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  E agora, quem está com medo da Bolsa?

Jornal Correio da Manhã , segunda-feira 10 de maio de 1971


A primeira vez em que o Brasil arrotou a importância de seu mercado de ações – “temos a terceira Bolsa do mundo” – foi na base da Coca-Cola. Muito gás, volume nenhum no estômago. Era 1969, aí por julho/agosto. O mercado estourava marcas a cada dia, cotações chegavam às nuvens, havia histeria no ar. Porque não havia informação. Havia uma corrida, um efeito – demonstração, o vizinho invejando, o vizinho, que invejava o chefe, que invejava o estudante da Getúlio Vargas que invejava o vizinho – que entrara na Bolsa antes de cada um deles e que tinha até – o quê? – ações do Banco do Brasil.

É na base do ufanismo, ou ainda uma vez do arroto, que se procura, agora defender o mesmo mercado de ações contra críticas, ao excesso de dinheiro que estaria sendo canalizado paras as Bolsas. Hoje, porém, o arroto não precisaria ser produto de uma falsa ilusão de pança cheia. Bastaria que os representantes do mercado, a quem incumbe defendê-lo, se municiassem de dados para cortar a maré crescente de reprovação – antes que ela se transforme em fatos e medidas concretas. E é o oposto que se vê: o termômetro que o próprio mercado fornece para medir sua saúde alarmaria qualquer média, no caso as autoridades monetárias. Qual o termômetro? Os índices Preço/Lucro (v. “Fichário”, nesta edição), que demonstram quando uma ação está cara ou barata, ou ainda, na tradicional explicação, em quantos anos um investidor que comprasse determinada ação teria seu dinheiro de volta, exclusivamente com base nos rendimentos da empresa, independente de sua valorização em Bolsa. Pois os PLs que têm sido fornecidos ao mercado são, quando nada, aterrorizantes. Chovem ações com PLs acima de 30, há catadupas de ações com PLs acima de 20, e legiões deles na faixa dos 13 a 17.

O duro purgativo
Mas o termômetro está viciado: mede em graus Farenheit o que deveria ser medido em graus centígrados. Simplesmente, não tem havido a preocupação, dos responsáveis pelo mercado, em atualizar os números básicos utilizados no cálculo dos PLs. Ou, mais simplesmente, se os PLs são calculados dividindo-se a cotação do dia pelo lucro por ação no último balanço da empresa, e se esse lucro por ação se refere a balanços antigos, a distorção é inevitável. Exemplo? Siderúrgica Riograndense, nos cálculos oficiais divulgados na última semana, está com um PL de “apenas” 74,1 (isto é, a ação levaria 74 anos para pagar-se). Por que? Porque o lucro por ação anterior de Siderurgia esteve na casa dos 0,20 cruzeiro. E em 1970? O lucro por ação foi de 0,68 e, assim, o PL cai para 23,9. caso isolado? Não, exemplos como esses há às dezenas.

O que isso interessa ao investidor comum? Tanto quanto interessa a uma família – não particularmente apaixonada por enterros – que o médico que vem atender, a um seu doente, não lhe receite um antitérmico por fiar-se na temperatura acusada pelo termômetro. Isso, de um ponto de vista amplo. De um ponto de vista mais direto, o investidor comum pode tirar proveitos dos raciocínios que o atual debate (?) provoca. Antes demais nada, confiar apenas em PLs atualizados, colocando os velhos de lado, para não perder boas oportunidades de lucro (Siderúrgica Riograndense, apenas como exemplo, pode ser péssimo negócio com um PL de 70, mas pode ser um negócio razoável com um PL de 24). E, em segundo lugar, procurar aplicar, na prática, as lições que a evolução das Bolsas em 1970 e 1969 deixou.

O fascínio da tradição
Em 1969, ano da grande corrida, a economia brasileira não era exatamente o que as estatísticas mostravam. Mesmo em S. Paulo os aumentos da produção industrial, por exemplo, concentravam-se quase exclusivamente na área da Grande São Paulo, principalmente ABC, centro da indústria automobilística, enquanto o interior enfrentava uma penúria de fazer dó. A euforia na Bolsa era, exatamente, o falso ronco do estômago vazio. Basta ver os lucros por ação que as empresas então apresentavam em seus balanços (entre parênteses, os lucros deste ano) e PLs decorrentes, com base nas cotações de julho de 1969, para entender-se as estrepolias no mercado:

• Alpargatas, lucro por ação de 0,18 (0,26): cotação de 4,05, índice PL de 22,5. • América Fabril, lucro por ação de 0,004 (0,002), cotação de 0,9, índice PL de cálculo desnecessário • Arno, 0,17 (0,26), cotação de 1,90, PL de 11. • Belgo, lucro por ação de 0,05 (0,37), cotação de 16,28, índice PL de 325 (trezentos e vinte e cinco). • Estrela, lucro por ação de 0,10 (0,23), cotação de 1,95, índice de PL de 19,5.

É inútil estender a lista. É preciso lembrar que essas cotações se referem ao dia 10 de julho de 1969 (extraídas de publicação técnica da Bolsa do Rio), e foram os meses de julho e agosto, justamente, aqueles marcados pela maior loucura, levando as cotações a níveis muito acima dos citados. Deixe-se esse detalhe de lado, porque nem ele é importante para estabelecer diferença entre as situações presente e passada.

A ferida localizada
Há duas constantes nos dados acima: PLs acima de 10, próximos de 15 e lucros por ação, isto é, resultado das empresas nos balanços na casa dos 0,10 cruzeiro, ou 10 por cento sobre o capital. Juntando-se os dois dados numa análise, o PL ganha então a sua verdadeira dimensão: como é que empresas com tão baixa rentabilidade podiam conseguir, na época, um verdadeiro leilão de suas ações? Volte-se à época, e há uma conclusão inevitável; nada, absolutamente nada, fazia confiar no destino a curto ou médio prazo dessas empresas (inclusive porque estava-se ainda no “rabo” do processo das “falências purificadoras”). Os magazines, na época, tanto podiam vender mais como simplesmente afundar (basta ver o grande número de cadeias de lojas que desapareceram nos últimos dois anos em São Paulo, como resultado dos prejuízos daquela época). As siderúrgicas tanto podiam aumentar o faturamento como não agüentar o tranco da descapitalização. As fábricas de brinquedo tanto podiam ter um Natal feliz como serem engolidas por robozinhos de olhos apertados, introduzidos no país graças a uma política mais liberal de importações. E assim por diante. Em que se apoiava o mercado, então? No desconhecimento da Bolsa. No desconhecimento das ações. No desconhecimento das empresas. Na sede de ganhos. No efeito-demonstração, na inveja do vizinho, do amigo, do colega de turma, do primo rico.

E agora? Poucas vezes a economia brasileira assistiu a uma safra de balanços tão bons. Quando não bons em si, ao menos muito bons em relação aos resultados de um ou dois anos atrás para a mesma empresa. Chovem os lucros nas faixas dos 0,30 cruzeiro, há catadupas deles na faixa dos 0,20/0,25. São empresas com futuro. Se investir em ações é pagar certo preço a partir de uma expectativa de rentabilidade da empresa, não é outra coisa que o mercado está fazendo, no momento. As exceções? Estão aí para serem corrigidas. Pelo mercado, ou pelos médicos. Mas não se dá um antitérmico a quem está com um ardor localizado na área tomada por uma ferida. Pomada para essas coisas.



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