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  Trigo para os porcos, dona Ruth!

Revista Bundas , terça-feira 2 de novembro de 1999


É claro que dona Ruth Cardoso não deve ter tempo para ler notinhas em letras pequenininhas, escondidas nos jornais. Mas se ela confiar essa tarefa a um assessor, pode fazer descobertas incríveis, e tirar conclusões definitivas sobre o governo do qual faz parte. No curto espaço de cinco dias, de 17 a 22 de outubro, por exemplo, três notícias serviram para mostrar como o Brasil avança.

No Paraná, os produtores de trigo estão jogando sua colheita nos chiqueiros, currais, galinheiros, usando o produto para alimentar porcos, bois, galinhas. O nutritivo e caro trigo substitui o modesto milho. Motivo? Os agricultores não têm a quem vender sua produção. O trigo nacional, que custa ll5 dólares a tonelada, está sendo substituído pelo trigo argentino, que é mais caro, chegando ao Brasil por l30 dólares a tonelada. Como explicar essa preferência? É simples: o governo argentino financia as exportações agrícolas, isto é, o importador brasileiro tem 180 dias para pagar suas compras, a juros de apenas 8% ao ano. Por falta de financiamento, o trigo brasileiro deve ser pago à vista.

Até uma criança é capaz de entender que o importador terá grandes lucros comprando lá fora, pois poderá aplicar o dinheiro, durante l80 dias, a juros altíssimos aqui dentro. É por isso mesmo, como dona Ruth Cardoso descobrirá, que a produção brasileira de trigo desabou de 6,0 para 2,5 milhões de toneladas, para um consumo de 8,0 milhões de toneladas - e, mesmo assim, a produção nacional encalha, é atirada aos porcos. E o governo ? No passado, até a posse do sociólogo, o governo comprava a produção que estivesse sobrando. Pagava preços mínimos às famílias de agricultores – como os EUA e a Europa fazem à larga.Com essas compras, o governo formava estoques, que vendia nos anos de safras menores, para ajudar a conter os preços, beneficiando então o consumidor. O governo do qual dona Ruth faz parte cancelou toda a política agrícola, a pretexto de forçar o produtor a se “modernizar”: não compra mais safras e não há financiamento para enfrentar o concorrente estrangeiro.

Um “massacre” equivalente ao desfechado contra a indústria nacional, para a qual não foi traçada, também, nenhuma política de apoio (não confundir com “proteção”).Por isso mesmo, como dona Ruth poderá verificar, nos mesmos Estados do Sul do país, já se anuncia – é essa a segunda noticinha publicada no período - uma redução violenta no plantio de arroz para o próximo ano. Motivos? Tudo igualzinho ao trigo: grande safra este ano, preços baixos, nada de compras do governo, prejuízos para o produtor. Pois é, dona Ruth. Trigo jogado para os porcos, arroz sobrando, laranja apodrecendo nos pomares... Enquanto isso, como dona Ruth sabe, o governo a que ela serve não libera, desde julho, o dinheiro para a distribuição de cestas básicas a 1,7 milhão de famílias, ou 8,5 milhões de pessoas, não só do Nordeste como de outros bolsões de pobreza. As cestas só vão voltar a ser entregues em novembro!!! E, atenção, com novos cortes no seu conteúdo, que passou de 25 quilos para 19 quilos no ano passado e cairá para l6 quilos, daqui para a frente. Eram 10 quilos de arroz, no passado, que minguaram para 5 quilos em l998, e agora vão encolher para míseros 3 quilos. E eram 3 quilos de macarrão, subproduto do trigo, que simplesmente vão desaparecer da cesta. Basta juntar as três notícias para ter um retrato do governo FHC: os mesmos alimentos que estão sobrando no campo são cortados das cestas. Ruína para milhões de famílias de agricultores, fome para milhões de brasileiros. Compras do governo representariam renda, emprego, consumo no interior – e crescimento para toda a economia. E o inacreditável genocídio que está ocorrendo nas regiões pobres seria evitado. Ah, sim, os porcos vão luzidiamente bem, obrigado.



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