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  O que os países ricos podem nos ensinar

Revista Nova , fevereiro de 1983


Quem vai ao exterior, e visita os países mais ricos, observa diferenças gritantes em relação ao Brasil. Por exemplo: nos prédios de apartamentos, mesmo novos, os elevadores são lentos, freqüentemente desprovidos de portas maciças, como as brasileiras, ostentando “ainda” as “velhas” portas de grade só existentes, no Brasil, nos prédios antiqüíssimos. Quem meditar sobre o contraste, vai descobrir uma das razões da atual crise brasileira: o desperdício, a megalomania. E vai, por isso mesmo, acreditar mais uma vez que a atual crise brasileira pode apresentar, também, resultados benéficos, decorrentes da mudança de mentalidade, como a rejeição aos desperdícios dos últimos anos. Isto, claro, se os governantes finalmente se convencerem da necessidade de novos padrões de comportamento – o que, por sua vez, dependerá em grande parte pela opinião pública. Por você, como parte dela.

Quais as lições a tirar dos elevadores “antiquados”, lentos, dos países ricos? Ora, é óbvio que um elevador precisa ser rápido em edifícios de escritórios, repartições públicas etc., porque há aí intensa movimentação de pessoas. Num prédio de apartamentos, essas condições não existem, e ignorar a diferença é criar distorções e desperdícios em cadeia. O elevador “rápido” requer um motor mais possante, logo, consome mais energia - e tem materiais mais caros na sua fabricação. Aparentemente, o desperdício seria insignificante. No entanto, isto serve para exemplificar um dos principais problemas da economia brasileira: o alto custo das cidades, ou o alto custo da “urbanização”.

Como assim? Veja bem: a maioria dos prédios brasileiros são dotados desses elevadores de desempenho superior às necessidades reais. Logo, a economia do país gasta uma fábula de recursos na sua fabricação, na fabricação de suas peças e componentes, na produção de matérias-primas etc. Como gasta, ainda, uma fábula em energia na sua operação. Tudo a exigir, conseqüentemente, a constante ampliação das usinas hidrelétricas e outras fontes de energia, com novo desperdício de recursos – e assim sucessivamente, numa cadeia de feitos que se prolonga indefinidamente dentro da economia.

Em 1960, dois terços da população brasileira ainda moravam e trabalhavam na zona rural. Em 1980, a população rural representava coisa de um terço do total – chegando ao mínimo de 10% em estados como São Paulo e Rio. A “explosão” das cidades brasileiras, em função do maciço êxodo rural nas décadas de 60 e 70, trouxe, inegavelmente, imensa sobrecarga à economia brasileira, representada pela necessidade de investir maciçamente no atendimento das populações “urbanizadas”. Habitação, esgoto, água, transportes, iluminação, serviços de educação, saúde e lazer – tudo isso exigiu e exige fortunas, criando-se situações de deficiência alarmantes, até o presente. O problema certamente seria menor se não tivesse imperado a mentalidade megalômana e os desperdícios, com adoção de padrões “sofisticados”. Que não existem nem nos países mais ricos, com muito mais recursos e muito menos problemas nessa área – já que seu processo de urbanização se fez ao longo de décadas ou séculos.

Usou-se o exemplo dos elevadores apenas para demonstrar como um desperdício aparentemente insignificante acaba tendo efeitos multiplicadores sobre a economia, “roubando” recursos que o país poderia usar para resolver os seus problemas mais urgentes, como criar empregos, riqueza, bem-estar para a população. Mas, por toda a parte, há desperdícios de todos os tipos, nas cidades brasileiras.

Por exemplo: no Brasil, nota-se a mania de “pavimentação” de ruas. Até em filmes da televisão, no entanto, você pode observar que, nos países ricos, as coisas são diferentes. Dá-se a cada via o tratamento que ela precisa, conforme a movimentação que ela tem. Melhor explicado: ruas de tráfego intenso são pavimentadas; alamedas, “travessas” que servem apenas aos moradores das residências vizinhas, por onde rodam raros carros, são cascalhadas, recobertas de pedra britada (uma proposta que parece uma heresia até aos miseráveis das favelas brasileiras...)

Em relação a esgotos, a mesma coisa: em lugar de gigantescos e caríssimos sistemas que vão lançar os efluentes em rios e represas a dezenas de quilômetros de distância, utilizam-se fossas coletivas, isto é, os esgotos das residências são canalizados para fossas de grandes proporções, destinadas ao atendimento das moradias de dois, três quarteirões, por exemplo. No Brasil, “fossa” e “poço” (para obtenção de água) são palavrões.

Assim, a partir de agora, quando você ouvir dizer que as prefeituras brasileiras estão falidas, que os governantes estaduais não têm dinheiro, não se angustie. Lógico que é preciso uma reforma tributária, na cobrança de impostos, para dar-lhes mais recursos. Tão importante quanto isso, porém, é mudar a mentalidade, é abandonar a megalomania, usar a inteligência e aproveitar melhor os recursos disponíveis. O Brasil pode reduzir o “custo das suas cidades”, o custo da urbanização, revendo os atuais padrões de construção e os atuais padrões de obras e serviços públicos. Isto não é “nivelar por baixo”, como muita gente boa, mas desinformada, insiste em dizer. Isto é “nivelar por cima”. É imitar a parcimônia e a racionalidade de outros países mais ricos.



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