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  Classe média e povão rumo à crise

“Pacote” anunciado há 50 dias, quase dois meses. Classe média, povão, empresários, funcionários públicos e agricultores assistem à TV. Economistas, analistas, empresários, banqueiros falam sobre a crise que vem aí. Para alguns, no começo de 1999, “o desemprego vai crescer mais 4% a 5%”, atingindo níveis nunca vistos no país. Para ouros, a recessão “vai derrubar o PIB em uns 7%, no primeiro trimestre”.

Estranho país, este. A crise brutal que se aprofunda não é discutida, é apenas tratada como algo tão fantasioso como a novela das oito. Que nada tem a ver com a vida de milhões de famílias brasileiras. Fala-se no “PIB” ou na “taxa de desemprego”. Isto é, discutem-se “estatísticas” e, com a maior naturalidade robotizada, aceita-se que elas despenquem. Ora céus, o país não está diante de uma “crise das estatísticas”.

Os milhões de famílias brasileiras estão diante da perspectiva de que milhões de chefes de família, milhões de filhos, milhões de mães de família fiquem sem emprego, sem dinheiro para necessidades mínimas como comer. De que milhares de empresários “quebrem” e percam o fruto do seu trabalho de anos. O mesmo, para os agricultores.

A gente brasileira não está diante da queda de estatísticas, mas de um tempo de mais miséria, mais violência, mais doença não tratada, mais assaltos, mais uma “safra” de trombadinhas e trombadões, eles também empurrados para a violência contra a classe média, impulsionados por incontornáveis dificuldades financeiras.

A dança das estatísticas é alienada e alienante. As famílias brasileiras estão sendo enganadas, condenadas à impotência, levadas a acreditar que “o pacote vai resolver os problemas do país” (não vai), e por isso é forçoso “aceitar sacrifícios” (inexistentes aliás para quem está no poder ou próximo dele). Silenciosos, diante da TV, classe média, povão, empresários e agricultores vêem o negrume avançar. Não há motivo para essa passividade.

Em qualquer país do mundo, diante de uma crise – verdadeira “emergência nacional” –, governo e oposições se mobilizam para reduzir, o máximo possível, os efeitos desastrosos dos “pacotes” de ajuste – porque existem caminhos, armas de política econômica para isso. Aqui no Brasil, passados quase dois meses desde o primeiro anúncio do “pacote”, nenhuma providência desse tipo foi adotada – a não ser o irônico “prolongamento” do auxílio-desemprego. As famílias brasileiras estão sendo tangidas para o caos, como bois para o matadouro. Deveriam exigir providências alternativas do presidente da República, do Congresso Nacional, dos governadores, Assembléias e prefeitos.

Na Argentina, não

O governo quer aumentar a recessão. Está dito, na carta do FMI, que o pacote vai reduzir ainda mais a produção, para tentar reduzir as importações de peças, matérias-primas pela indústria e, assim, “poupar dólares” para reduzir o “rombo” com o exterior. Vamos deixar de lado, por ora, as aberrações que têm feito as importações disparar, insistentemente criticadas nesta coluna ao longo de quatro anos. Como exemplo de medidas “alternativas”, vamos analisar outro caminho para economizar os dólares e, ao mesmo tempo, criar renda, consumo, empregos, arrecadação de impostos e menos recessão.

No final dos anos 80, a Argentina sofreu crise semelhante à brasileira nos dias de hoje. Uma das providências do governo argentino: convocou o setor de turismo para um “mutirão”, destinado a evitar que os argentinos viajassem para o exterior (na época, sobretudo Santa Catarina). Hotéis, restaurantes, empresas aéreas e mesmo o comércio de regiões turísticas ganharam reduções nos impostos – com a condição de que reduzissem (mesmo, mesmo) seus preços e assim retivessem os turistas dentro da Argentina.

