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  O País e a ilusão aritmética do Produto Interno Bruto

Jornal Gazeta Mercantil , sábado 26 de julho de 1975


Uma exclamação triunfante: “agora o PIB vai cair”. Ela será ouvida com freqüência cada vez maior no Brasil. Nos próximos meses, partindo de duas áreas da opinião pública, antagonistas entre si e no entanto irmanada no irracionalismo. Há, de um lado, os opositores à mudança de modelo econômico, empreendida pelo Brasil desde 1974, e que contraria seus interesses, soberanos e absolutos em anos anteriores. E há os opositores por habituação, que nos últimos anos criticavam a mentalidade do “crescimento a qualquer custo”, a obsessão com a taxas de avanço do PIB e, agora, perdida essa “bandeira”, empunham a mesma bandeira dos interesses contrariados, para alegria e espanto desses setores.

“Se o PIB crescer menos, ótimo” - eis o tema para um amplo debate nacional de que participem empresários, economistas, trabalhadores, estudantes e todas as pessoas que reúnam condições de pensar ou raciocinar, no país. Um debate em linguagem simples, raciocínios diretos, exemplos concretos, tão pouco ao agrado da mentalidade tecnocrática que dominou a vida econômica do país nos últimos anos e deixou uma herança que só lentamente vai sendo descoberta, e ainda assim através de dados dispersos - como o “desastre ferroviário”. Um debate que permita a conclusão, em resumo, de que menores taxas de crescimento do PIB não são uma desgraça. Podem mesmo, ser motivo de orgulho.

O PRIMEIRO PECADO

O país precisa aprender, ou lembrar-se, de que o PIB é antes de mais nada uma ilusão. Simplificadamente, o Produto Interno Bruto de um país é a soma do valor de todas as coisas produzidas dentro de um país. Por isso mesmo, o PIB é uma “ilusão aritmética”, desde o início, ou, mais ainda, um deus devorador dos próprios homens que o cultuam. Suponha-se, num exemplo real, que um país produza 400 apartamentos de luxo, no valor de 1,0 milhão de cruzeiros cada um. Suponha-se, por absurdo, que esse mesmo país só “produzisse” imóveis. Isto é, que o valor do seu PIB fosse igual à soma do valor dos imóveis produzidos. Como conseqüência, naquele ano o valor do PIB, no caso, seria de 400 milhões de cruzeiros, isto é, o valor somado dos 400 apartamentos ao custo de 1,0 milhão de cruzeiros cada um.

Suponha-se que esse país resolvesse construir, em lugar de 400 apartamentos de luxo, 10 mil casas populares, ao custo de 30 mil cruzeiros cada uma, no valor total de 300 mil cruzeiros. O que ocorreria? No primeiro caso, 400 apartamentos representariam um PIB de 400 mil cruzeiros. No segundo caso, 10.000 casas representariam um PIB de 300 mil cruzeiros. Como 300 mil é mais que 400 mil, conclui-se que com 400 apartamentos de luxo o PIB cresce mais do que com 10 mil casas populares. Para quem raciocina, não é difícil concluir que, a partir desse exemplo, real, pode-se compreender toda a ilusão em torno do crescimento do PIB. Aritmeticamente, pelo método de cálculo do PIB, o país que produziu 400 apartamentos “cresceu” mais que o país que constrói 10.000 casas.

O SEGUNDO PECADO

Entenda-se bem: é lógico que o primeiro modelo, baseado em imóveis (ou outros bens) de luxo acumulará problemas sociais e distorções: não apenas 10 mil famílias deixarão de ter casa própria, como o emprego de mão-de-obra será substancialmente menor (entre outras conseqüências). Mas não é isso que importa. O que a coletividade brasileira precisa compreender, de uma vez por todas, é que pode-se crescer – frise-se; repita-se; atente-se – também quando o modelo econômico adotado tem preocupações sociais, estuda alternativas, faz opções.

A grande, a fundamental, questão colocada à sociedade brasileira nos últimos anos era falsa. Perguntava-se: “o que é preferível entre essas duas alternativas: A) crescer rapidamente, mesmo mantendo milhões de brasileiros em condições sub-humanas de existência, para que o futuro fosse melhor para todos, ou B) partir para uma política com preocupações sociais, e não crescer, eternizando-se a miséria? As alternativas foram, equivocadamente, colocadas como antagônicas. A verdade é que se pode crescer sem a necessidade de acumular distorções e problemas sociais. Pode-se até “crescer” menos velozmente, com um PIB menor e, no entanto, eliminar-se o sacrifício de gerações, e as tensões sociais que hoje vão aflorando perigosamente, por força das distorções acumuladas.

REVISÃO DE POSIÇÕES

Deve-se lembrar, em resumo, que o PIB cresceu rapidamente nos últimos anos exatamente porque se produziu bens de consumo, de luxo, cada vez mais caros, para estreitas faixas da população. Em lugar de trens, fizeram-se carros de luxo, cada vez mais caros, engordando o PIB. Em lugar de remédios populares, para milhões de brasileiros, lançou-se fórmulas caríssimas, engordando o PIB. Em lugar de toneladas de farinha ou mandioca para milhões de brasileiros, passou-se a produzir caros sucos, purês, sopas, alimentos supergelados. Em lugar de calçados, roupas, livros aos milhões, somente produtos de luxo. Bens mais caros, de maior valor, como no caso dos imóveis de luxo, fizeram o PIB crescer mais rapidamente – mas a um altíssimo custo invisível, que agora está sendo cobrado à sociedade brasileira.

O país está procurado inverter os termos da equação: em lugar de produzir poucas centenas de bens de alto preço, procura produzir bens em larga escala (ao mesmo tempo em que reforça o setor de bens básicos). Numa primeira etapa a “reciclagem” pode resultar até em menores taxas de “crescimento” do PIB. Mas isso não será motivo de vergonha. Ao contrário, na medida em que milhões de brasileiros são integrados à sociedade, será até motivo de orgulho. O PIB é uma ilusão. Monstruosa.



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