Jornal Diário da Manhã , sábado 17 de setembro de 1983
As donas-de-casa e os chefes de família brasileiros dedicaram-se, nos últimos meses, a uma febril estocagem de alimentos: arroz, feijão óleo, leite em pó etc. Esse comportamento assegurou “lucros” superiores a qualquer tipo de aplicação de dinheiro – open, dólar etc. – já que todos esses produtos apresentaram aumentos na faixa de 100% a 300% em poucos meses, sendo freqüentes os “saltos” de 50% em seus custos, da noite para o dia. Agora, porém, chegou a hora de a população alterar completamente esse comportamento e consumir os produtos estocados em casa – pois isso deverá, até, contribuir para estabilizar ou mesmo derrubar os preços. Por uma série de fatores, a especulação com os alimentos está chegando ao fim, com a “estocagem” só compensando em casos excepcionais:
Soja – nos últimos nove dias a saca do produto caiu Cr$ 5.000,00 na Bolsa de Mercadorias de São Paulo, e as cotações mundiais do grão, do óleo (e do farelo usado como ração animal) também estão despencando (10% em uma semana) após intensa especulação na Bolsa de Chicago. Há estoques “guardados”, tanto na indústria, como no comércio e nas mãos dos consumidores. Dificilmente, os preços dos produtos deixarão de cair, a partir do final do mês.
Feijão – o governo vem leiloando seus estoques, para compra pelos atacadistas, e as vendas têm sido inferiores à quantidade ofertada. Quer dizer: há mais feijão, na praça, do que se pensa. Como já se aproxima a nova safra do Paraná, esses estoques vão ser “desovados” – e os preços tenderão a cair.
Arroz – acima da faixa de Cr$ 400,00 o quilo, não vale a pena comprar para guardar. O governo autorizou importações, e já foi contratada a compra de 120 mil toneladas no exterior, além de aproximar-se a nova safra. Estoques “guardados” também deverão aparecer, estabilizando ou reduzindo os preços.
Carne – sofreu um aumento brutal de 50% em duas semanas. Com a queda no consumo, deverá haver ligeiro recuo de preços. Milho – teve uma alta inacreditável de 100%, com a saca pulando de Cr$ 5.000,00 para Cr$ 10.000,00, no começo desta semana. Quem ainda encontrar óleo de milho, farinha e fubá a preços velhos, ou ligeiramente aumentados, deve aproveitar para formar um estoque para um mês de consumo. Não mais que isso, pois as cotações dos produtos estão caindo no mercado mundial, e o governo autorizou a importação do produto.
Frango – Quem ainda encontrar frango a preço antigo, na faixa Cr$ 800/1.000 o quilo, também deve aproveitar para formar estoques para um mês/um mês e meio de consumo. Seus preços deverão subir (em alguns estabelecimentos comerciais a alta já ocorreu), por causa do custo do milho – e também por causa da grande diferença de preços em relação à carne bovina.
Leite em pó, manteiga e queijo – seus preços serão reajustados de acordo com aumento do leite “in natura”. Quem ainda encontrar esses produtos a preços não majorados, pode estocar (para um mês/um mês e meio no caso do leite em pó).