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  Contenção contra o clima inflacionário

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 7 de fevereiro de 1985


A violenta contenção nos gastos do governo e do crédito oficial vai provocar, inevitavelmente, uma desaceleração temporária na expansão da economia. Ela terá porém um impacto favorável na área mais problemática, hoje, na economia brasileira: a inflação. Desde o final do ano passado, todo o País – e os círculos empresariais em particular – mergulhou em violenta expectativa inflacionária. Ela foi reforçada ainda, quando se soube que o governo emitira rios de dinheiro em dezembro, fazendo com que a base monetária explodisse a uma taxa de 38% em um único mês. Com esses resultados, a impressão dominante, fortalecida a cada dia, apontava em uma única direção: o “governo velho” havia decidido cruzar os braços diante da inflação. O violento corte nos gastos oficiais, agora anunciado, terá por isso mesmo forte impacto psicológico: aconteceu exatamente aquilo em que ninguém acreditava, isto é, que surgissem medidas drásticas contra inflação nos últimos dias de um governo que sequer fez o seu sucessor. A escalada de preços, que os “acordos de cavalheiros” não conseguiram conter, tende agora a ser refreada.

Por que a decisão demorou tanto a surgir, quando desde dezembro o governo tinha conhecimento (por dispor de dados sigilosos) dos “estouros” da base monetária? Não se descarta a possibilidade de representantes do futuro governo, se não o próprio presidente eleito, terem procurado entendimentos com os escalões mais altos da administração atual, pedindo medidas contra a explosão inflacionária. Com maior probabilidade, porém, surge a hipótese de que o Fundo Monetário Internacional e os banqueiros credores do Brasil não tenham engolido os violentos “estouros” monetários do final de 1984 – e tenham, por isso, endurecido as negociações com o presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore, em Nova York.

Uma observação importante sobre as medidas: elas foram apresentadas como necessárias para reduzir o “déficit público”, contendo-se assim a emissão de dinheiro (expansão da base monetária) e a inflação. Mais uma vez, transforma-se o Estado e as estatais em “bode expiatório”, inculpando-os por problemas que não provocaram. Como já se explicou várias vezes aqui na Folha, o déficit do setor público não é resultado de “gastos” do governo e das estatais. Os empréstimos aos estaleiros, aos usineiros, aos grupos que estão especulando com o café, às construtoras que devem Cr$ 4 trilhões atrasados ao BNH – em resumo, todo o dinheiro emitido para alimentar negócios, regulares ou irregulares, do setor privado é incluído no chamado “déficit do setor público”. Em outras palavras, a “base monetária” e a inflação explodiram também por causa dos privilégios a grupos privados. Agora, a economia será “desacelerada” por causa deles. Todo o País paga a conta.



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