Jornal Opinião , segunda-feira 12 de agosto de 1974
A praga da teorização tem sufocado a agricultura brasileira nos últimos anos. Sua disseminação se faz sobretudo através de dois agentes: correntes de economistas formadas nas universidades do asfalto ou nos escritórios de bancos, e a imprensa identificada com os grandes grupos empresariais, que insistem, monótona e às vezes mal intencionadamente, na necessidade de "modernizar" a estrutura agrícola, a três níveis:
a) Plantio, com a substituição do produtor individual pelas grandes empresas rurais;
b) Comercialização interna, com a implantação de sofisticadas estruturas, a cargo também de grandes organizações empresariais;
c) Comercialização externa, ainda na mesma linha anterior.
Em meio a essa teorização toda, parece que o país está caminhando para redescobrir as necessidades reais da agricultura. Ao serem anunciados os preços mínimos para as próximas safras, surgiu uma afirmação, por parte do presidente da República, prática e direta: o principal problema da agricultura é a comercialização, não porque ela precise ser modernizada, mas porque — é a afirmação presidencial — o intermediário continua a levar todos os ganhos no processo, em prejuízo do agricultor e do consumidor. Uma realidade elementar e que por isso mesmo nunca surge nas sofisticadas análises teóricas, na área oficial ou na área da oposição.
SOFISTICAÇÃO A NU
Os descaminhos da sofisticação podem ser facilmente avaliados pelo teor de trechos de uma edição especial dedicada à agricultura, lançada por um jornal carioca. Ao analisar a atual estrutura de comercialização das safras, o trabalho afirma que o maior inimigo do lavrador seria o interrmediário conhecido como caminhoneiro, isto é, “o livre atirador, dono de um caminhão, que vai até as mais remotas fontes produtoras rurais, onde as estradas de terra batida não constam dos mapas rodoviários”, comprar as safras do produtor.
O que faz a sinistra figura do caminhoneiro, segundo a chamada grande imprensa? Num exemplo, dado pelo trabalho: “O intermediário foi a Santa Catarina na última safra e comprou feijão preto comum junto aos pequenos minifundiários pobres, pagando Cr$ 45,10 por saca de 60 quilos, quando a cotação oficial do governo era de Cr$ 49,20. De saída, a ação desse comerciante estava aviltando a economia agrícola local, devido aos irrisórios preços pagos ao agricultor”.
Prosseguindo a comovente novela: “Depois de deixar para trás, descapitalizada, toda uma região produtora... o intermediário, chegando a São Paulo, repassou o feijão para uma grande empresa do grande atacado, subsidiária de uma cadeia de supermercados" (sic).
E mais: “Nessa transação, a saca de 60 quilos pulou de Cr$ 45,10 para Cr$ 61,58”. Finalmente, num parêntese surpreendente: “Na verdade, a mercadoria não mudou de dono, pois o negociante que vai ao interior adquirir as safras é empregado das empresas atacadistas”.
Ora, qualquer Sherloque de subúrbio, pela simples colagem desses trechos, pode chegar a uma conclusão: se o caminhoneiro “que vai ao interior é empregado das empresas atacadistas”, e se as empresas atacadistas são “subsidiárias de uma cadeia de supermercados”, não há como fugir à descoberta de quem abocanha todos os lucros: as cadeias de supermercados, as “sofisticadas” formas empresariais que se pregam como solução para o problema agrícola.
Esse tipo de conclusão não interessa aos teóricos, que tentam impingir à opinião pública a impressão de que as grandes organizações, operando em escala, funcionam sempre em defesa do interesse público e com o máximo de eficiência. O pequeno e médio produtor, o pequeno e médio comerciante, em contrapartida, são apresentados sempre como marginais em potencial, prontos a lesar o consumidor a qualquer momento.
Sintomaticamente, o mesmo trabalho jornalístico dá a palavra a um representante da Associação de Supermercados do Grande Rio (um “estudioso do abastecimento”), que afirma, do alto de sua erudição: “O caminhoneiro se transformou num especulador, tirando tudo do produtor rural, sem dar-lhe condições de ganhar dinheiro suficiente para aplicar na sua lavoura”. Restou perguntar: a mando de quem?
Esse tipo de análise não é gratuito. O representante dos supermercados aponta que “enquanto não houver uma integração dos diversos mercados regionais, o caminhão continuará sendo o quebra-galho indispensável”. A solução proposta? “Enquanto as Bolsas de Alimentos não funcionarem... o intermediário permanece à solta, atuando impunemente”, prejudicando o lavrador, desestimulando a agricultura, atrasando o crescimento do país, provocando altas de preços para o consumidor.
Quem conhece o Brasil sabe como se divulgam certas teses “sofisticadas”, sabe como são sutis as campanhas para obter vantagens do governo — isto é, da coletividade. Análises distorcidas, conclusões viciosas, repetidas dia a dia, servem para lastrear as reivindicações de determinados setores que, se atendidas, renderão bilhões de cruzeiros — eternizando problemas, ou criando novos. Nada há a falar contra altos lucros deste ou daquele setor. Mas, no momento em que se planeja a reestruturação da agricultura, em todos os seus aspectos, argumentos e dados irreais não podem subsistir. Está em jogo não o maior ou menor lucro de um setor, mas a própria transformação de toda a estrutura de uma área da sociedade e da economia — com reflexos futuros sobre toda a economia e toda a sociedade.
Na área da comercialização, a conclusão evidente é que a “modernização” já ocorreu: segundo estudos oficiais, citados pelo mesmo trabalho, hoje, no Rio, os atacadistas, que vendem a milhares de varejistas, “são responsáveis pelo abastecimento de apenas 44,6% dos cereais consumidos. Os restantes 55,4% entram diretamente para as cadeias de supermercados e hipermercados através de sua intermediação própria”. Quanto ao caminhoneiro, que atua por conta própria, franco-atirador, não empregado dos atacadistas e supermercados, ele ainda existe, sim; mas, ainda segundo estudos oficiais, respondem por apenas 5% da movimentação das safras em São Paulo.
A “modernização”, já feita, levou ao monopólio de atacadistas e supermercados, levou à possibilidade de altos lucros dos intermediários às custas do produtor e do consumidor, como aponta agora o presidente da República. Da constatação oficial desse fenômeno talvez surja o renascimento das cooperativas de produtores, um caminho que o bom senso indica para modernizar a estrutura da agricultura e do abastecimento, sem criar novos problemas e distorções.