Não se diga desdenhosamente que providências como essa são “coisinhas” diante do tamanho da crise. Os brasileiros estão gastando US$ 6 bilhões – por ano... – com viagens turísticas/ compras lá fora. Reduzir esses gastos em 30% já deixaria uns US$ 2 bilhões no país. Mas, além dos dólares, a estratégia criaria empregos, renda, consumo, impostos – tudo, com efeitos multiplicadores sobre a economia, aqui dentro.

Atenção: a redução de impostos deve atingir setores capazes de criar maior número de empregos e, ainda, em várias regiões do país. A proposta de reduzir impostos – outra vez!!! – para forçar a venda de carros, com a chamada renovação da frota, é uma indecência, inexplicavelmente apoiada por lideranças políticas e sindicais consideradas respeitáveis.

Pense pequeno

Há outras providências “pequenas”, eficazes contra as conseqüências do pacote – e que não entram em choque com os compromissos que o governo FHC assumiu com o FMI. Algumas delas nem sequer são novidade, nem no Brasil nem no mundo. Governos de Estado e prefeitos (também “imóveis”, sem preocupação com “seu povo”, até aqui) podem dar prioridade a pequenas obras e serviços (não é um “vexame” criar “frentes de trabalho”, não. Na crise dos anos 80, até o governo dos EUA usou essa tática).

Em São Paulo, por exemplo, pode-se atacar os “corredores de ônibus”, baratos, e adiar o Rodoanel, de custo bilionário (e falsamente “privatizado”, já que Estado, prefeitura e União pagarão tudo ou quase tudo – salvo, óbvio, as “praças de pedágio”...). Os Estados, em programa conjunto com prefeitos, podem apoiar a agricultura, sobretudo a familiar, utilizando dinheiro das caixas estaduais e bancos estatais – que colocariam como prioridade também o apoio aos pequenos e microempresários.

E o governo federal, com o apoio – e pressão – do Congresso Nacional? Para aumentar indiretamente o poder aquisitivo da população, uma alternativa (que não aumentaria o déficit do Tesouro) seria reduzir as prestações da casa própria, quando reajustadas pela terrível TR (ilegal, de resto), adiando (e não perdoando) o pagamento da parcela “anistiada” para o final do financiamento. Caberia ao governo federal, ainda, repetir uma experiência do México: convocar bancos e financeiras para rever contratos e reduzir as taxas de juros cobradas dos consumidores. Elas foram majoradas de forma massacrante há muito tempo: os juros do Banco Central estão em 35% – ao ano. E os bancos e financeiras cobram 10% a 13% dos clientes – ao mês. Nada a ver, portanto, com a “crise asiática” ou “compensação por causa da inadimplência”. Ao contrário do que se diz, os lucros dos bancos continuam altíssimos, entre os maiores do mundo.

Por limitações de espaço, é impossível alongar a lista de providências que permitiriam abrandar a desgraceira prevista para 1999. Acima de tudo, é preciso substituir a dança das estatísticas por um debate em que fique clara a necessidade e a possibilidade de as famílias brasileiras se mobilizarem intensamente, até no dia-a-dia, para minimizar a crise.

Nos países asiáticos, a população foi convocada a dar preferência aos produtos nacionais, para poupar dólares, defender seus empregos e superar a recessão. Para isso, entidades empresariais e governo lançaram campanhas de motivação. Aqui, a população é mantida à margem, condenada a espectadora da dança de estatísticas. Dança trágica.

Os “grampos”

Colunistas e comentaristas rasgam elogios aos “técnicos de altíssimo nível” que o governo perdeu por causa dos grampos telefônicos. É mesmo? Pois aqui vai um desafio a esses colunistas: favor citar um único, unzinho só exemplo de previsão da equipe FHC que se cumpriu, ao longo de quatro anos. Queda das importações? Aumento das exportações? Queda da inadimplência? Redução do desemprego? “O Brasil não é a Ásia”? Safra agrícola recorde? Crescimento da economia no segundo semestre de 1998? Ora, ora. Os erros da equipe econômica, mês a mês, colocaram o Brasil no buraco. Que “competência” é essa? Qual o objetivo dessa louvação?


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