Jornal Diário Popular ,
O consumidor brasileiro, pobre para os padrões internacionais, só vai pagar taxas de juros tão baixas quanto nos países ricos daqui a uns cinco anos. A declaração é de um diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, e mostra, portanto, a total despreocupação do governo FHC em relação ao hábito de os bancos, no Brasil, tirarem o couro de seus clientes. Em outros países, a declaração provocaria indignação, pois os juros altos representam, sim, um verdadeiro assalto contra a renda dos trabalhadores e empresários, devidamente desviada para os cofres dos banqueiros.
Segundo o mesmo diretor, em maio os juros médios para as pessoas físicas ficaram em 74% ao ano, com o pico de 141% ao ano (ou 7% ao mês) para o cheque especial, e 44,4% para as empresas. Esses números estapafúrdios, assim como as previsões cúmplices do governo, são recebidas com apatia no Brasil. Aqui, durante os anos e anos de inflação alta, o consumidor brasileiro acostumou-se a não dar a menor importância às taxas de juros que pagava nas suas compras a prazo (e empréstimos bancários). Afinal de contas, o dinheiro valia mesmo cada vez menos a cada mês e a mercadoria ficava tão mais cara a cada mês, que parecia uma tolice perder tempo com essas contas. A inflação foi embora, o hábito se manteve.
Pouquíssimos consumidores, até hoje, pararam para pensar sobre o significado, para eles próprios, do pagamento de juros exagerados. Se refletissem, descobririam que pagar juros é ‘‘comprar vento’’, gastar dinheiro sem receber nada concreto em troca (não se deixando de considerar, obviamente, que a compra pelo crediário ou mediante empréstimos é uma forma de antecipar a posse de bens e serviços). Ou, em outras palavras, o dinheiro gasto com juros, principalmente em um país de baixa renda como o Brasil, é um desperdício, ‘‘torra’’ de dinheiro que, se poupado, poderia transformar-se na compra de outros bens ou formação de patrimônio, ao longo do tempo. Isso, do ponto de vista do consumidor. É claro que, de outro lado da mesa, os juros escorchantes representam lucros sem comparação no resto do mundo, para os banqueiros. É um pequeno segmento da economia tomando de assalto o dinheiro de milhões de trabalhadores e empresários.
Agora, já se sabe que o Banco Central não vai agir contra essa aberração. Filosoficamente, diz que tudo só muda em cinco anos. A esta altura, consumidores e empresários se perguntam: afinal de contas, por que se faz tanto barulho em torno das tais taxas básicas (Selic) que o governo reduziu de 18,5%para 17,5% terça-feira? Na verdade, no Brasil elas só valem para as operações que o Banco Central faz com o mercado financeiro ou para os negócios entre as próprias instituições no mercado. Nos outros países, não é assim. Como explica o próprio diretor do BC, o crédito e empréstimos para pessoas físicas lá fora têm juros que ficam entre 15% e 25% acima da taxa básica do banco central do país, geralmente em torno de 6%, o que significa que, no Brasil, os juros para os clientes pessoas físicas deveriam estar entre 32,5% a 42,5% - isto é, 17,5% mais 15% ou 25% e não em 70% a 140% ao ano. Assalto, mesmo. Cabe aos consumidores e empresários se defenderem. Individualmente. Ou através de suas entidades.