Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 1º de maio de 1997
O sociólogo Fernando Henrique Cardoso e sua plêiade de gênios estão lançando mão de medidas provisórias – não apenas para roubar poderes do Legislativo e do Judiciário –, cancelando a democracia brasileira. Eles vão muito, muito mais longe. Com o maior despudor, estão cancelando, apagando, a própria história do país.
A esta altura eles procuram convencer o povo brasileiro de que sua classe empresarial é na verdade uma corja de aproveitadores, incompetentes, exploradores do restante da sociedade. Nos escritos e nas entrevistas dos gênios de FHC, repete-se insistentemente que os empresários nacionais só conseguiram sobreviver, chegar a posições de liderança entre os países menos desenvolvidos, graças a uma política protecionista, isto é, porque o mercado foi fechado para os concorrentes estrangeiros.
Fala-se que ’’a política de substituição de importações’’ foi um modelo que permitiu ao empresariado brasileiro deitar e rolar, explorar o consumidor, não preocupar-se com produtividade, não desenvolver tecnologia, não preocupar-se com custos – porque era proibido importar. Esse caudal de mentiras cancela a verdade histórica. Dá ao brasileiro uma visão totalmente distorcida, mesquinha, de uma etapa fantástica na vida do país, que simplesmente teria ’’quebrado’’ e hoje estaria entre os países mais atrasados do mundo se não fosse o ’’modelo de substituição’’ de importações.
FHC e seus gênios tentam, com a lavagem cerebral, passar a idéia de que, naquela fase, o país levantou cercas, foi transformado em um curral, para que os empresários carneassem e esfolassem milhões de bovinos e muares em que o povo teria sido transformado. Nada mais distante da verdade histórica.
Saga esquecida - No começo dos anos 70, o mundo foi abalado pela crise do petróleo, cujos preços triplicaram de uma hora para outra e continuaram em escalada até o final da década, subindo cerca de 12 (d-o-z-e) vezes.
O terremoto que atingiu a economia mundial afetou dramaticamente o Brasil, que, além de produzir apenas 10% do petróleo que consumia, importando os restantes 90%, ia buscar no exterior também máquinas e equipamentos para sua indústria, peças, componentes, fibras, fertilizantes, alumínio, aço, borracha, isto é, produtos básicos sem os quais a economia simplesmente pararia de funcionar.
O Brasil estava em um beco sem saída, encurralado. Não tinha mais dólares, agora consumidos pelo petróleo, para importar tudo isso. Precisava substituir todas essas importações, desenvolvendo a produção interna.
Sacrifício - Para chegar até lá, alcançar essa auto-suficiência, o Brasil precisava desenvolver tecnologia, isto é, ’’aprender’’ a fabricar, além de investir maciçamente, dezenas e dezenas de bilhões de reais. Investir não apenas nas fábricas de papel, usinas de metais, indústrias de máquinas – mas, também, em toda a infra-estrutura que desse suporte a esses empreendimentos, de usinas hidrelétricas a ferrovias, de rodovias a sistemas telefônicos.
O dinheiro apareceu, sob a forma de empréstimos externos e – atenção – de impostos, taxas, empréstimos compulsórios pagos pelo povo brasileiro. Uma verdadeira saga, ainda mais notável na área da tecnologia. Aqui, o governo estabeleceu uma política industrial estimulando os empresários a produzirem as peças, componentes e até matérias-primas importadas.
O mercado não foi simplesmente ’’fechado’’, como Fernando Henrique Cardoso e seus gênios dizem hoje. Foram estabelecidas metas para produzir cada item dentro de prazos determinados. Tudo no ’’tapa’’, em prejuízos ao consumidor? Não. Suponha-se, por exemplo, que um fabricante de máquinas precisasse de um ’’aço especial’’ para suportar altas temperaturas. Universidades, institutos de tecnologia, laboratórios de empresas estatais desenvolviam pesquisas para desenvolver o processo – e o repassavam para o empresário.
Houve, em resumo, desenvolvimento tecnológico, preocupação com qualidade, eficiência, preços, numa batalha histórica que uniu governos e empresários, beneficiando também o consumidor e permitindo o desenvolvimento do Brasil.