O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  A moratória é inevitável,
por Rogério Malaquias

Repórter Fecesp, Agosto de 1999

Com experiência de 43 anos em jornalismo econômico, Aloysio Biondi, em entrevista realizada no início de agosto de 1999, prevê para breve um novo “despencamento” do Real. Para ele, que mantém uma coluna diária (exceto sábado) no jornal paulistano Diário Popular, o País está quebrado. Conseqüência do “escancaramento” das importações, das privatizações e da desnacionalização da economia. Biondi acredita que a moratória é inevitável e alerta para a privatização-doação da Petrobras. Ele declara que o governo Fernando Henrique Cardoso é delirante não brasileiro e vê na grande imprensa uma cúmplice desse governo, que levou o Brasil “à grande crise, com desemprego, quebra de empresas, desnacionalização, dívidas interna e externa explosivas”. Ganhador por duas vezes do Prêmio Esso de Jornalismo Econômico (1967, revista Visão, e 1970, revista Veja), com passagens pelas redações da Folha de S.Paulo e Gazeta Mercantil, e autor do livro O Brasil Privatizado, o jornalista defende a idéia de que os Estados Unidos são a “bola da vez”: o país está sendo pressionado a desvalorizar o dólar, assim como o Brasil desvalorizou o Real.

Repórter Fecesp: Como está a situação econômica do Brasil?

Aloysio Biondi: O País está quebrado e o Real não está salvo. O governo federal tem uma dívida interna de R$ 400 bilhões, em títulos. Como se fossem promissórias, que devem ser pagas em determinadas datas. No mês de junho, os juros pagos pela União, com os Estados e Municípios, chegaram ao valor de R$ 10 bilhões. O triplo dos R$ 3 bilhões de juros enfrentados em junho do ano passado. É uma maluquice, já que a arrecadação do governo está na média de R$ 12 bilhões. Na verdade, o governo não pagou. Emitiu novos títulos, que vendeu no mercado financeiro: bancos, fundos de investimentos, grandes especuladores nacionais ou internacionais. Já a dívida externa é de US$ 230 bilhões e o Brasil precisa arranjar mais de US$ 30 bilhões somente para pagar os juros, sem pagar um centavo de dólar das prestações da dívida. A conseqüência dessa situação é a necessidade de novos empréstimos, com crescimento insuportável da dívida externa, em dólares. As declarações governamentais de que o déficit está controlado são mentirosas. E o banqueiro, o credor internacional, sabe que mais cedo ou mais tarde o Brasil vai chegar numa situação insustentável. Os credores olham esses números e concluem que o governo brasileiro vai acabar sendo forçado a pagar essa dívida com um prazo de muitos anos. A Sonia Racy, jornalista do O Estado de S. Paulo, que ninguém vai dizer que é contra o governo, deu uma nota recentemente, dizendo que as pessoas já estão comprando dólar, pensando no futuro. Foi assim que aconteceu em janeiro de 1999, quando ocorreu a primeira desvalorização do Real.

RF: O governo está dizendo que o Brasil recuperou a credibilidade no exterior!

Biondi: Isso é conversa para boi dormir. As exportações não estão crescendo e as importações não estão caindo como previsto, porque nossa economia foi desnacionalizada. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e os Estados Unidos liberaram empréstimos no ano passado para permitir a reeleição de Fernando Henrique. E agora continuam a fornecer empréstimos, prolongando a agonia do País. Estão adiando a grande crise, com o despencamento do Real, que com certeza virá. Assim, mantém temporariamente o governo Fernando Henrique para que ele termine o vergonhoso processo de privatização, que interessa muito a eles, como é o caso do petróleo. A estratégia do FMI e dos Estados Unidos é privatizar o petróleo, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banespa e depois deixar o País quebrar. Só que tenho a impressão de que a crise explode antes disso.

RF: E como chegamos a essa situação?

Biondi: Quebramos internamente e externamente. Tudo começa com o escancaramento das importações; a redução, até a eliminação total do imposto sobre importação no País. Tudo no Brasil foi feito de maneira mentirosa. Com esse papo de que a proteção ao empresário local era muito grande, o governo autorizou os produtos importados a entrarem aqui sem pagar um tostão de imposto. Isso não existe no planeta. O Japão, por exemplo, que é uma potência, taxa o produto importado em 16%. Na Coréia, o imposto é de 23%. Fomos enganados e aconteceu uma quebradeira geral de nossas empresas. O governo jogou a opinião pública contra o empresário nacional, dizendo que ele era protegido, e nunca citou os dados de fora. Outra coisa que não foi dita é que esses produtos todos vieram financiados até por um ano. Os argentinos, por exemplo, estão vendendo trigo para nós. O governo argentino dá crédito com um ano de prazo, e 8% de juros ao ano. O dono de um moinho de trigo nacional vai comprar trigo argentino, porque vai pagar só daqui a um ano, com juros de 8% ao ano. Não vai comprar trigo nacional com juros de 3, 4% ao mês. Os argentinos estão plantando algodão e arroz para vender para o nosso País. O governo brasileiro destruiu a alma nacional. Jogou o consumidor contra o empresário; o consumidor contra o agricultor; o contribuinte contra o funcionário público. Ficou provando que todo mundo era ineficiente. Destruiu a identidade, a solidariedade nacional. Nosso governo não tem a menor dedicação com os interesses nacionais. A sociedade como um todo tem de defender sua renda para ter consumo e emprego.

