Jornal Gazeta Mercantil , quinta-feira 5 de fevereiro de 1976
A queda das cotações da soja no mercado mundial, no momento em que o Brasil inicia a comercialização de sua nova safra, não encontra justificativa nas estatísticas disponíveis, tudo indicando tratar-se de nova manobra contra o escoamento da produção brasileira.
O clima de desânimo, ou pânico, entre os produtores brasileiros foi reforçado, ontem, com as previsões sombrias do diretor técnico do Chase Manhattan Bank, Dan Klingenberg, em visita ao país para defender as vantagens do “mercado futuro” para a estabilidade das cotações dos produtos agrícolas. Segundo Klingenberg, “a produção mundial disponível para venda é estimada em 74,7 milhões de toneladas, enquanto em outubro passado a projeção do consumo era de 59,2 milhões de toneladas. Isto representaria – prossegue o visitante -, em setembro próximo (início da safra norte-americana), um estoque de 15,5 milhões de toneladas, contra estoques de 9,5 milhões de toneladas em 1975”. Por isso, é a sua conclusão, os preços da soja não poderão subir, mantendo-se nos baixos níveis atuais. A análise do visitante peca de dois lados: “incha” a oferta e subestima a demanda.
Refeitas as contas a partir de dados mais recentes, o mercado mundial de soja ofereceria um quadro totalmente diferente, reduzindo-se os estoques, no mínimo, em 9,0 milhões de toneladas, o que significaria a volta aos níveis normais, em torno de 6,0 milhões de toneladas. As estatísticas de Klingenberg estão aparentemente superadas, pelas seguintes razões.
Produção: para a oferta mundial de 75,0 milhões de toneladas, contava-se com uma produção norte-americana de 39,0 milhões de tonelada, isto é, 17% acima da safra do ano passado, de 33,5 milhões de toneladas.
No entanto, segundo divulgou o Departamento de Agricultura dos EUA na última semana, o plantio nos EUA vai ser reduzido em 7% (v. gráfico). Assim, se a produtividade for mantida, a safra norte-americana, em lugar de chegar aos 39,0 milhões de toneladas, cairia na verdade para 31,1 milhões de toneladas (7% abaixo dos níveis de 1975). Uma diferença, no caso, de 8,0 milhões de toneladas, somente na produção norte-americana.
Consumo: cauteloso, o visitante Klingenberg afirma que “em outubro passado a projeção – atente-se – do consumo era de 59,2 milhões de toneladas”. Porque um especialista usaria um dado estatístico de outubro, em pleno mês de fevereiro? Deve-se notar que a expressão “projeção de consumo” significa que o especialista verificou o consumo ocorrido em outubro e multiplicou esse consumo por 12 meses, para fazer uma “projeção” do consumo anual. Ora, é bom lembrar que a partir daí muitos dados novos surgiram no mercado mundial de soja e outros alimentos protéticos e matérias-primas de rações animais.
A “farinha de peixe”, fabricada a partir das anchovetas do Peru, importante item no suprimento mundial desses produtos (sua escassez foi um dos fatores do “boom” que a soja experimentou em 1973), sofreu, por exemplo, “quebras” drásticas com o governo peruano interrompendo a estação de pesca. O malogro das safras soviéticas também influenciou decisivamente a demanda mundial de grãos, no segundo semestre do ano passado.
Esses dois fenômenos novos – escassez de “farinha de peixe” e compras soviéticas – certamente alteraram favoravelmente o mercado mundial de soja, desde o mês escolhido pelo representante do Chase Manhattan para fazer suas projeções.
Um fator negativo, citado por Klingenberg, poderia ter contrabalançado os avanços resultantes desses dois fenômenos: a crise mundial da pecuária, representada pela queda do consumo de carne em conseqüência dos altos preços do produto, e que reduziu o consumo de rações a base de soja.
Mesmo a crise da pecuária, no entanto, tida insistentemente como um fator depressivo das cotações de soja, apresenta um lado positivo para os produtores da leguminosa – e insistentemente ignorado nas análises feitas até o presente sobre o mercado mundial.
Ocorre que, em conseqüência dos altos preços da carne no mercado mundial – e ante a onda de consumo de produtos “sem gordura”-, são exatamente os alimentos à base de soja que estão sendo usados para substituir a carne. Ainda em sua edição de 5 de janeiro último, a revista “Business Week”, da Editora Mar Graus Hill, analisava o “boom” desse setor, apresentando-o como um dos mais florescentes da economia norte-americana, prevendo que seus negócios poderão chegar à casa dos 20 bilhões de dólares anuais (200 trilhões de cruzeiros velhos) até 1980 somente nos EUA. Gigantes como a Nestlé, General Foods, General Mills estão produzindo todo tipo de alimento substitutivo à base de soja: bacon, presunto, frango, carne de vaca, atum, chocolate – e até castanhas figuram hoje nas mesas dos consumidores norte-americanos.