Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 1º de novembro de 1984
As tentativas oficiais de explicar a inflação de outubro oscilam entre duas versões. Ora se diz que foi um “susto”, uma “surpresa”. Ora se afirma que o mês de outubro é sempre marcado por índices elevados, por causa da entressafra agrícola: a alta seria um fenômeno “estacional” ou “sazonal”. Se o governo quer mesmo que o acordo contra a inflação seja levado a sério, é preciso antes de mais nada que ele próprio se leve a sério, isto é, não continue a recorrer a explicações simplórias para encobrir seus erros e omissões. Pois a alta da inflação em outubro, aos níveis a que chegou, poderia perfeitamente ter sido evitada pelo governo.
Conforme os dados da Fundação Getúlio Vargas, o principal foco de pressão inflacionária no mês que findou correspondeu mais uma vez à área agrícola: no índice de preços no atacado, os gêneros alimentícios subiram nada menos de 15,9%, enquanto os produtos agrícolas em geral subiam 16,5%. No índice de custo de vida, igualmente, a maior alta ficou para a alimentação, com 12,9% de aumento. O grande determinante desse salto foi a carne bovina – que puxou, atrás de si, o frango, a carne de suínos, os ovos. Hoje, a Secretaria Especial de Abastecimento e Preços – Seap, diz, “triunfante”, que esses produtos já estão em queda, pois as altas tiveram grande componente especulativo, articuladas a partir de manobras no chamado mercado a tempo (vendas para datas futuras), do boi. Ora, desde maio que essa especulação estava claramente delineada, com a imprensa chamando a atenção da Seap para o problema. Nada se fez. Ou, ao contrário, deu-se apoio oficial à especulação, através do cancelamento de importações já programadas, e de novos adiamentos na cobrança de dívidas de frigoríficos para com o próprio governo, permitindo-lhes reter estoques.
Além do “grupo carne”, e apesar da queda de preços no mercado internacional, também o óleo de soja continuou em alta, no mercado interno, e por um motivo que a muitos parecerá até inacreditável. Qual é ele? A pecuária mundial está em crise, às voltas com a superprodução (há 600 mil toneladas estocadas na Europa), e com isso tem havido queda, este ano, nas vendas internacionais de farelo de soja (usado como ração) brasileiro. Pasme-se, mas é verdade: com o “encalhe” do farelo, as indústrias brasileiras se desinteressaram pelo esmagamento da soja em grão, para produzir o óleo (obtendo-se o farelo como resíduo). Com isso, passou a haver “escassez” de óleo no mercado interno, e os preços puderam ser aumentados. Incrível, mas verdadeiro: a queda da demanda de um produto (farelo) acaba – no Brasil – sendo um fator inflacionário, uma nova sobrecarga para o consumidor, representada pela escassez artificial de outro produto (o óleo) que era atribuição da Seap combater.
Não cabe alongar aqui a análise de erros ou omissões oficiais em relação a outros produtos agrícolas, como o café, o açúcar, o arroz. O importante, como o caso da carne e do óleo de soja demonstram, é que o “acordo contra a inflação” somente funcionará e terá êxito se uma condição básica for atendida: a “abertura” das conversações entre empresas e governo. Mais claramente, não se pode acertar que as conversações entre empresas e governo, dentro das comissões constituídas a partir de acordo, transcorram a portas fechadas e sem que se cuide de divulgar os motivos e os cálculos que justificaram a concessão de reajustes de preços a este ou aquele setor. Somente assim a sociedade poderá ter a garantia de que as decisões são justas, sem privilégios e sem “facilitários”. A advertência não é gratuita: afinal, desde o segundo trimestre deste ano, o governo suspendeu a publicação das portarias do CIP – Conselho Interministerial de Preços, concedendo reajustes a setores empresariais, e que tradicionalmente eram divulgados no “Diário Oficial”. Quer dizer: há meses, no Brasil, ninguém sabe quanto um setor está “ganhando” do governo, em termos de reajustes de preços, enquanto a inflação galopa.
Atendidas a essas condições, o acordo antiinflacionário continua a contar com possibilidade de êxito. As indústrias hoje têm condições sim, de praticar reajustes de preços menores, graças ao aumento em suas vendas e em seus lucros, já desde o trimestre passado: ainda ontem, e apenas como exemplo, a Acesita anunciava aumento de 435% em sua lucratividade em outubro, em relação a igual mês de 1983; e a Cônsul, do setor de eletrodomésticos, revelava um “salto” de 400% em seu lucro, de julho a setembro. Quanto aos alimentos, após os abusos de outubro, há uma volta à normalidade, com queda nos preços da carne bovina, do frango e do feijão – isto é, dos produtos com maior peso no índice da inflação. Falta o governo tomar providências em relação ao óleo de soja – e rever a absurda decisão de reajustar mensalmente os preços do café, para que também a área agrícola dê forte contribuição à queda da inflação. Já.