas e argumentos de forma a confundir a opinião pública. Na atual ofensiva, por exemplo, os “internacionalistas” têm exibido dados estatísticos relativos a 1982 e 1983, mostrando que, efetivamente, os países ricos estão importando mercadorias brasileiras em uma escala muito superior aos países em desenvolvimento – o que, aparentemente, comprovaria sua “tese”, de que os parceiros ideais são as nações ricas, e não o Terceiro Mundo. Já se apontou, acima, que essa visão é imediatista, ignora a importância fundamental dos mercados “pobres”, dentro de uma perspectiva de longo prazo. Mas não é só aí que reside a desonestidade da argumentação “internacionalistas”: ela está ignorando que esse “avanço” dos países ricos, agora com maior peso dentro do comércio internacional brasileiro, é um fenômeno transitório, passageiro, que não pode servir de base para o estabelecimento de uma estratégia comercial, – e política – por parte do governo.
Como assim? Desde 1975, no governo Geisel, lançou-se uma ofensiva para diversificar mercados e diversificar as mercadorias exportadas, com o decisivo apoio do Itamaraty (daí a campanha desmoralizante que lhe é movida pelos “internacionalistas”). O objetivo era duplo: reduzir a dependência em relação aos mercados dos EUA e outros países ricos, e conseguir novos clientes para os produtos industrializados brasileiros. Foi exatamente esta política que permitiu que as vendas brasileiras de manufaturados crescessem a mais de 30% ao ano, de 1975 a 1982 (para surpresa dos chamados “economistas de oposição”, que continuavam a repetir que o Brasil “não poderia aumentar suas exportações”, exatamente porque nunca tomaram conhecimento da nova política, nem das estatísticas que refletiam seus resultados. Como de hábito, falavam no vazio). E foi essa política, também, que permitiu que, no primeiro semestre de 1982, ocorresse um fato histórico: os países em desenvolvimento absorveram, naqueles seis meses, a metade das exportações brasileiras, contra uma participação insignificante, poucos anos antes.
Como explicar esses êxitos? É simples. Entre os países em desenvolvimento, por exemplo, figuravam vários importadores de petróleo, tanto os países árabes, como africanos (Nigéria, Argélia) ou latino-americanos (México, Equador). Havia interesse, da parte deles, em vender seu petróleo – e, por isso, davam preferência a mercadorias brasileiras. Mas outros dados mais profundos estavam em cena: a indústria brasileira, em relação à dos países ricos, produz artigos menos sofisticados tecnologicamente, e por isso mesmo mais adequados ao estágio de desenvolvimento dos países em desenvolvimento, produtores de petróleo ou não. Por exemplo, o México, ao acelerar sua incipiente industrialização, tinha e tem que dar preferência às máquinas, tornos, equipamentos brasileiros para montar suas fábricas, porque não lhes interessa, numa comparação extrema, adotar equipamentos robotizados, automatizados, inclusive porque sequer dispõe de mão de obra capacitada para utilizá-los. Em resumo: por crê ou por lê, os interesses do Brasil e dos demais países em desenvolvimento são efetivamente complementares.
Para ter uma idéia da importância que esses países passaram a ter para as indústrias brasileiras, e para a obtenção de dólares com as exportações: em 1981, apenas quatro desses países foram responsáveis por mais de 50% das exportações brasileiras de automóveis – e que passaram da respeitável soma de US$ 1,0 bilhão, naquele ano. Entre esses quatro importadores, estava a Nigéria.
Por que, então, como bradam os “internacionalistas”, os países ricos voltaram a ter um peso maior no comércio externo brasileiro em 1983? Ora, em 1982 os demais países em desenvolvimento também entraram em crise, por causa de sua dívida externa, e, como o Brasil, também precisaram cortar suas importações. A Nigéria, que importara quase US$ 800 milhões do Brasil em 1981, cortou-as para coisa de US$ 300 milhões, em 1982. Mas é um fenômeno passageiro, pois todos esses países, principalmente os que têm petróleo, estão conseguindo superar os problemas criados pela dívida externa. Além disso, o comércio com eles pode ser reativado na base de trocas, ou outros acordos novos – como o Brasil, agora, está procurando consolidar na atual viagem presidencial.
Os “internacionalistas”, como sempre, fingem ignorar toda essa realidade. Querem que o Brasil venda seu futuro por um prato de lentilhas. Podres.