Jornal Folha de S.Paulo , domingo 25 de julho de 1982
Sempre que a inflação dispara, no Brasil, surgem propostas para extinguir a correção monetária. Desta vez, apôs os estouro dos preços no mês de junho, a proposta foi feita publicamente pelo ministro Camilo Pena, recebendo o apoio também público do presidente da República, em declarações à imprensa ainda durante sua visita ao Canadá.
A correção monetária realmente dificulta a queda da inflação? Sim. Mas isto ocorre somente quando o governo, de um País qualquer, adota uma política econômica eficiente para cortar a alta de preços: por mais corretas que as medidas sejam, os resultados serão mais lentos, por causa da correção. Não é este, no entanto, o caso do Brasil nos dias de hoje. a Inflação continua, vigorosa, por uma série de erros e distorções da política econômica — que a correção apenas reforça. O que o País precisa, portanto, é rever esses problemas, e não apenas cuidar da extinção — mesmo gradativa, como parece ser Intenção do governo — da correção monetária.
Economistas e líderes empresariais têm dito, pessimisticamente, que os problemas críticos da economia brasileira somente poderão ser enfrentados após as eleições de novembro, Já que eles exigirão a adoção de medidas impopulares, de sacrifício para a população. Por trás desse raciocínio, existem alguns conceitos bastante perigosos. Por exemplo: acredita-se que será preciso novo "tratamento de choque", nova recessão, para enfrentar o problema. Um ponto de vista que poderá transformar-se em realidade pelo fato puro e simples de que, á medida que o tempo passa, a situação fica mais e mais insustentável, acabando por exigir remédios dramáticos.
Na verdade, seria perfeitamente possível, sem traumas, ir corrigindo desde já os erros e distorções atuais.
TRATAMENTO GRADUAL
Já se disse, sarcasticamente, que se deve manter o otimismo, diante da crise brasileira: está tudo tão errado, mas tão errado na economia brasileira, que é multo mais fácil conseguir bons resultados aqui do que nos países em que há uma política econômica eficiente, pois, neles, qualquer melhora depende de medidas complexas.
As medidas econômicas adotadas pelos ministros brasileiros nos últimos meses, efetivamente, ilustram à perfeição a tradicional Imagem da devastação feita por "macacos soltos em loja de louças". A Inflação que ai está é fruto dessas medidas, e para reverter a tendência basta começar a mudar de orientação.
Pode-se sintetizar perfeitamente esses desacertos com outra imagem: ao atender um doente com febre altíssima, os médicos o cobrem com pilhas de cobertores, colocam bolsa de água quente em todos os espaços de sua cama, ligam aquecedores em seu quarto. Depois, ficam "surpresos" porque a febre dispara e o enfermo entra em convulsão. Somaram calor mais calor mais calor mais calor — e esperavam que a temperatura caísse.
O presidente da República, ao atribuir a Inflação de junto também a "fatores psicológicos", deu demonstração de não ter percebido os disparates cometidos na área econômica: tente-se explicá-los, passo a passo:
* A correção monetária reflete os índices de inflação.
* A Inflação, por sua vez, é — note-se bem — a média do comportamento dos preços. Os preços de alguns produtos sobem, os preços de outros produtos caem, somam-se os aumentos e os recuos, tira-se a média, e obtém-se o índice de inflação no País.
* O Brasil já tinha a correção monetária para os aluguéis, as aplicações no mercado financeiro, os salários (pois o INPC é uma forma de correção), o valor de imóveis etc. Quer dizer (e isto precisa ficar bem entendido): alguns custos, dentro da economia, terão que subir, sempre, uma percentagem equivalente à inflação já existente através da correção (enquanto ela não foi mudada).
* Logicamente, para que a inflação começasse a subir mais lentamente, para que a febre começasse a ceder, seria preciso que os demais preços dos demais produtos ou setores acusassem uma alta inferior á própria correção monetária daquele mês (se alguém tem um copo de água quente na mão, não conseguirá amorna io acrescentando mais água com s mesma temperatura, e sim misturando água mais fria até um beócio sabe disso).
CEGUEIRA INCOMPREENSÍVEL
Não dá para entender como é que os ministros se esqueceram disto. O fato é que, este ano, eles começaram a "corrigir" os preços de vários setores de acordo com a Inflação Já atingida. Isto é, um número crescente de setores da economia brasileira começou a ter seus preços aumentados num percentual equivalente, no mínimo — note-se bem —, no mínimo igual à Inflação já observada. Com Isso, a Inflação antiga, retratada nessas correções, passou a ser o "piso", Isto é, o limite mínimo da Inflação futura: como ficar "surpreso" quando a temperatura do doente disparou?
Esse critério foi adotado para os preços mínimos agrícolas, reajustados todos os meses pelo INPC; para as tarifas de serviços públicos, idem; para a desvalorização do cruzeiro (que não desconta mais a inflação mundial), para as anuidades escolares (há mais tempo), para as obras públicas e imóveis em construção etc. — sem falar na fixação do preço do trigo em dólar (subindo a cada queda do cruzeiro), e os reajustes do preço do cale de acordo com a correção cambial (idem).
O critério é esdrúxulo, não tem fundamento econômico e não pode ser mantido. Assim como os salários são reajustados de acordo com o aumento dos "custos" de sobrevivência do trabalhador, os preços dos diversos setores econômicos devem ser reajustados.