RF: Quais são os outros fatores que nos levaram a tamanho endividamento?

Biondi: O Brasil tinha um dos maiores saldos positivos de balança comercial do planeta: US$ 15 milhões. Em cinco anos, nossos governantes criaram um buraco de US$ 21 bilhões, ao importar mais do que exportar. A questão da remessa de lucros e dividendos é também um aspecto importante. Elas passaram de algo entre US$ 600 milhões por ano para atingir a faixa dos US$ 7,8 bilhões em 1998. Ou seja, as privatizações não aumentaram as vendas de equipamentos e peças. Os compradores das estatais preferem remeter seus lucros para o exterior e importar equipamentos de suas matrizes ou associadas. No caso do telefone celular, por exemplo, a Motorola usa apenas 5% de peças nacionais. As outras empresas não usam nada, só montam o aparelho.

RF: E o discurso oficial de que haverá crescimento econômico no segundo semestre de 1999?

Biondi: Não acontecerá. O governo Fernando Henrique é delirante, assim como existem vários economistas e empresários delirantes. O aumento do salário mínimo foi de R$ 6. A exportação está nas mãos das multinacionais. O funcionalismo público está sem reajuste há cinco anos e foi confiscado com aumento da contribuição previdenciária. Existe desemprego de 20% nas regiões metropolitanas e queda da renda agrícola. Como é possível esperar essa recuperação se o povo não tem mais poder aquisitivo? Os preços de exportação melhoraram, por causa da desvalorização do Real. Mas as dívidas interna e externa também aumentaram.

RF: Falta vontade política do governo brasileiro para mudar os rumos da economia?

Biondi: O governo Fernando Henrique não é brasileiro, não tem preocupação com o País. Bill Clinton, o presidente dos Estados Unidos, criou há dois anos o seguro agrícola contra mal tempo. Criou também o seguro contra quedas violentas de preços. É o capitalismo protegendo seus produtos. Essa história de que não pode existir protecionismo só serve pra nós. Eles estão fazendo o correto, defendendo seus interesses. Cobram impostos para impedir importações e subsidiam largamente a produção e a exportação. Enquanto isso, o governo brasileiro perdoa totalmente ou reduz para 2% ou 3% os impostos de importação. Usou a mesma desculpa para destruir a indústria nacional: “forçar o agricultor a produzir mais barato para beneficiar o consumidor”. Estamos comprando até coco de países asiáticos, como Tailândia e Indonésia, e cacau de países africanos. Sem apoio, massacrados por importações nos últimos anos e com prejuízos brutais, os agricultores ainda são xingados por Fernando Henrique de “caloteiros”.

RF: A moratória é inevitável, então?

Biondi: Moratória não significa calote. É sentar-se à mesa e discutir novos prazos de pagamento. O governo vende a idéia – com o apoio dos meios de comunicação – de que após a decretação da moratória não se volta ao mercado mundial durante anos. O que é uma mentira. É preciso chegar aos banqueiros e dizer claramente que não existem condições de pagar toda a dívida. E pagar em 20 anos, com feito na crise de 82. Isso significa uma ruptura automática com o FMI. Com a moratória decretada, seria necessário um controle sobre a saída de dólares do País e a aplicação de tarifas de importações, como os outros países fazem, e acabar com essa conversa fiada de terminar com o protecionismo. A dívida interna também só poderia ser paga em dez anos. A saída é virar a mesa.

RF: O desemprego tem jeito?

Biondi: É perfeitamente possível uma política de emprego para o País. O problema é que temos de “jogar fora” tudo que foi feito até agora. Todas as cadeias produtivas foram destruídas. Estamos importando dormentes da China! A privatização da Eletrobrás, por exemplo, não aumentou as vendas da área de equipamentos. Os novos donos preferem remeter seus lucros para o exterior e importar peças de suas matrizes ou associadas. Precisamos explorar o mercado interno. Para isso, necessitamos ter emprego, salário e renda.

RF: De que maneira o movimento sindical pode contribuir?

Biondi: Os meios de comunicação não abriram espaço para as propostas do movimento sindical. Agora, com toda a falência da política econômica governamental, é preciso que o movimento sindical discuta com toda a sociedade a necessidade de revê-lo. O essencial é mostrar que não existe a separação entre consumidor e trabalhador. Também acho que cada sindicato deve exigir de sua central, seja ela qual for, o mesmo tratamento dado aos metalúrgicos.

RF: Empresas como Mappin, Lojas Brasileiras, G. Aronson e Arapuá faliram. O que isso significa para o País e como as falências podem ser contidas?

Biondi: Nos últimos 40 anos não vi sobreviver sequer uma grande cadeia varejista. Ducal, Exposição, Eletroradiobrás, Pirani, todas elas quebraram. Todo grupo, seja bancário, industrial ou comercial, quando começa a crescer muito faz muitas besteiras. Essas empresas que acabei de citar compraram inúmeras redes menores. O motivo da queda é o crescimento rápido com perda e dinamismo.

RF: O senhor tem 43 anos de experiência como jornalista. Já viu a imprensa tão histericamente pró-governo como está acontecendo agora?

Biondi: Não. Nem na Ditadura Militar (1964-85). Existiam alas da sociedade pedindo democratização e mesmo dentro do próprio regime militar havia setores que achavam necessário democratizar. Um dos truques da imprensa chapa-rosa é dar manchetes com estatísticas provisórias, que nada significam e depois noticiar, escondidinho, as estatísticas definitivas, que mostram a realidade, negativa. A imprensa pró-governo continua tentando enganar a sociedade, com notícias mentirosamente apresentadas para esconder a crise.

RF: O senhor escreveu o livro O Brasil Privatizado, verdadeiro dossiê sobre as privatizações. Qual delas foi a mais escandalosa?

Biondi: No meu livro tem um capítulo chamado Petróleo, um escândalo escandaloso. Desde o final do ano passado, o governo Fernando Henrique havia programado um leilão para “privatizar”, “vender” áreas do território brasileiro onde a Petrobras descobriu petróleo. Em outras palavras, realizar leilões para permitir que grupos empresariais privados e grandes multinacionais passassem a extrair petróleo e faturar bilhões e bilhões de reais que na verdade pertencem à população brasileira. Poucos sabem, mas o Brasil, principalmente no fundo do mar, na plataforma submarina, tem as jazidas de petróleo mais fabulosas do planeta. São campos de petróleo onde um poço, sozinho, produz nada menos de dez mil barris por dia. Só para comparar, lembro que a maioria dos poços de petróleo dos Estados Unidos produz miseráveis 100 barris por dia. Cem vezes menos. Agora, o governo anunciou a venda das áreas de petróleo brasileiro por um preço que nem é preço: só uns trocadinhos. De R$ 50 mil a R$ 150 mil por área onde podem ser abertos centenas de poços. Melhor que uma mina de ouro. Já no caso de “investimentos para enriquecer os compradores”, o caso mais escandaloso foi o do sistema Telebrás. Em 1996, o governo duplicou os investimentos nas teles, alcançando R$ 7,5 bilhões, chegou aos R$ 8,5 bilhões em 1997 e investiu mais R$ 5 bilhões no primeiro semestre de 1998, totalizando R$ 21 bilhões de investimentos em dois anos e meio. Só que em nosso País a mentira campeia solta e as empresas “compradoras” dizem, e os meios de comunicação repetem, que os problemas surgidos depois da privatização se devem à falta de investimentos no período em que elas eram estatais. Todo o processo de privatizações é absolutamente escandaloso. E absurdo.

RF: O senhor tem afirmado que os Estados Unidos são a “bola da vez”.

Biondi: E são mesmo. A Bolsa de Valores de Nova Iorque vai despencar e haverá um grande tumulto nos mercados mundiais. Os Estados Unidos são o maior “caloteiro” do planeta. Há uns 40 anos este país faz importações com um valor muito maior do que as exportações. Isto é, compram mercadorias de outros países em um valor muito mais alto do que vendido para outros países. Portanto, há um “rombo” na balança comercial (valor das exportações menos o valor das importações). Para pagar a diferença eles emitem dólares e os outros países aceitam. Acontece que o “rombo” chegou a US$ 300 bilhões em 1999. Os outros países não estão querendo aceitar mais esse “calote”. Querem que os Estados Unidos desvalorizem o dólar. É essa ameaça que está derrubando a Bolsa de Nova Iorque. Uma crise econômica para os americanos se aproxima.



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